Literatura

Horror sobrenatural encontra horror humano em contos de Mariana Enriquez

Mariana Enriquez. Foto: Nora Lezano

“Os perigos de fumar na cama”, primeiro volume de contos da argentina Mariana Enriquez, traz um  conjunto sólido de breves narrativas

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Mariana Enriquez é um dos principais nomes da literatura latino-americana contemporânea. A maneira como ela constrói cenas completas e personagens com uma profundidade singular mesmo em suas narrativas curtas é algo muito marcante em sua literatura. É justamente em um conjunto de breves histórias que os leitores brasileiros terão o prazer de reencontrá-la. Lançado originalmente em 2009, “Os perigos de fumar na cama” é o primeiro volume de contos da escritora argentina. Agora, ela, enfim, ganha publicação no Brasil, numa bela edição pela Intrínseca, com tradução de Elisa Menezes.

Uma criança desenterra um conjunto de pequenos ossos no quintal da avó. Essa é uma das primeiras cenas de “Os perigos de fumar na cama”, no conto que abre o volume. Espécie de presságio, são muitos os esqueletos – e seus respectivos fantasmas – que serão revelados pela prosa de Enriquez ao longo dos 12 contos que compõem o livro. Enquanto alguns desses fantasmas parecem ocupar um lugar além, resgatando – com uma identidade própria – o que há de melhor na mais clássica escrita de terror, outros são bem palpáveis, reais e próximos, dizendo mais do humano do que do sobrenatural.

Encontro entre humano e sobrenatural

Justamente no encontro entre um horror humano e um horror sobrenatural que se dá uma das maiores forças da literatura de gênero. O terror como maneira de construção de um olhar aguçado e clínico para as diversas mazelas, violências, injustiças e fantasmas que parecem sustentar a sociedade na qual estamos inseridos, queiramos ou não. No texto de Mariana, é o homem marginalizado, aparentemente em situação de rua, que é humilhado por moradores de uma vizinhança rica e suburbana. O homem se retira, mas deixa algo que transformará para sempre a suposta harmonia e o conforto que as paredes daquelas residências pareciam guardar. É também o retorno inexplicável de crianças e adolescentes desaparecidos e vítimas de violências indizíveis. Se o acontecimento é motivo de celebração para diferentes famílias que lidavam com ausências doloridas, causa assombro naqueles que já tinham enterrado seus corpos anteriormente. 

Os perigos de fumar na cama, Editora Intrínseca

É, ainda, o fantasma da ditadura argentina, esse tema aparentemente inesgotável na literatura daquele país – assim como deve ser, nunca esqueçamos – e que ganha uma chave surpreendente nas mãos de Mariana. A partir de um símbolo simples e até mesmo óbvio do terror clássico – uma tábua ouija nas mãos de um grupo de crianças – suas personagens talvez não estejam preparadas para as respostas que serão dadas por aquele – ou aquilo – que se encontra do outro lado.

Mosaico de experiências

Mariana Enriquez escreve sobre nossos medos e fraquezas e, porque não, sobre nossos desejos – mesmo aqueles mais secretos, escondidos nas sombras, evitando a luz do sol. A busca pelo gozo é algo compartilhado por alguns dos personagens de “Os perigos de fumar na cama”. É um gozo frustrado, marcado pela dor, num olhar incômodo para um erotismo obscuro. As imagens de Mariana Enriquez seguem nítidas – e assombrosas – após terminada a última página deste verdadeiro mosaico de experiências sobrenaturais e, sobretudo, humanas.

Encontre “Os perigos de fumar na cama” aqui.


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 23/08/23

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