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“Eu sou filha do livro”, entrevista com a jornalista Miriam Leitão no Fliparacatu

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A Amazônia é o foco de novo livro de Miriam Leitão, que reflete sobre a possibilidade de retomarmos um caminho virtuoso na defesa da região

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Mineira de Caratinga, a jornalista Miriam Leitão esteve no Fliparacatu – Festival Literário Internacional de Paracatu fazendo o pré-lançamento de seu novo livro, Amazônia na encruzilhada: O poder da destruição e o tempo das possibilidades, publicado pela Editora Intrínseca. No festival, a autora integrou uma das mesas de maior destaque da programação, ao lado da Ministra do STF Carmén Lúcia, com o tema “Literatura, a libertação”. Mais de 300 pessoas assistiram ao bate-papo, mediado pelo jornalista Afonso Borges, idealizador e presidente do Festival.

Miriam Leitão. Foto: Gui Garcia

Miriam Leitão conversou conosco sobre o novo livro, a corrida contra o tempo com relação à Amazônia e sua própria relação com a literatura – contar dessa relação foi um dos momentos mais emocionantes do bate-papo com a ministra Camén Lúcia. Confira abaixo a entrevista:

Em seu novo livro, você investiga como o Brasil regrediu uma década de avanços na proteção da floresta Amazônia e dos povos originários ali presentes. Nele, você aponta que agora temos a possibilidade de retomar um caminho virtuoso. Você é otimista a esse respeito?

Não é que eu seja otimista, sabe? Mas sei que existem possibilidades. Mas a gente pode errar, pode perder a oportunidade. Nós temos a possibilidade: não por termos tempo, mas porque a gente sabe como fazer. A gente já derrubou o desmatamento fortemente. 80% em 10 anos. Então, eu percorri esse caminho, fui entender o que houve de políticas públicas, o que houve de debate interno nos dois primeiros governos Lula para que os períodos de Marina Silva e Carlos Minc como ministros do Meio Ambiente fossem tão interessantes e virtuosos, onde o Brasil trabalhou políticas públicas que reduziram esse desmatamento da Amazônia.

Depois a gente perdeu o pé. O governo Bolsonaro foi uma escalada a favor da destruição. Para destruir mesmo. Então, chegamos nessa encruzilhada: a gente sabe como fazer certo, mas fizemos muito errado nos últimos quatro anos.

Para onde nós vamos agora? É um pouco essa pergunta que o livro faz depois de acompanhar todo esse período do combate ao desmatamento. Conversei com economistas, climatologistas, ambientalistas, biólogos, líderes indígenas que me mostraram que ainda há tempo, mas não muito tempo. O Brasil precisa acertar logo o passo. Várias ações do atual governo foram na direção certa, outras nem tanto, mas a gente tem chance.

Quais os riscos enfrentados no trabalho de pesquisa e apuração sobre uma questão tão delicada e um ambiente tão repleto de disputas – de poder, de dinheiro –  e violências – explícitas e veladas – como a região amazônica?

Eu não me expus tanto a riscos assim. Já fiz reportagens lá, algumas em que, de fato, não tive medo de falar com grileiros e desmatadores, de ir para áreas de muita disputa de terra e de violência como São Félix do Xingu ou o entorno da terra dos Awa Guajá no Maranhão. Áreas que tinham toda a sorte de crimes quando eu fui. Depois houve um processo de desintrusão dessas áreas.

Mas o único medo que eu tenho quando saio para fazer uma reportagem é não conseguir buscar uma boa história, não conseguir trazer uma boa história. Esse é o meu medo, o medo de não conseguir contar. É algo concreto, você pode perder a oportunidade de falar com aquela pessoa, você pode não dar atenção para aquela outra, você pode, por exemplo, não parar o carro na hora certeza para ver que algo estava acontecendo. E, assim, perder o melhor da história.

A história está sempre a um triz de ser perdida, né?

Isso. Jornalistas me entendem. E eu conto muito disso no livro. Jornalistas terão interesse especialmente nisso, estudantes e jovens jornalistas. Eu conto muitos bastidores de reportagens. 

