Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Por que Manhãs de Setembro é uma das melhores séries lançadas em 2021?

Série original da Amazon Prime Video traz Liniker na sua primeira atuação e explora o afeto, diferentes formatos de família e muita força
Manhãs de setembro
Crédito: Amazon Prime Video

No Mês do Orgulho LGBTQIA+ a plataforma de streaming Amazon Prime Video lançou Manhãs de Setembro, uma produção brasileira 100% original. Com a cantora e compositora Liniker em seu primeiro papel como atriz, a série pode ser maratonada ou vista a conta gotas. Qualquer opção é totalmente aceitável e justificável. Isso porque a produção de cinco episódios é, ao mesmo tempo, arrebatadora e também merece reflexão a cada acontecimento. 

Dirigida por Luís Pinheiro e Dainara Toffoli, Manhãs de Setembro conta a história de Cassandra (Liniker), uma mulher trans que trabalha como motogirl de aplicativo durante o dia em São Paulo e busca o sonho de ser artista, fazendo cover de Vanusa em uma boate durante a noite. Entretanto, é surpreendida com a chegada de Leide (a excelente Karine Teles), com quem Cassandra teve um romance antes da transição, e do filho Gersinho (Gustavo Coelho).

Mãe e filho vivem de bicos que a mãe faz como camelô e moram dentro de um carro velho. A única coisa que o menino queria era conhecer e ter o afeto do pai. Mas a vida de Cassandra, que acaba de conseguir sua independência e alugar um espaço só seu, é revirada com as más novas em sua vida. Assim se dá o conflito da série onde o que todos querem é sobreviver na selva de pedras paulista. 

Temática fundamental e representatividade negra e LGBTQUIA+

Em primeiro lugar, Manhãs de Setembro é um retrato da força das mulheres no Brasil. Durante toda a narrativa, Vanusa é como se fosse a voz da consciência de Cassandra. Ídola da personagem, ela sempre a ajuda a voltar para dentro de si para buscar o que sempre sonhou. O nome da série, inclusive, é baseada na música da artista que ousou cantar as próprias composições em um país marcado pela opressão e pelo machismo. 

Em segundo lugar, as possibilidades de pluralidade de família são um dos pilares de Manhãs de Setembro. Mas o espectador entende isso com muito sofrimento em vários momentos da produção. Cassandra luta com unhas e dentes para ser aceita, para sobreviver e não ter a existência apagada. Leide é mãe solo que sempre deu duro para cuidar do filho, mesmo com as maracutaias que sempre se envolveu, incluindo mentiras e até furto. 

Mas, em resumo, tratar da questão trans, da violência velada, da transição e do afeto negado é o ponto mais alto de Manhãs de Setembro. Atrelado a isso tem ainda o fato de Cassandra ser uma mulher negra. Ou seja, ela representa um dos grupos mais marginalizados na sociedade brasileira em uma das maiores plataformas de streaming do mundo. Além disso, o que torna a série ainda mais especial é a vivência de pessoas trans para além da transição. 

Produção brasileira e elenco

As produções brasileiras estão crescendo cada vez mais nas plataformas de streaming pelo mundo. Manhãs de Setembro é uma prova que os investimentos devem ser cada vez mais fortes e diversos. Além disso, um show à parte é o elenco. Além de Liniker e Karine Teles, tem ainda o ex-Titãs Paulo Miklos, que vive um par romântico com Gero Camilo (Assalto ao Banco Central, Carandiru e Cidade de Deus), e Thomas Aquino (Bacurau e 3%).

Arte como maior força

No início da narrativa, Cassandra vive um romance de muito afeto com Ivaldo (Thomas Aquino), consegue alugar a própria kitinet e tudo parece ir bem até a chegada do filho e da ex-companheira. Tudo começa a desmoronar, ela tem infinitas rusgas e desafetos com Gersinho e Leide, perde entregas, sofre constantes transfobias etc. Entretanto, é lindo ver como encontra na arte uma válvula de escape para absolutamente tudo, como uma respiro de alívio em meio a tanto sofrimento. Quando Liniker, ou melhor, Cassandra canta, até quem vê parece esquecer, ou deixar um  pouco de lado, toda a carga que a personagem traz. 

Ao mesmo tempo, a potência da música se soma à potência de Cassandra, bem como a dos conflitos e desconstruções que traz ao longo da narrativa, como a de “aceitar” ou não o próprio filho. Sem spoilers, a história de ambos tem o afeto como o principal pilar. 

Retrato da realidade brasileira

O dia a dia do trabalhador, a vida difícil de sobrevivência em grandes capitais, a conciliação entre dois ou mais trabalhos, baixa remuneração, preconceito, racismo, mas muitos sonhos. Ao assistir Manhãs de Setembro, muitas vezes, é isso que salta aos olhos. Por mais dura que seja a realidade de vários daqueles personagens, é também uma história de aceitação, de sonhos e diferentes tipos de amor e família.

Manhãs de setembro
Crédito: Amazon Prime Video

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