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O almanaque de Fran Lebowitz

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Resgatando o que de melhor a autora escreveu nos anos 70 e 80, a Todavia Livros lança por aqui “O almanaque de Fran Lebowitz”, com tradução de André Czarnobai.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Descobri Fran Lebowitz na série documental da Netflix “Faz de conta que NY é uma cidade”, dirigida por Martin Scorsese. No programa, Scorsese conversa e ri – muito, diga-se – com Fran Lebowitz, que fala, entre outras coisas, sobre tudo aquilo que a incomoda na cidade onde mora – dos turistas e das pessoas que andam devagar no passeio ao mercado da arte. A escritora é uma verdadeira instituição da cidade de Nova York, figura mítica ali. “Se você for a um leilão, entra um Picasso, silêncio absoluto. Quando o martelo bate, aplausos. Vivemos num mundo em que aplaudimos o preço, não o Picasso”.

Fran Lebowitz - Foto BRIGITTE LACOMBE
Fran Lebowitz - Foto BRIGITTE LACOMBE

Uma escritora que não escreve 

Mas há um detalhe: Fran Lebowitz é, digamos, uma escritora que não escreve. Ela não publica algo novo há mais de 40 anos – com exceção de um breve livro infantil, publicado há quase 30. Seu bloqueio criativo atravessa décadas. Mas, ainda assim, pessoas lotam teatros apenas para, assim como seu amigo Scorsese, ouvi-la falar. Como observamos no seriado, a opinião forte e o olhar ácido são características marcantes de seu pensamento. Resgatando o que de melhor a autora escreveu nos anos 70 e 80, a Todavia Livros lança por aqui “O almanaque de Fran Lebowitz”, com tradução de André Czarnobai.

Este almanaque reúne textos escritos pela escritora para as revistas “Interview”, de Andy Warhol, e “Mademoiselle”, compilados originalmente nos dois primeiros livros de Lebowitz, “Metropolitan Life”, de 1978, e “Social Studies”, de 1981. Dona de um olhar atento à sociedade americana do período e de uma autoironia mordaz, Fran Lebowitz não perdoa nada nem ninguém – nem a si mesma – ao longo deste volume deliciosamente ácido de textos.

Olhares para nossos comportamentos 

Divididos em blocos como “Ciências”, “Arte”, “Letras”, “Pessoas” e “Lugares”, Fran Lebowitz parece ter uma opinião formada acerca de tudo aquilo que a circula – sobretudo aquilo, e aqueles, que, em maior ou menor medida, a incomodam. “Eu entendo, é claro, que muitas pessoas considerem que fumar é desagradável Esse é um direito delas. Posso garantir que sou a última a criticar os incomodados. Eu mesma considero muitas coisas – na verdade, a maioria delas – desagradáveis. Ser ofendida é uma consequência natural de sair de dentro da sua casa”. 

Há textos em que a autora propõe testes, com diferentes perguntas e opções de respostas em múltipla-escolha. Em um deles, ela direciona perguntas para quem quer ser um alpinista social, um ditador ou uma herdeira, por exemplo. “Então você quer ser uma herdeira? Essa é uma área nas quais as condições de seu nascimento importam muito. Você pode superar esse obstáculo casando-se bem e/ou fazendo um homem idoso muito feliz”.

Alguns dos melhores momentos do volume são aqueles onde ela olha para a própria escrita. Desde os anos 70 a dificuldade do processo de escrita e o bloqueio criativo já são temas de suas crônicas. “Ao contrário do que muitos talvez imaginem, uma carreira no mundo das letras não é um caminho livre de percalços – sendo o principal deles o fato desagradável de que você precisa de verdade, e com bastante frequência, sentar e escrever”.

Atemporal

Então, “O almanaque de Fran Lebowitz” é um olhar impiedoso para os nossos próprios comportamentos. Curioso como, apesar de escritos nas décadas de 70 e 80 e abordando, por exemplo, temáticas e tecnologias que poderiam soar datadas, seu texto permanece ainda muito atual. Fran Lebowitz é um daqueles clássicos casos do ame ou odeie. Talvez o motivo seja o fato de que, muitas vezes, optamos por guardar para nós mesmos aquilo que nos incomoda no outro. Já Fran Lebowitz não guarda. Nunca.

 

O almanaque de Fran Lebowitz - Todavia Livros
O almanaque de Fran Lebowitz – Todavia Livros

Encontre “O almanaque de Fran Lebowitz” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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