Eu fiz uma viagem para esse novo livro. Mas fiz muitas outras antes. Eu comecei a escrever esse livro no início da pandemia. Talvez fosse o momento mais difícil para se fazer um livro sobre a Amazônia. Mas o fato de estar presa em casa, presa no Rio de Janeiro, aumentou a capacidade de apuração. Porque todas as pessoas estavam disponíveis. Consegui falar de forma mais fácil com meus entrevistados, as pessoas estavam mais solícitas para passar uma manhã de sábado conversando comigo. Em maio do ano passado eu fiz a viagem. Ainda estávamos na pandemia, mas já estávamos vacinados, pudemos voltar com cuidado.

Talvez se não tivesse a pandemia, eu não teria escrito esse livro agora. Mas agora é a hora certa. A gente acabou com um governo muito distópico e retornamos a um governo que tem sensibilidade para esse assunto. A Marina Silva voltou a ser Ministra. Então, a gente tem esperança. Há uma enorme diferença entre Marina Silva e Ricardo Salles. Qual projeto de Brasil cada um quer.

É muito forte o que você diz sobre ainda haver tempo, mas pouco tempo…

É uma corrida contra o tempo. Quando eu converso com o cientista brasileiro Carlos Nobre, ele me mostra que, desde os anos 80, ele está falando que podemos chegar em um ponto de não retorno. E agora, elementos no sul da Amazônia já mostram que as áreas secas estão ficando secas por mais tempo. Então, quer dizer, ele previu isso como hipótese científica e agora está acontecendo na prática. Em ritmo veloz.

O Governo Bolsonaro acelerou muito o incentivo ao desmatamento. O desmatamento, a grilagem, são uma verdadeira operação imobiliária. Você toma aquela terra. Uma operação clandestina, criminosa, mas uma operação imobiliária sensível às expectativas. Ninguém com pouco dinheiro desmata a Amazônia. É preciso muito dinheiro para levar máquinas para lugares difíceis. A logística é difícil. Então, para fazer esse tipo de crime, você vira e pensa: Qual o risco que eu corro? Se o governo disser que seu risco é alto, você vai pensar duas vezes antes de mobilizar seu capital de milhões e milhões. Então, o que o governo Bolsonaro fez foi: “Pode ir que eu garanto”. E o que o governo Lula diz agora? “Não, não vai”.

Então essa é a diferença. Quando o presidente da república tem uma atitude, isso faz uma diferença enorme. É assim que funciona na economia. Economia é expectativa. Você pensa: “Tenho chance de ter lucro?” Então faz o investimento. Mas se o risco for muito maior que a chance, você não faz.

Eu gostaria de te ouvir falar mais sobre como a literatura te formou enquanto pessoa, enquanto cidadã, enquanto mulher. Você compartilhou uma passagem acerca do seu tempo presa pela ditadura militar e como a literatura, ainda que proibida e vista como inimiga por aquele sistema, te salvou.

Eu sou filha do livro. Em todos os sentidos. Como profissional, como mulher, como cidadã. Eu li muito a vida inteira, na minha infância o livro foi o meu brinquedo favorito. A leitura me marcou e me moldou. Por exemplo, “O segundo sexo”, da Simone de Beauvoir, foi um livro que li na adolescência e nunca mais eu vi as relações entre homem e mulher da mesma forma. Daí pra diante eu tive uma atitude de “não, comigo não”. Foi uma atitude que mantive ao longo da vida. “Grande sertão: veredas” é um dos livros que mais amo na vida. Ele me encheu da poesia e da lírica do sertão. Aquela coisa linda.

“Vidas secas” eu li muito jovem, com 12 anos. Eu fiquei obcecada com o livro. Então eu li e li de novo e li de novo. Ele formou minha consciência social. Sinhá Vitória, Fabiano, aqueles meninos e aquela fome, aquela fome, aquela fome. Eu nunca fui capaz de não entender a questão social por causa dessa obra. Eu tive uma casa cheia de livros, portanto, também cheia de valores, valores que apontavam nessa direção. Isso numa cidade sem biblioteca, sem livrarias e com um regime que já chegou proibindo livros. Esse foi o espírito do tempo que eu vivi. Uma cidade sem livros, mas a minha casa tinha, felizmente. 

