Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

O olho mais azul, de Toni Morrison: o fim da infância na América racista

Publicado em 1970, o livro fala de racismo em vários âmbitos, microviolências e sobre como é ser criança nesse contexto

Toni Morrison, escritora norte-americana que completaria 90 anos neste mês, publicou seu primeiro romance, O olho mais azul, em 1970. Primeiro um conto, produzido em uma oficina de escrita na Universidade de Howard anos antes, reescrito e reelaborado até se tornar sua primeira publicação. Com uma recepção fria no lançamento, o trabalho alcançou o devido reconhecimento apenas nos anos 2000, quando integrou o clube de leitura da Oprah. Depois, inclusive, do Nobel de Literatura de Toni Morrison em 1993 – primeira, e ainda única, mulher negra agraciada com o prêmio. Polêmico para uma sociedade conservadora, o livro chegou a ser banido em diferentes escolas americanas. 

Em O olho mais azul, conhecemos Pecola Breedlove, uma garotinha negra com o sonho de ter os mais belos e mais azuis olhos que já vira. Os olhos de Shirley Temple, das garotas-propaganda de embalagens de doces, das bonecas da moda. Talvez com os olhos ela não se sentisse tão feia e seus pais não brigariam tanto, não na frente de tão belos olhos. A vida escolar seria mais fácil, sem a perseguição dos seus colegas, recebendo mais atenção dos professores. Esse olho mais azul seria a única saída para uma existência condenada à exclusão.

“Toda noite, sem falta, ela rezava para ter olhos azuis (…). Lançada dessa maneira na convicção de que só um milagre poderia socorrê-la, ela jamais conheceria a própria beleza. Veria apenas o que havia para ver: os olhos das outras pessoas.”

o olho mais azul
Foto: Timothy Greenfield-Sanders Magnolia / Pictures (2)

O enredo

A história é narrada, principalmente, por outra garota negra, Claudia MacTeer. Ela e sua irmã, Frieda, vivem suas próprias dores como crianças numa sociedade extremamente racista, são os EUA em 1940, mas com uma configuração familiar mais sólida que a de Pecola, o que afeta diretamente a maneira como estas conseguem lidar com o mundo. De início, Pecola se muda para a casa das garotas, um lar temporário definido pela assistência social. Claudia consegue ter a voz que Pecola não tem. É a partir de seu relato que conheceremos a história de sua amiga.

Racismo, colorismo, violência doméstica, estupro. São múltiplas as pontas alcançadas pela constelação de personagens e situações criadas por Toni Morrison neste romance. Ou seja, ela desenha um retrato vívido da sociedade americana na década de 1940, época de segregação racial e ausência de direitos civis. Toni narra o presente de Pecola, Claudia e Frieda intercalado com o passado de outros personagens. Além disso, expõe as dolorosas raízes que avançam até o presente. É um ciclo que se repete: a infância de crianças negras marcadas por toda uma sorte de violências, abandonos, refletindo na maneira como estas lidarão com suas próprias crianças.

Violência simbólica

A violência aqui é também física, mas, sobretudo, simbólica. São as microviolências do dia a dia, em casa, na rua e na escola que pouco a pouco minam o amor próprio, a alegria, a confiança e a própria infância de uma criança. É a beleza inalcançável das atrizes do cinema. A cor da pele, a cor dos olhos, a cor e a textura dos cabelos. Em suma, há apenas uma fórmula para o sucesso, para se sentir e ser vista como bela. Tudo isso além do alcance de Pecola.

Um gesto importante de Morrison é o de não desumanizar os algozes. São pessoas, não monstros, esses que cometem diferentes atos sórdidos, violentos. Ou seja, é um pai com sua própria história de abandono parental, outra criança que goza de privilégios por ser negra com um tom de pele mais claro, toda uma comunidade que julga a vítima tanto ou mais do que o algoz por um crime hediondo.

“Concentrei-me, então, em como algo tão grotesco quanto a demonização de uma raça inteira podia criar raízes dentro do membro mais delicado da sociedade: uma criança; do membro mais vulnerável: uma mulher”, comenta a autora no posfácio do livro, em 1993. Inspirada numa fala ouvida na escola primária – de uma garota negra que realmente sonhava em ter os olhos azuis – Toni Morrison cria uma história única, singular, com a jovem Pecola. Mas o que ela tem de mais singular é justamente a sua força de representação. Pecola Breedlove foram, e ainda são, muitas.

O olho mais azul é publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Compre com desconto aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro.

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Capa do livro “O olho mais azul”, de Toni Morrison. Crédito: Cia das Letras

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