Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Morra, amor: sobre uma mulher não-domesticada

“O dramaturgo da minha vida é tão medíocre.”
Ariana Harwicz, autora de Morra, amor. Foto: Simone Padovani/Divulgação
Ariana Harwicz, autora de Morra, amor. Foto: Simone Padovani/Divulgação

A protagonista de Morra, amor, romance da argentina Ariana Harwicz publicado no Brasil pela Editora Instante, é uma mulher que luta contra seus demônios. O casamento, a maternidade. Enquadrar-se numa vida dita normal. O velho comercial de margarina – marido, esposa e criança. A vida doméstica. Mas ela é uma mulher não-domesticada. Seu discurso é inflamado, quente, apaixonado. Ela está em um não-lugar dentro de sua própria casa, ela não se encaixa ali.

A escrita de Ariana Harwicz segue o fluxo de consciência desta personagem. Sendo assim, transborda as angústias, as dores, a fúria desta mulher. É um discurso entre a vigília e o delírio. A violência dos gestos e da fala segue num crescente. Isso reflete na própria escrita da autora: é um texto sem parágrafos, cada capítulo segue um grande bloco de texto, sem pausas. Te exige fôlego.

Mas nem tudo é tão claro, há uma ambiguidade nela. Ao mesmo tempo em que há uma vontade de fuga, há também tentativas de se encontrar, de se ver como parte daquele ambiente doméstico, daquela configuração familiar. O desejo de destruição e o desejo de pertencer. Uma mulher no limite.

“É seu, te dou de presente, te dou embrulhado em papel de seda, você o merece mais do que eu. Te dou. O nosso filho, disse, enquanto as pessoas saíam para ver o que estava acontecendo, rumorejando que eu estava doida de novo.”

Há um bosque que de certa forma sempre a chama próximo de casa. Este bosque é natureza, é selvagem. Há uma relação bastante visceral dela com este espaço, um lugar de fuga, um “fundir-se” à natureza, sobretudo à sua própria. No mundo exterior, há um conflito em andamento, a ameaça de uma guerra. Este mundo exterior é espelho do mundo doméstico: ali também há algo prestes a explodir.

Morra, amor é uma narrativa extremamente forte – como um soco. Uma protagonista que não te pede para entendê-la, não te pede desculpas por seus pensamentos, por suas ações. Uma mulher em desencontro e em desencanto: um desencontro entre o que “eu quero ser” e o que “esperam que eu seja”; um desencanto com este papel imposto, fixo e imutável na sociedade: a mulher ideal, a mãe ideal e a esposa ideal.

O livro já foi adaptado para o teatro na Argentina e em Israel. No Brasil diversos trechos do livro foram interpretados pela atriz Camila Nhary numa série de vídeos lançados no Youtube, culminando em uma monólogo também com a atriz, dirigido por Karine Teles e José Eduardo Limongi, que estreou digitalmente em fevereiro. Camila  dá corpo e voz às dores e às angústias desta mulher num plano sequência experimental entre o cinema e o teatro, vale muito conferir.

 

 

Encontre Morra, amor aqui!

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. 

 

Capa de Morra, amor. Reprodução: Editora Instante/Divulgação

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