Eu vivi esse extremo de que, quando fui presa, não podia entrar nenhum livro, nenhum jornal, nada para ler. E foi justamente sobre isso que falei aqui em Paracatu, falei de coração, uma coisa espontânea. Eu queria compartilhar com as pessoas o meu sentimento a respeito da relação entre a literatura e a libertação, tema da mesa que participei. Eu sabia que o livro tinha me libertado. O livro me libertou até dentro da prisão.

Havia momentos tão intoleráveis na prisão que, apesar de não ter sido longa, foi muito dolorosa. Particularmente dolorosa. Eu demorei muitos anos para conseguir falar sobre o assunto. Passei décadas em silêncio sobre isso. Mas naqueles momentos mais difíceis, de enorme aflição, de ansiedade dentro da prisão, eu fechava os olhos e eu pensava nos livros que eu tinha lido, os livros estavam tão dentro de mim, tão comigo, que eu não estava sozinha.

Eu pensava nas histórias que os livros tinham me narrado e eu me libertava dentro da prisão. Eu me sentia livre. Os livros me pegaram pela mão. Ao longo de toda a vida, são eles que me levam. Inclusive os que eu escrevo. Esse novo, “Amazônia na encruzilhada”, eu devo muito a ele porque ele me pegou pela mão na pandemia, naquele momento de pura distopia no meio do pior governo que o Brasil já teve nos períodos democráticos. Naquelas duas distopias juntas eu tinha esperança. Em vários momentos em que eu estava escrevendo o tempo presente era muito ruim, era horrendo.

Mas aquele momento horrendo não era o fim do caminho. Era só uma etapa. A pior etapa da história, né? Então o livro foi me levando, me ajudando a passar esse um ano, quase um ano e meio, trancada em casa sem ver os netos, sem ver os filhos. E trabalhando só de dentro de casa. Eu entrava ao vivo da minha casa cercada de livros. Mas estar escrevendo o livro ao longo dos momentos vagos também me ajudou, me preencheu e me libertou.

Também tiveram os livros que li nesse período. “Torto arado”, do Itamar Vieira Junior, “O mapeador de ausências”, do Mia Couto. Os livros que li e me ajudaram. Então é isso. Eu devo muito aos livros. Quem tem a sorte de ser um leitor – e sempre é tempo de você se tornar um leitor – nunca está só. Porque ali está o livro. 

O livro te ajuda, te organiza e te estrutura. Mesmo em tempos tão extremos, de uma opressão sem limites que é a opressão da ditadura. Ela não tem o limite da lei. Por princípio, uma ditadura não tem lei. Tem algo que eu nunca esqueci. Eu estava em um quartel militar e um homem apontou uma arma para a minha cabeça e falou “Eu posso te matar”. Eu olhei para ele – até hoje eu me lembro desse olhar dele – e falei: “Sim, você pode”. Quando eu disse isso, eu não estava fazendo uma bravata. Estava fazendo um reconhecimento claro de que, sim, ele pode me matar. Por quê? Porque a ditadura não prestou conta de ninguém que ela matou.

Eu sabia que se eu fosse morta ali, eles iam dizer “Ela estava com a arma na mão, deu um tiro no soldado” ou algo do tipo. Muitas pessoas sumiram sem nenhuma explicação do estado. Isso é a opressão. A opressão de uma ditadura é um tempo sem lei. Sem nenhum limite, nenhuma sociedade civil, nenhuma constituição. 

É o contrário do que muita gente entende sobre a ditadura, né? Não é um excesso de leis e ordem, mas ausência de leis…

As pessoas têm a compreensão de ser um regime de leis mas, na verdade, é ausência delas. Eles podem fazer qualquer coisa. Aquele homem podia ter apertado o gatilho. Porque nada o impediria. Ele não seria punido por nada. Não por acaso, todas as tiranias odeiam livros. Então, é por isso que eu amo os livros.

* O Fliparacatu é patrocinado pela Kinross, por meio da Lei Rouanet. O Culturadoria visita o festival a convite do patrocinador.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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