Literatura
O último sábado de julho amanhece quieto: Maternidade e luto convivem
Silvana Tavano Foto: Paulo Vitale
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Silvana Tavano Foto: Paulo Vitale
Protagonista de “O último sábado de julho amanhece quieto” precisa lidar com o luto pela perda do marido enquanto gesta o filho do casal
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura

O título do primeiro romance de Silvana Tavano surge logo nas primeiras linhas do livro, num início poético e instigante. “O último sábado de julho amanhece quieto, são 6h40, ela está sozinha na cama de casal”. Beatriz acaba de despertar. O sol mal nasceu e o marido já não está na cama ao seu lado. Para onde ele foi? A mulher está grávida. Se por fora tudo parece quieto e silencioso, dentro de si um turbilhão de hormônios, pensamentos e planos a inundam. A mulher conta os dias para compartilhar a notícia com Cristiano. Um plano que nunca se concretiza: de maneira inesperada, o companheiro morre. “O último sábado de julho amanhece quieto” é um lançamento da Autêntica Contemporânea.
Os dois pólos no ciclo da vida se atraem e se repelem na trajetória de Beatriz: o nascimento e a morte. Ao mesmo tempo em que gesta uma nova existência, ela precisa lidar com uma perda repentina e definitiva. Seja a família, os amigos, um novo terapeuta, ninguém parece dar conta de entender o processo que a mulher enfrenta. “Beatriz não quer expor a tragédia de sua gestação em luto, não suporta os silêncios constrangedores, a pena disfarçada nos olhares compreensivos”.
Beatriz é tradutora. Seu trabalho é transpor para a própria língua textos alheios, atrás sempre da palavra exata, frase por frase, buscando sentidos em uma nova língua, estrangeira àquela em que foram originalmente escritos. Traduzir é também reescrever. Se as palavras a acompanham dia a dia, elas parecem ter desaparecido a partir do trauma. Como reencontrá-las? Como elaborar o próprio luto enquanto uma nova vida toma forma dentro de si? “Tragédia é só uma palavra, e palavras nem sempre são capazes de traduzir o peso, o tamanho das coisas, às vezes as palavras são chão, só isso, chão”.
A construção textual tem um desenvolvimento interessante no romance. Apesar de narrado em terceira pessoa, o texto é inundado pela voz (e, sobretudo, pelo pensamento) da protagonista, em momentos em que se aproxima de um fluxo de consciência febril e intenso. Os breves capítulos da narrativa ainda são intercalados com trechos do caderno da personagem. Nesses registros íntimos, as palavras são um parto. Precisam ser gestadas e trazem tanto a dor quanto o alívio ao encontrarem o branco do papel. Entre breves exercícios poéticos e observações sobre um passado um dia compartilhado, Beatriz encontra aqui a possibilidade de conversar tanto com aquele que se foi quanto com aquele porvir. “faz cento e dez dias que os amigos me consolam com afeto, palavras, estatísticas: os primeiros meses são os mais difíceis/ (…) depois de cento e dez dias/ o mesmo dia”.
De escrita fluída, “O último sábado de julho amanhece quieto” segue como uma maré, de ondas ora intensas, ora sutis. Apesar de breve, a sensação é a de que acompanhamos um processo longo e intenso de transformação – a transformação de um corpo, de uma casa, de uma relação com o mundo que ganha novos tons. Na prosa marcadamente poética de Silvana Tavano, Beatriz se redescobre: enquanto viúva, enquanto mãe, enquanto mulher.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Publicado em 16/02/23