Teatro

Mineral Ibsen estreia em BH e Sabará com fábula mineira

Espetáculo premiado pelo Ibsen Scope Grant 2024 discute mineração e desinformação sob direção de Marina Arthuzzi

Foto: Letícia Souza

22/11/2025 a 25/11/2025
19:00
Presencial
Pago
Entre R$15 e R$30
Funarte - Rua Januária - Centro, Belo Horizonte - MG, Brasil
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O Teatro da Fumaça, em parceria com a Sobrilá Cia de Teatro, apresenta Mineral Ibsen, espetáculo que transforma a realidade mineira em uma potente fábula contemporânea. A direção é de Marina Arthuzzi, e a dramaturgia é assinada coletivamente pelos integrantes do grupo. A temporada de estreia será em Belo Horizonte, de 22 a 25 de novembro, sempre às 19h, na Funarte MG (Rua Januária, 68 – Centro). Em seguida, o trabalho segue para Sabará, nos dias 29 e 30, às 19h, no Teatro Municipal (Rua Dom Pedro II, s/n – Centro).

Os ingressos custam R$30 (inteira) e R$15 (meia-entrada), pela Sympla ou na bilheteria dos teatros, a partir de uma hora antes de cada sessão. A classificação indicativa é de 10 anos e a duração é de 80 minutos.

Fábula mineira sobre rachaduras e sobrevivência

Premiado com o Ibsen Scope Grant 2024, financiamento concedido pela instituição norueguesa que apoia projetos baseados na obra de Henrik Ibsen, o espetáculo marca o encontro entre o Teatro da Fumaça e a Sobrilá Cia de Teatro. Inspirado em Um Inimigo do Povo, clássico do dramaturgo norueguês, Mineral Ibsen transporta a discussão para o contexto mineiro e cria uma alegoria poderosa sobre as contradições da mineração.

A trama se passa em Serra de Dentro, uma comunidade subterrânea que vive à beira de uma rachadura — símbolo de progresso e de ruína. A rachadura corta paredes e tetos, ameaçando o cotidiano de uma população que depende da mesma atividade que a destrói. Quando o buraco se expande, os moradores percebem que a velha companhia voltou a minerar.

“Logo na primeira leitura de Um Inimigo do Povo percebemos como aquele texto, extremamente político, traduzia bem um tema que é muito caro a nós: a relação entre a economia e a vida humana”, explica João Santos, integrante do Teatro da Fumaça e um dos autores da dramaturgia, assinada coletivamente.

“Poderíamos falar de aquecimento global, de guerras e de pandemias. Mas somos dois grupos mineiros, e percebemos ali a oportunidade de falarmos sobre um tema que é, ao mesmo tempo, tão antigo e tão radicalmente urgente: nossa relação complexa com a mineração”.

Pesquisa, seminários e campo

O projeto foi construído em quase dois anos de pesquisa teórica e prática. Em 2024, o Teatro da Fumaça promoveu uma série de seminários abertos ao público, com a presença de nomes fundamentais para a reflexão do tema. Entre eles, o professor Marcos Alexandre (UFMG), o advogado Pedro Henrique Arruda, que abordou o contexto jurídico dos atingidos por rompimentos em Brumadinho e Bento Rodrigues, e a Cacica Ãngohó Pataxó, que relatou os impactos das mineradoras sobre povos originários.

O professor Dimir Viana, multiplicador do Teatro do Oprimido, também participou, introduzindo a metodologia criada por Augusto Boal. Esses encontros deram origem a uma série de vídeos disponíveis no canal do Teatro da Fumaça no YouTube, permitindo que o público acompanhe parte do processo criativo e reflexivo da montagem.

Teatro do Oprimido e parcerias mineiras

Dimir Viana orientou uma oficina em que artistas da Sobrilá, do Teatro da Fumaça e de outros dois coletivos — o Atrás do Pano (Nova Lima) e o Flor de Maio (Itabirito) — mergulharam nos jogos do Teatro do Oprimido. As práticas resultaram em vivências em Sabará, Itabirito e Nova Lima, mas também se estenderam a outras localidades não previstas inicialmente, como São Joaquim de Bicas, São Gonçalo do Bação e Itabira.

