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O Agente Secreto revisita o Brasil entre o medo e a imaginação

O novo filme de Kleber Mendonça Filho propõe uma leitura sobre o Brasil a partir da mistura entre política, memória e imaginação.

O Agente Secreto | Foto: Victor Jucá

Kleber Mendonça Filho construiu uma filmografia que observa o país a partir de dentro. O Agente Secreto, candidato do Brasil a uma vaga no Oscar 2026, mantém essa coerência. Sendo assim, o diretor volta ao Recife, espaço simbólico de sua obra, para narrar uma história situada em 1977, nos últimos anos da ditadura militar. É um tempo de vigilância e medo, mas também de resistência e invenção.

O filme parte da trajetória de Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna à cidade natal tentando reconstruir a vida. A aparente tranquilidade logo se desfaz. Ao redor, há um país em tensão, e o personagem se torna espelho de um ambiente social que tenta sobreviver ao controle.

Veja onde o filme está em cartaz

Entre o real e o imaginário

A narrativa segue a tradição latino-americana do realismo fantástico. Kleber Mendonça Filho se apropria dessa linguagem para aproximar política e imaginação. O filme apresenta uma realidade que se desorganiza aos poucos, até que o fantástico passa a habitar o cotidiano sem causar estranhamento.

Entre as imagens que atravessam o enredo estão um gato de duas cabeças e a lenda urbana da Perna Cabeluda, criada nos anos 1970 pelo escritor Raimundo Carrero. Esses elementos não são enfeites narrativos. Eles fazem parte da paisagem e constroem uma espécie de humor que nasce do absurdo. O riso aparece como uma forma de lidar com o medo. Assim, o fantástico se transforma em comentário sobre o real.

Kleber trabalha essa mistura com naturalidade. O insólito surge como continuidade da experiência cotidiana. O humor e o delírio não servem apenas como fuga, mas como modos de compreender a realidade. O diretor usa esses elementos para refletir sobre o Brasil daquele tempo e, por extensão, sobre o país de hoje.

O cinema como refúgio

A memória pessoal de Kleber Mendonça Filho percorre o filme. Ele tinha nove anos em 1977 e se vale das lembranças para reconstruir o clima e a textura daquele tempo. O Recife que aparece em O Agente Secreto é um território de lembranças, mas também de invenção.

Entre essas memórias, surge uma dimensão simbólica importante: a sala de cinema. Em várias passagens, o espaço de projeção é mostrado como abrigo, um lugar seguro diante da repressão e da instabilidade. A ideia de que o cinema é um refúgio se espalha pela obra. É a arte como ponto de equilíbrio entre o que se vive e o que se imagina.

Corpo, silêncio e presença

O trabalho de Wagner Moura como Marcelo se destaca pela contenção. É uma atuação construída nos detalhes, em pausas e gestos que comunicam o que as palavras não dizem. O ator sustenta a tensão com economia de movimento, fazendo do silêncio uma forma de expressão.

A atriz Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana, ocupa outro polo dessa energia. Assim, a presença dela em cena é serena e comunicativa. Representa o cotidiano e o afeto em um ambiente dominado pela desconfiança. A convivência entre os dois personagens traduz o equilíbrio que o filme busca entre controle e liberdade.

O tempo e a imagem

O diretor explora recursos técnicos que reforçam a atmosfera da época. As câmeras antigas, as lentes anamórficas e o uso de dioptrias criam imagens de alto contraste, que remetem ao cinema dos anos 1970. A estética, porém, não é apenas uma homenagem. É uma forma de pensar a história por meio da imagem e de refletir sobre como olhamos o passado.

A trilha sonora, composta por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, amplia esse mergulho no tempo. Músicas de Lula Côrtes & Zé Ramalho, Ângela Maria e Banda de Pífanos de Caruaru evocam a cultura popular pernambucana e estabelecem uma ponte entre o passado e o presente.

Recepção e trajetória

O Agente Secreto teve estreia mundial no Festival de Cannes, em maio de 2025, e foi recebido com 13 minutos de aplausos. O filme recebeu os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Ator e o FIPRESCI da crítica internacional. Desde então, circulou por mais de cinquenta festivais e consolidou o espaço entre as produções brasileiras mais comentadas do ano.

Kleber Mendonça Filho reafirma em O Agente Secreto um modo de fazer cinema que combina observação social e invenção estética. É um filme sobre o medo e sobre a imaginação como forma de resistência. Um olhar sobre o Brasil que não se limita à denúncia, mas tenta compreender o que se transforma quando a realidade e o sonho passam a ocupar o mesmo espaço.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 07/11/25

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