Literatura
Luta de mulheres inspira nova HQ de Fabien Toulmé
Foto: Rayza Kamke
Literatura
Foto: Rayza Kamke
No Dia Internacional das Mulheres, o quadrinista Fabien Toulmé fala ao Culturadoria sobre seu novo projeto, Reflexos do Mundo
Por Patrícia Cassese | Editora Assistente
O que leva algumas pessoas a se engajarem visceralmente em lutas que visam o bem coletivo, não raro deixando a vida pessoal em segundo plano ou mesmo sacrificando-a? Já há algum tempo essa pergunta habitava a mente do quadrinista francês Fabien Toulmé, 43 anos. A tal ponto que ele resolveu fazer da inquietação o mote para seu novo projeto.
Batizada com o sugestivo nome Reflexos do Mundo, a empreitada tem seu primeiro fruto lançado agora no Brasil, pela Nemo, o braço da editora Autêntica voltado para HQs: “Na Luta” retrata o engajamento de três mulheres que tentam, cada uma à sua maneira e cada qual em um país, mudar tristes realidades do entorno.
Aliás, este é o primeiro lançamento da Nemo em 2023, lembrando que a casa já havia chancelado outras obras de Toulmé. Caso do sensível e cativante “Não Era Você Que eu Esperava”. Nele, o autor compartilha uma experiência pessoal: a chegada de sua segunda filha, Júlia, que tem síndrome de Down. Ainda do francês, a Nemo publicou “A Odisseia de Hakim” (sobre um refugiado sírio, em três volumes), “Duas Vidas” e “Suzette – Ou o Grande Amor”.
As três mulheres focadas em “Na Luta” são: a líder comunitária brasileira Rossana Holanda, a jornalista libanesa Nidal Randa e a feminista e ativista beninesa Chanceline Mevowanou.
A primeira é uma figura central na luta contra a expulsão de moradores de uma comunidade ribeirinha em João Pessoa, na Paraíba. Já Nidal se tornou símbolo de um movimento social por justiça no Líbano, enquanto Chanceline empunha a bandeira do combate à gravidez precoce em seu país, localizado na África Ocidental.
O fato de haver uma brasileira neste rol de mulheres que inaugura o projeto não é propriamente uma novidade para quem acompanha a trajetória de Toulmé: ele é casado com Patrícia, a quem conheceu em sua passagem por João Pessoa, quando fez um intercâmbio nos estudos de engenharia civil e planejamento urbano. Além de Júlia, o casal tem mais uma filha, Louise, a primogênita. Aliás, a família vem ao país no mínimo uma vez por ano, para visitar os parentes.
Na entrevista concedida ao Culturadoria, mais uma vez ficou evidente o quanto o português de Toulmé é não menos que perfeito. Na conversa, o simpático autor contou mais detalhes de “Na Luta”, falou sobre a transposição de “Não Era Você Que Eu Esperava” para o écran e, ainda, sobre sua relação com o Brasil, entre outros tópicos.

Na verdade, já há algum tempo eu tinha vontade de ir a países sobre os quais lia histórias que me chamavam a atenção. Mas queria ir para fazer reportagens, não apenas entrevistas, como na (série) ‘Odisseia’. Só que não tinha uma forma clara de como faria. Sabia que era uma série para a qual eu teria que fazer várias viagens.
Em 2019, fui para o Líbano para participar de um evento de quadrinhos, que acabou sendo cancelado, devido à thawra (revolução), que, na verdade, estava acontecendo ao mesmo tempo em outros países.
E isso veio ao encontro dessa ideia que eu já tinha, dessa mundialização da luta e da revolução. Resolvi construir uma série na qual cada volume teria um tema definido, com personagens de várias nacionalidades ligados à temática. E assim comecei construindo ‘Na Luta’.
Veja, João Pessoa é uma cidade que eu conheço bem, muito bem. Morei lá e há anos a visito, mas nunca tinha ouvido falar dessa comunidade do Porto do Capim, e muito menos da ameaça de construção de um complexo turístico com risco de expulsão da comunidade.
Como estava encaminhando o processo de reportagem relacionado a (à temática) lutas, me deu um ‘tilt’. Me veio a ideia de que era um outro tipo de luta, em outra escala, outra dimensão.
E muito atual, porque a gente sempre discute o processo de gentrificação de lugares, mas, em boa parte das vezes, do ponto de vista de quem chega. Poucas vezes do de quem tem que deixar o lugar. Porque não é só o lugar onde essa pessoa mora, mas onde criou vínculos com o meio ambiente, vegetação e animais. Isso numa área menos urbana, mas até no caso de Porto do Capim, que fica no centro da cidade, existe esse vínculo com a natureza.
Foi através de amigos que tive contato com o trabalho de Rossana. Confesso que não tinha uma ideia pré-definida de quem ela era e o que exatamente fazia, mas, inicialmente, o que mais me impactou foi o fato de ela ser muito jovem. Depois, de ser mulher, em um país onde ainda há um certo machismo, principalmente em relação a uma mulher de classe social mais baixa e negra.
