Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Ressuscitar passados, inventar futuros: ciência e literatura viajam no tempo dos sonhos para chegar ao impossível”, escreve Silvana Tavano logo nas primeiras páginas de seu “Ressuscitar mamutes”, Prêmio Oceanos 2025, publicado pela Autêntica Contemporânea. Literatura e ciência se encontram, causam fissuras na realidade-escrita deste romance fragmentário e não-linear. Uma espécie de máquina do tempo que ressuscita mamutes e também ressuscita uma mãe, pelo olhar profundamente humano de uma filha.
“Remontar a vida ao lado dela – escrever faz parte desse esforço. Mas a memória se configura por si só, me desafia, esconde imagens que as palavras poderiam desenhar. Expõe entrelinhas que não quero ler.”
Um romance que desafia a classificação
“Ressuscitar mamutes” beira o inclassificável. Entre a memória e a invenção, entre o ensaio e a ficção, entre a especulação de futuros e a reconstrução de passados, Silvana Tavano rompe com as barreiras do tempo e do próprio romance. Passado, presente e futuro coexistem nessa prosa-investigação que recusa a cronologia. O tempo da Silvana escritora não é cronológico, assim como o tempo de uma Silvana filha que escava o passado materno e lhe inventa um futuro.
“Parece impossível estar no agora, nesse momento eterno se revelando diante de nossos olhos, dia e noite, e a própria mensagem do calendário me transporta para um momento que foi único, mas que, de alguma forma, volta a acontecer. Porque o que ressurge também pode ser exatamente o que foi, como se o tempo não existisse.”
Entre a memória e a invenção
Nas águas gélidas de uma realidade que se impõe, Silvana Tavano navega entre o comum e o particular, o coletivo e o íntimo. Espécie de livro-balsa, “Ressuscitar mamutes” se movimenta pelas águas de uma geleira em processo de derretimento: sintomas de futuro em vias de extinção, de uma tragédia climática que não mais se anuncia – grita. A resposta talvez esteja no passado, ela nos sugere, aproximando ciência e literatura de uma maneira extraordinária e surpreendentemente inventiva.
Explorando a memória tingida pela invenção, “Ressuscitar mamutes” é, assim, uma dessas peças raras no campo literário. Em suma, Uma sensível meditação sobre o luto, a memória, a saudade, a família, a ciência, o coletivo e o particular: temas que convergem, se embrenham, tingem uns aos outros nas páginas deste breve romance luminoso. “Não é possível realinhar perfeitamente o passado. Também ele se move quanto mais avanço para o futuro”.
Encontre “Ressuscitar mamutes” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
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Publicado por tgpgabriel
Publicado em 19/02/26
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