Literatura
O Passageiro: Um retrato vívido e doloroso no novo livro de Ulrich Alexander Boschwitz
Ulrich Alexander Boschwitz, autor de Os passageiros. Foto: Cortesia do Leo Baeck Institute, Nova York)
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Ulrich Alexander Boschwitz, autor de Os passageiros. Foto: Cortesia do Leo Baeck Institute, Nova York)
“O passageiro”, de Ulrich Alexander Boschwitz, tem tradução de Gisele Eberspacher. Lançamento da DBA Editora.
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Otto Silbermann é um empresário judeu de aparência ariana. Na Alemanha nazista, este fato, ainda, lhe permite uma vantagem mínima em meio à perseguição contra a população judaica no país. Homem rico, Otto vê, numa velocidade atordoante, tudo aquilo que construira até então lhe ser sistematicamente espoliado: a fortuna, empresa, a família e, por fim, a sanidade. “O passageiro”, de Ulrich Alexander Boschwitz, tem tradução de Gisele Eberspacher. Lançamento da DBA Editora, o livro foi enviado primeiramente para os assinantes do clube de assinaturas Histórias Irresistíveis, da livraria Dois Pontos. . (e tem cupom de desconto no primeiro mês: QUEROLER)
Ulrich explora em “O passageiro”, já logo nas primeiras páginas, a naturalização do antissemitismo na Alemanha. Para o sócio do protagonista – um homem filado ao partido nazista – Otto não era um exatamente um judeu. Ele era um homem de verdade, um homem alemão. Judeu e homem eram palavras que não cabiam na mesma frase.
“Eu sou nacional socialista. Deus sabe que nunca me enganei. Se você fosse judeu como os outros, ou seja, judeu de verdade, eu teria permanecido como seu procurador. Nunca teria me tornado seu sócio!”.
Mas a verdade é que Otto era sim um homem judeu, que vê pouco a pouco o cerco se fechar e o risco que o seu nome, quando dito em voz alta, pode significar. Ao longo das próximas páginas o acompanhamos em uma jornada errante num ritmo crescente de suspense. Otto se assombra com a velocidade em que o medo e a insegurança parecem tingir toda a realidade dele. A fuga para um país vizinho, possível seis meses antes, se mostra cada vez mais impossível. O discurso de ódio é proferido com naturalidade. A violência presente nos mais explícitos aos mínimos gestos: o desvio do olhar ou a negação do aperto de mãos por aqueles que, até então, eram seus conhecidos.
Ao ter a própria casa invadida, Sillberman foge. Ele se transforma, a partir deste ponto, em um homem sem lugar: um homem sem país, um homem sem lar. Se vê metamorfoseado – termo que cabe como uma luva nos tons kafkianos da narrativa – em um passageiro, em constante trânsito. O movimento é necessário, o repouso é um risco. É nesta situação que o personagem se tornará uma figura constante nas estradas de ferro alemãs, buscando meios de escapar dos algozes. “Estou viajando, viajando ate que eles me ataquem, até que um homem da SA me detenha. Foram eles que me colocaram em movimento, e são eles que vão me deter”.
Viagem após viagem, ele tenta passar despercebido, tenta ser apenas mais um passageiro entre tantos outros, enquanto busca uma saída possível para a situação impossível em que se encontra. “Anda-se para lá e para cá sem dar um único passo adiante.” É, sobretudo, por trem que ele se desloca pela Alemanha. Aqui, o trem é uma possibilidade de fuga. Mas é também por trem que judeus foram transportados para os campos de concentração: os trilhos seguiam em direção à morte. “Isso vai durar para sempre? A viagem, a espera, a fuga? Por que nada acontece? Por que não sou pego, preso, espancado? Eles nos levam a beira do desespero, e depois nos deixam lá.”
Ulrich constrói um personagem profundamente humano, portanto, falho em “O passageiro”. Por exemplo, na raiva sentida ao supor encontrar no mesmo trem que ele outros cidadãos judeus. “Há muitos judeus no trem, pensou Silbermann. Isso coloca a todos nós em perigo. (…) Mas, porque vocês existem, eu serei exterminado com vocês. Na verdade, não temos nada a ver um com o outro”. A fúria, a indignação, o desespero e o cansaço parecem tomar conta de cada espaço do corpo e da mente do homem. Ele, que “em seu estado normal de espírito não pertencia de fato ao grupo dessas figuras trágicas que são chamadas de judeus antissemitas”, tomou a presença de seus companheiros de trem – uma viagem ainda sem destino, mas na qual todos estes ansiavam pela salvação – como um insulto.
Há um momento em que, num gesto de risco incalculável, Silbermann questiona, em uma de suas viagens, uma companheira de cabine: “A senhora me considera um ser humano, madame?”. Sem entender bem o motivo da pergunta, ela responde de maneira positiva. “Sou judeu” ele a confidencia na sequência. “Não sou só um foragido, mas de alguma forma, me transformei em pária. Não é?”.
Como manter a sanidade num contexto em que cada pessoa que o rodeia é um inimigo em potencial? Em que um passo em falso pode ser o caminho para um campo de concentração? Colado neste personagem de construção kafkiana, Ulrich cria um retrato vivido e doloroso do que era ser um judeu alemão no início dos polgroms no país – as perseguições sistemáticas e deliberadas à comunidade judaica, que marcam o início do Holocausto. Enquanto trabalha o suspense de maneira exemplar – num ritmo angustiante mas, também, envolvente – o autor faz uma reflexão pungente acerca da nossa própria humanidade. Ou da ausência desta. “Será possível reencontrar a paz interior, mesmo que haja paz exterior? Tudo mudou.”

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Publicado em 16/09/22