O que é mediação? Uma ponte entre obra e público? Um recurso pedagógico? Um serviço educativo que acompanha exposições?
No Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte, a resposta é outra. Em 2026, o CCBB inaugura o programa Mediações em Movimento, iniciativa gratuita que passa a integrar de forma permanente a programação da instituição ao longo do ano. A proposta não é apenas ampliar o acesso, mas transformar a qualidade da experiência do público com a arte.
O projeto é idealizado pelo educador e pesquisador Danilo Filho, que construiu sua trajetória profissional dentro do próprio CCBB. Ele começou como educador em 2013, aprofundou seus estudos em arte-educação e retorna agora à instituição com uma convicção amadurecida ao longo dos anos: mediação não é intermediação passiva. É ação criativa.
“Eu gosto muito de uma referência que diz que mediação não é função, é ação. O próprio ato de mediar é criativo, é estético, é escolha”, afirma.
A partir dessa perspectiva, o novo programa propõe deslocar o visitante da posição de receptor para a de agente.
Muito além da visita guiada
Em vez de uma visita tradicional, centrada na transmissão de informações, o Mediações em Movimento aposta no que Danilo chama de “estranhamento produtivo”. A ideia é despertar a atenção pela curiosidade, pelo jogo, pelo uso do corpo e por perguntas abertas que desestabilizam respostas prontas.
“Se eu entro para fazer uma visita nos moldes tradicionais, ninguém tem paciência para ficar ouvindo uma palestra. A gente precisa provocar presença”, explica.
Essa provocação pode surgir de um objeto inesperado, de um jogo de cartas, de uma atividade manual que acompanha o percurso ou de uma pergunta que desloca o foco da obra para o repertório de quem observa. A mediação, nesse sentido, funciona quase como uma cena teatral: quebra a quarta parede e convida o público a assumir posição.
Não se trata de validar o discurso do curador ou repetir o texto de parede. Trata-se de construir sentido coletivamente.
Três eixos para reorganizar a experiência
O programa se organiza em três eixos — Pensar, Sentir e Fazer — inspirados na metodologia triangular de Ana Mae Barbosa, mas reorganizados sob uma lógica de experiência ampliada.
No eixo Pensar, estão as visitas mediadas às exposições e ao acervo patrimonial, além de propostas como o Livro Aberto, em que educadores realizam leitura em voz alta de obras literárias que dialogam com a exposição em cartaz. A atividade atravessa o percurso e cria conexões entre narrativa visual e narrativa literária.
No eixo Sentir, a experiência estética é entendida como corporal e afetiva. É nesse campo que entram ações como o Trololó, em que educadores circulam pelo prédio reativando cantigas e brincadeiras populares, e o Em Cena, espetáculo de contação de histórias que dialoga com os conceitos da mostra.
Já no eixo Fazer, o visitante assume a autoria. O exemplo mais emblemático é o Gabinete de Inventividades, prática de ateliê em que um móvel interativo reúne objetos, texturas e sons para que o público crie personagens, narrativas e paisagens a partir da obra em cartaz.
A lógica é clara: não basta compreender a obra. É preciso experimentá-la.
Mediações em Movimento. | Foto: Lais Gouvea
Acolher antes de abrir as portas
Um dos pontos mais consistentes do programa está na ampliação concreta da acessibilidade. Não apenas física ou comunicacional, mas também estética.
Entre as novidades estão as visitas performativas para bebês e as atividades voltadas a públicos neurodivergentes, como pessoas autistas. Ambas são realizadas antes da abertura oficial do prédio, em horários específicos e com número reduzido de participantes.
Assim, sem filas, sem ruído excessivo, sem superlotação, o espaço se reorganiza para receber corpos e sensibilidades que normalmente enfrentam barreiras — físicas, sensoriais ou simbólicas — em ambientes culturais.
“O prédio pode ser imponente. Então, como a gente cria condições reais de acolhimento?”, questiona Danilo.