Mas o que me impressionou mais foi a personalidade dela e a força de vontade, o querer dar continuidade a um projeto dos avós dela, que tinham criado essa comunidade. Isso me marcou.
Eu encontrei nelas o mesmo perfil de Rossana: força de vontade, caráter, a postura de enfrentar correntezas fortes e poderosas e de permanecer lutando para tentar conseguir o que almejam. Com resultados diferentes, mas o mesmo perfil.
Conversei com um sociólogo para tentar entender porque há pessoas que lutam, muitas vezes sacrificando a vida pessoal, pelo bem coletivo. Quis fazer uma espécie de biografia para entender a trajetória de uma pessoa que vai se definir como militante.
No caso de Chanceline, por exemplo, o nome dela surgiu em meio à vontade de mostrar uma mulher que luta pelo direito das outras mulheres em um país que tem uma certa resistência, se a gente pode falar assim, em relação aos direitos femininos.
Pesquisei uma lista de países nos quais havia um maior desequilíbrio entre os direitos dos homens e os das mulheres, mas, claro, limei aqueles em que poderia correr risco de vida. E daí cheguei ao Benin e a Chanceline.
Tem um bocado (de temáticas) que quero abordar. Neste momento, estou trabalhando o segundo volume, que vai ser sobre trabalho. A maneira como a gente trabalha hoje, as mudanças no universo do trabalho. Como em “Na Luta”, pretendo ir a três países, para me encontrar com pessoas (que atuam nesta área) a fim de tentar entender um pouco essas histórias, essas mudanças.
Qual o seu objetivo com o projeto?
No mundo, existem lutas pelo bem e lutas pelo mal, vamos dizer assim, segundo a nossa posição. Neste projeto, só me interessei pelas lutas nas quais acredito e compartilho a ideologia. Não podemos esquecer que há quem lute por coisas, como vou dizer, não tão boas. Realmente, a ideia do quadrinho é valorizar iniciativas que vejo como positivas.
Logicamente, quem vai ler pode não compartilhar certas temáticas, mas, através de tudo isso, a ideia também é entender um pouco mais por que a gente luta e como a gente chega a lutar.
A adaptação vai ser em formato de animação (stop-motion), pelo Claude Barras, que também fez o filme “Minha Vida de Abobrinha” (2016). Eu não participo do processo de adaptação, apenas como consultor da obra original, já que é a minha vida.
Posso dizer se concordo ou não com o que está sendo escrito, mas não tenho nenhuma participação prolongada nem profunda. Ainda não há data de estreia, mas não é para agora, não. É um processo bastante longo, provavelmente, será para 2025, não tenho confirmação.
Às vezes acho que a gente estabelece uma conexão com alguns lugares, e acho que eu senti isso quando fui para a Paraíba, estudar. Bom, primeiramente tem o clima, algo que me atrai bastante. Gosto mais de calor, menos de frio. Na Paraíba, eu estava muito bem, à beira do mar, era ótimo.
Além do calor climático, há o calor humano, com o qual me identifico muito. Veja, me considero muito francês em alguns aspectos da minha personalidade, mas também muito brasileiro, em outros. Eu gosto de socializar, gosto das pessoas. E gosto muito da espontaneidade que encontrei aí.
Gosto também da cultura, da música, que é muito rica: forró, samba, bossa nova… A gente tem uma conexão forte com o Brasil, em termos de cultura francesa, por meio de músicas, de filmes, enfim… Então, realmente me identifiquei muito.
Conheci um bocado de estados, viajei do Norte a Sul do país: Ceará, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Pará…
E o que gosto também é o fato de, pelo tamanho do país, a diferença de cultura, de culinária. Acho um país muito rico, que poderia ser assunto de um quadrinho meu, só que ainda não encontrei o ângulo para abordar uma história aí. Mas por ser tão rico em cultura e rico em paisagens, com certeza é um país que gostaria de ter mais nas minhas histórias em quadrinhos.
Foi quando morei em Fortaleza que, depois de anos sem ler, voltei aos quadrinhos, e passei a gostar muito do Flávio Colin, de Gabriel Bá & Fábio Moon… Descobri o Marcelo Quintanilha. Enfim, estou sempre acompanhando a produção de HQs no Brasil.
Ao menos uma vez por ano, seja para visitar a família da minha esposa, na Paraíba, ou a trabalho. Ano passado, participei do FIQ aí, em BH. É muito bom porque eu vejo que os leitores vão me acompanhando e aumentando em número. E eles têm uma espontaneidade e um acompanhamento muito fortes. Eu vejo uma empolgação pelos meus quadrinhos e, pela conexão e pela identificação que tenho com o Brasil, isso é ainda mais agradável, vamos dizer assim.
Publicado por Patrícia Cassese
Publicado em 08/03/23