“Foi muito forte para a gente conhecer de perto a Aldeia Pataxó Hã Hã Hae, que depois do rompimento de Brumadinho foi forçada a se dividir e se deslocar para São Joaquim de Bicas. São Gonçalo do Bação foi um outro local onde encontramos o espírito de Minas muito latente”, explica Júlia Oliveira, integrante do Teatro da Fumaça. No vilarejo, que atualmente pertence ao município de Itabirito, o Teatro da Fumaça pode trabalhar ao lado do Grupo de Teatro São Gonçalo do Bação, coletivo de teatro comunitário com mais de 30 anos de trajetória. Entre missas e congadas, a prática de Teatro do Oprimido realizada no Bação coincidiu com a festa do padroeiro do distrito.

Outro destino não planejado foi a terra de Drummond. Ao apresentar, em julho, seu espetáculo anterior no Festival de Inverno de Itabira, foi inevitável para os integrantes do Teatro da Fumaça conversar com os itabirenses sobre a relação da cidade com a mineração. “Estávamos estudando o livro ‘Maquinação do mundo’, de José Miguel Wisnik, quando nos apresentamos em Itabira. O livro fala justamente da relação de Drummond com a exploração mineral em sua cidade natal. Mas lá descobrimos outros impactos que não imaginávamos, como, por exemplo, como as mineradoras impactaram no alto nível de alcoolismo na cidade”, continua Júlia.

Direção e encontro de gerações

A direção de Mineral Ibsen está a cargo de Marina Arthuzzi, uma das vozes mais presentes no teatro mineiro contemporâneo. Atriz, diretora, iluminadora e produtora cultural, ela é mestre em Artes da Cena pela UFOP e tem passagens por grupos como a Primeira Campainha, o Mayombe Coletivo Teatral, o Pigmalião Escultura que Mexe e o Quatroloscinco Teatro do Comum.

A parceria começou em 2024, quando Marina assinou a criação de luz de O Mundo Está em Chamas, O Teatro Também Tem de Estar. O vínculo se consolidou, e o convite para dirigir Mineral Ibsen surgiu naturalmente. “É muito especial trabalhar com Arthuzzi, uma artista que não apenas tem uma visão apuradíssima da cena, mas também sobre como nossas relações afetam nossa criação”, conta João Santos.

A equipe ainda reúne Guilherme Morais, responsável pela Direção Corporal e Assistência de Direção, e Maria Mourão, que assina a produção. O olhar de ambos, com experiências acumuladas no teatro de grupo mineiro, contribuiu para a maturidade do projeto. ““Sentimos que crescemos muito, não apenas
individualmente, mas como coletivo. E esperamos seguir solidificando essas parcerias tão importantes pra gente”, afirma Domenica Morvillo, também integrante do grupo.

Parceria com a Sobrilá Cia de Teatro

A Sobrilá Cia de Teatro, sediada em Sabará, completa dez anos de trajetória em 2025. O grupo, formado por artistas locais, é reconhecido pela criação de espetáculos, oficinas e pela gestão de um centro cultural na cidade. Em 2023, a cena curta Rota de Fuga, da Sobrilá, chamou a atenção do Teatro da Fumaça, originando a parceria que resultou em Mineral Ibsen.

Com Mineral Ibsen, o Teatro da Fumaça propõe um mergulho simbólico no interior de Minas Gerais — e, sobretudo, no interior de cada espectador. A rachadura que atravessa o teto da mina é também a fissura que revela a complexa relação entre vida, economia e sobrevivência no território mineiro.

Serviço

Mineral Ibsen

  • Belo Horizonte: 22 a 25 de novembro, às 19h – Complexo Cultural Funarte MG (Rua Januária, 68 – Centro).
    Ingressos: Entre R$15 e R$30, pela Sympla.
  • Sabará: 29 e 30 de novembro, às 19h – Teatro Municipal de Sabará (Rua Dom Pedro II, s/n – Centro).
    Ingressos: Entre R$15 e R$30, pela Sympla.

    Classificação: 10 anos.
    Duração: 80 minutos.
    Mais informações no Instagram @teatrodafumaca.
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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 12/11/25

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