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O riso dos ratos, de Joca Reiners Terron, constrói alegoria do Brasil atual

Obra é um lançamento da Editora Todavia e narra a história de um pai que busca vingança após a filha sofrer violência enquanto o mundo se deteriora do lado de fora
o riso dos ratos
Capa do livro "O riso dos ratos", de Joca Reiners Terron. Crédito: Editora Todavia

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura do Culturadoria

Após um ato de violência atroz sofrido pela filha e o diagnóstico de uma doença terminal, um homem jura vingança ao agressor – o tempo urge. A promessa se torna uma obsessão, enquanto ele monitora todos os passos do algoz, planejando o momento e a hora certa de encontrá-lo. Ele também procura o rastro da filha, que sumiu após o último encontro com o pai, condenando seu projeto de vendeta pessoal. Em O riso dos ratos, novo romance de Joca Reiners Terron, acompanhamos o desmoronamento do mundo ao redor deste homem sem nome.

Fechado em seu apartamento, este pai não percebe a rápida deterioração para fora de sua janela. Não é só o seu universo interior que está em frangalhos, mas todo um ideal de sociedade, de vida em comunidade. Lá fora, farmácias antes administradas por um sistema único de saúde, são hoje comandadas por milícias. Mas não é só ali que se infiltraram: estão na rua, vigiando e punindo, estão nas estruturas da justiça.

A vingança deste pai se torna seu único objetivo na vida, após descobrir sua condição hepática. Sintomático sua doença ser no fígado: há quem diga que é um órgão que somatiza emoções como a raiva e a ira. Sua bile amarela e amarga. A condenação dele, pela doença – sua via crucis hepática -, se antecipa à do agressor, já que o processo judicial se arrasta nas burocracias da polícia. O labirinto burocrático, no périplo pelo qual a vítima é obrigada a passar, em um sistema que privilegia a impunidade. Com a iminência da própria morte, é preciso “fazer justiça” ou não a verá acontecendo em vida.

Doença que ultrapassa o corpo

Assim como seu o corpo, estão doentes a cidade onde vive, o prédio que habita – os encanamentos, ao invés de água, exalam longos suspiros asmáticos – e a justiça. Ao perder o rastro do agressor e se ver obrigado a sair da frágil segurança do apartamento, ele terá que enfrentar a rua, em um mundo destroçado – uma misteriosa febre dizimou a maior parte da população. Se vê obrigado agora a confrontar a cidade que aprendeu a ignorar, enquanto seguia em seu exílio interno. 

Dessa forma, nessa sociedade arruinada, o homem cai numa espiral descendente de violência, abandono e dor, em direção ao esgoto, ao inferno. Assim, a vida é um purgatório onde o único caminho é para baixo, para a sarjeta, na altura dos ratos que te encaram, olhos nos olhos. Joca Reiners Terron não tem medo de explorar a bestialidade dos homens em O riso dos ratos. Ou seja, o horror da barbárie na exploração de uns pelos outros, em nome do poder e pela sobrevivência. O texto é frenético e selvagem, como a mente do personagem, em constante delírio, causado pela dor, pela fome, pela realidade.

Recursos narrativos

Além disso, Terron trabalha também com arquétipos da masculinidade que têm como base a violência e a força física – há o abusador e há aquele que precisa se vingar em nome da honra, precisa demonstrar sua coragem, para não se ver como um covarde. Talvez o verdadeiro macho seja o outro: “um macho abjeto, enquanto ele não passava de um amaciado pela civilidade, de um covarde tolhido pelos escrúpulos”

O riso dos ratos é um livro sobre repetições: o horror sofrido pela filha e a promessa de vingança sempre retornam à memória deste homem, obsessivamente, assim como as boas lembranças da infância dela ao seu lado, na vida cotidiana que parecia segura; a violência que se responde com violência, num eterno retorno; os padrões de exploração de um mundo antigo, que já surgem como regra neste suposto mundo novo. Os ciclos se repetem.

Relação com o Brasil atual

Joca Reiners Terron constrói nesta sua narrativa bestial uma alegoria do país hoje. Mas não se engane, o cenário catastrófico descrito por ele aqui não é um futuro distante. São as feridas expostas e purulentas de uma nação sob o jugo de um governo de extrema-direita. Do poder crescente do discurso de ódio, da violência como regra. De um senso de bem comum pouco a pouco carcomido por ratos. De uma democracia, com suas já frágeis estruturas sendo corroídas à vista de tudo e de todos, que encara o abismo – e é encarada e atraída por ele, em resposta.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel.

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Joca Reiners Terron. Foto: Renato Prada / Divulgação

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