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Cinema

Nosso Segredo vence Gramado e confirma a potência de uma criação que parte de Minas

Primeiro longa dirigido por Grace Passô conquista três Kikitos e chega aos cinemas nesta quinta-feira, depois de iniciar trajetória internacional na Berlinale

Equipe de Nosso Segredo no Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O primeiro longa-metragem dirigido por Grace Passô saiu do 54º Festival de Cinema de Gramado como Melhor Filme. Nosso Segredo conquistou três Kikitos na noite de sábado (22): além do principal prêmio da competição brasileira, venceu Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório.

A vitória ganha outra dimensão quando observada dentro da trajetória do filme. Rodado em Belo Horizonte, Nosso Segredo fez estreia mundial em fevereiro na seção Perspectives da 76ª Berlinale, dedicada a primeiros longas. Passou ainda por festivais internacionais antes de chegar à competição de Gramado. Nesta quinta-feira, 27 de agosto, entra em cartaz nos cinemas brasileiros, com distribuição da Vitrine Filmes.

Gramado, portanto, não apresenta ao mundo uma realizadora desconhecida. O prêmio reconhece no longa uma trajetória artística que Grace Passô constrói há anos entre diferentes linguagens e, ao mesmo tempo, chama atenção para algo maior: a capacidade de uma produção profundamente ligada a Belo Horizonte circular por alguns dos principais espaços de legitimação do cinema.

Do teatro para o cinema, sem simplesmente trocar de suporte

Atriz, dramaturga, diretora e roteirista, Grace Passô construiu parte importante da trajetória no teatro brasileiro. Antes do primeiro longa, já havia experimentado a direção audiovisual em República e codirigido com Ricardo Alves Jr. Vaga Carne, adaptação de texto teatral de autoria própria que integrou o Forum Expanded da Berlinale em 2019.

Nosso Segredo também nasce de uma dramaturgia anterior. O longa parte de Amores Surdos, peça criada por Grace há cerca de duas décadas. Mas a passagem para o cinema não se limita a transportar uma história do palco para a tela.

A própria premiação em Gramado ajuda a perceber esse deslocamento. Dois dos três Kikitos recebidos pelo filme reconhecem justamente elementos centrais da construção cinematográfica: fotografia e direção de arte. Wilssa Esser assina a fotografia e Lucas Osório, a direção de arte. A trilha original é de Amaro Freitas, enquanto Gabriel Martins e Eva Randolph respondem pela montagem.

A casa, o enquadramento, os silêncios e aquilo que parece estranho dentro do cotidiano assumem funções narrativas. O filme acompanha uma família negra de Belo Horizonte tentando reorganizar a vida depois de uma perda recente. Cada integrante enfrenta o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula percebe algo que os demais parecem incapazes de enxergar.

Um filme mineiro que nasce de uma rede

Há ainda outra camada importante na vitória de Nosso Segredo. O longa ajuda a enxergar o cinema mineiro menos como uma sucessão de talentos individuais e mais como uma rede de criação construída ao longo do tempo.

A produção é de Ricardo Alves Jr., cineasta ligado à trajetória recente do audiovisual produzido em Minas. A montagem reúne Gabriel Martins e Eva Randolph. Grace, por sua vez, chega à direção depois de uma carreira que atravessa teatro e cinema, inclusive como atriz de filmes de realizadores de diferentes gerações.

É uma circulação de artistas, técnicos, produtoras e linguagens que ajuda a explicar por que Minas Gerais ocupa há anos um espaço relevante no cinema brasileiro contemporâneo.

Nesse contexto, Belo Horizonte não funciona apenas como endereço da produção. É parte da matéria do filme.

A história acompanha uma família belo-horizontina e foi filmada em uma casa pertencente à família de Grace. Ao receber o prêmio em Gramado, a diretora agradeceu também aos familiares que cederam o imóvel para as filmagens.

Essa escolha aproxima criação e território de uma maneira particular. Uma história iniciada no teatro retorna anos depois transformada pelo cinema e encontra dentro de uma casa real de Belo Horizonte o espaço para falar de família, ausência, memória e pertencimento.

De Belo Horizonte para Berlim, Gramado e as salas de cinema

A trajetória de Nosso Segredo começou a ser construída muito antes da primeira filmagem. Em 2020, o projeto participou do BrLab Features, onde recebeu prêmios de desenvolvimento e distribuição e foi selecionado para programas internacionais. Seis anos depois, chegou à Berlinale.

Agora, conquista o principal prêmio de um dos mais tradicionais festivais brasileiros.

O percurso ajuda a compreender como se estrutura parte do cinema independente contemporâneo. Filmes atravessam laboratórios, redes de coprodução, festivais e circuitos internacionais antes de encontrar o público mais amplo nas salas comerciais.

No caso de Nosso Segredo, existe ainda uma inversão interessante. O filme saiu de Belo Horizonte, encontrou primeiro o público internacional, voltou ao Brasil pela competição de Gramado e chega finalmente aos cinemas brasileiros.

A partir de quinta-feira, o Kikito deixa de ser apenas a notícia sobre quem venceu um festival. Passa a funcionar também como convite para que o público descubra o primeiro longa de uma artista que, depois de ocupar lugar central no teatro brasileiro contemporâneo, amplia agora a própria assinatura no cinema.

E talvez esteja aí a dimensão mais interessante da vitória de Nosso Segredo: Grace Passô estreia no longa, mas não estreia como autora. O cinema recebe uma linguagem desenvolvida durante anos em outras formas de criação. Gramado apenas tornou essa passagem mais visível.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 23/08/26

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