Acesso como política cultural
O compromisso com o acesso também se materializa no oferecimento de cerca de 80 ônibus gratuitos ao longo de 12 meses para escolas públicas, ONGs e associações, com prioridade para regiões periféricas. A medida enfrenta um dos principais entraves à fruição cultural: o deslocamento.
Mais do que logística, a ação assume dimensão política. “É investimento em justiça social e cultural”, afirma.
Romper com a ideia de obrigação
Uma das questões centrais do programa é romper com a associação histórica entre museu e dever de casa. Para Danilo, quando a visita se transforma em tarefa obrigatória, a experiência perde força. “Se vira obrigação, mata tudo”, resume.
Ele explica que, muitas vezes, a ida ao museu acontece com roteiro fechado, questionário para preencher e trabalho valendo nota. O foco deixa de ser o encontro com a obra e passa a ser o cumprimento de uma tarefa. O resultado é previsível: o aluno visita, responde e vai embora, sem espaço real para fruição ou conversa.
A visita pode dialogar com o conteúdo escolar, gerar debate e inspirar projetos. Mas não começa como cobrança. Começa como experiência — um espaço de descoberta que depois pode ganhar desdobramentos dentro da escola.
Mediação em expansão
O nome do programa não é casual. A mediação não ficará restrita à sala educativa. Vai ocupar pátios, corredores e áreas externas. Circulará pelo prédio. Criará estranhamento. Instalará pequenas rupturas no percurso habitual do visitante.
Há ainda a inauguração do Ateliê Educativo, espaço permanente de encontro, onde educadores estarão disponíveis para conversa e experimentação.
Em um tempo marcado pela velocidade e pelo consumo acelerado de imagens, a proposta aposta no contrário: desacelerar, dialogar, construir sentido.
Se mediar é escolher percursos, formular perguntas e ativar leituras, talvez estejamos falando também de curadoria. Não aquela que seleciona obras, mas a que seleciona caminhos.
E, nesse caso, a resposta não está na exposição. Está no encontro.
Programação de março – Mediações em Movimento
Ao longo de março, o CCBB Educativo oferece atividades gratuitas do programa Mediações em Movimento, voltadas a diferentes públicos. Até 27 de março, as ações dialogam com o tema Patrimônio. A partir de 28 de março, passam a se relacionar com a nova exposição “MEME: no Br@sil da memeficação”.
Visitas mediadas
Educadores conduzem experiências coletivas de investigação sobre as exposições em cartaz. Segundas, quartas e quintas, às 17h; sextas, sábados, domingos e feriados, às 12h. Há também visitas em Libras, às sextas e domingos, às 17h. Ingressos retirados na bilheteria.
Atividades para famílias e crianças
O programa inclui ações voltadas à primeira infância e ao público familiar. Entre elas estão o Livro Aberto, com leitura compartilhada de obras literárias (sábados, domingos e feriados, às 13h); o BrincaForma, oficina de artes visuais para crianças de 3 a 6 anos (sábados e domingos, às 15h); e o espetáculo de contação de histórias Em Cena (sábados e domingos, às 16h, com Libras aos domingos).
Experiências sensoriais e criativas
As Práticas de Ateliê convidam o público a experimentar materiais e processos artísticos (quintas e sextas às 11h, 12h, 16h e 18h; sábados e domingos às 11h e 13h). Já a ação Objetos Sensoriais propõe experiências táteis e sonoras nas galerias das exposições, em sessões ao longo da tarde.
Ações inclusivas
O programa também oferece atividades voltadas à acessibilidade e à inclusão. A visita performativa Entre Sentidos, para pessoas com neurodiversidades e acompanhantes, acontece nos dias 15 e 22 de março, às 9h30, mediante inscrição. Já a experiência No Sling, para bebês de colo e cuidadores, ocorre nos dias 14 e 21 de março, também às 9h30.
Atividades itinerantes
Nos fins de semana, educadores circulam pelo prédio com a ação Trololó, que convida o público a reviver brincadeiras e cantigas populares (sábados e domingos, às 15h45).
Mais informações sobre horários, inscrições e retirada de ingressos estão disponíveis no site do CCBB BH.
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