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Literatura

Lançar mundos no mundo: Guilherme Wisnik explica Caetano Veloso

Lançar mundos no mundo Caetano Veloso e o Brasil - Foto Sérgio Lima

Em Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil, Wisnik propõe explicar Caetano a partir da obra do compositor, no diálogo desta com o Brasil e o mundo nestes 57 anos de carreira

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Como dar conta da vida e da obra de um artista como Caetano Veloso? Numa trajetória que nunca se propôs linear, essa é uma tarefa difícil. Para não dizer impossível. Em “Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil”, Guilherme Wisnik indica caminhos possíveis. Ele propõe um mergulho na obra do artista baiano, no que ele diz ser uma “ambição original um pouco quixotesca” de explicá-lo. Longe de uma estrutura de biografia – ainda que trate de momentos singulares e decisivos da vida do cantor – Wisnik propõe explicar Caetano a partir da sua obra, no diálogo desta com o Brasil e o mundo nestes 57 anos de carreira e 80 anos de vida recém completados. O livro é um lançamento da Fósforo Editora.

“Lançar mundos no mundo” é uma reedição de “Folha explica: Caetano Veloso”, lançado originalmente em 2005. De lá pra cá, 17 anos se passaram. Nesse período, outros capítulos importantes foram escritos na trajetória deste que é um dos nossos maiores artistas vivos. Assim, Guilherme Wisnik revisita a obra, ampliando o escopo de pesquisa e apresentando novas reflexões sobre a vida e obra de Caetano Veloso. Vai do primeiro ao último disco, da primeira à última turnê.

A arte de criar novos mundos 

O título, retirado de um dos versos da canção “Livros”, do álbum “Livro” de 1997, é exemplar. Dá forma a este poder único da arte: aquele de criar novos mundos dentro deste próprio mundo o qual habitamos. E assim também é a obra de Caetano, na capacidade de fundar novos Brasis dentro deste nosso alquebrado país. “Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ (E, sem dúvida, sobretudo o verso)/ É o que pode lançar mundos no mundo”.

O texto de Wisnik é atualíssimo. Lê, por exemplo, o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips na Amazônia – cometidos em junho passado – sob a luz da obra caetanesca, que, nesse caso, é profética. Wisnik resgata a faixa “O império da lei”, do disco “Abraçaço”, de 2012, onde Caetano canta: “Quem matou meu amor tem que pagar/ E ainda mais quem mandou matar”. Ou a sempre – e cada vez mais – atual “Um índio”, de 1976, que, com quase 50 anos, nos permite olhar para o desastre socio-politico-ambiental do governo brasileiro hoje: o desmatamento desenfreado, o garimpo ilegal e a violência contra a população indígena em ritmo crescente. “Depois de exterminada a última nação indígena/ E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida.”

As facetas do ser-Brasil

Aliás, sobre o obscurantismo político do Brasil nos tempos atuais, é impossível ler as reflexões de Wisnik sobre a ditadura militar e não ver descrito ali também o bolsonarismo e todas as forças políticas conservadoras que o sustentam hoje. Wisnik aponta que, para Caetano e os tropicalistas, a ditadura não foi algo alheio à sociedade brasileira, mas parte desta. A ditadura não como uma força externa, alienígena, que invade o país, mas uma força criada e desenvolvida por dentro dele. Uma das facetas do ser-Brasil. 

Em um depoimento feito no show Circuladô em 1992, Caetano aponta: “Nós acreditávamos, e eu ainda acredito, que a ditadura militar tinha sido um gesto saído de regiões profundas do ser do Brasil, alguma coisa que dizia muito sobre o nosso ser íntimo de brasileiros”. Se fala sobre o ontem, diz muito sobre o hoje, sobre o “nosso ser íntimo de brasileiros” que é também racista, homofóbico e violento nos gestos e nos discursos. “‘Somos uns boçais’, diria ele, em “Podres poderes”, insistindo no nós (eu faço parte do problema), ao invés do eles (o problema está fora de mim).”

Ponto alto

O olhar de Guilherme Wisnik para as letras e as melodias de Caetano é um dos pontos altos de “Lançar mundos no mundo”. O ensaísta se dedica a várias das canções do repertório do baiano, em leituras aprofundadas acerca dos diversos sentidos presentes em suas composições, numa verdadeira aula de análise, interpretação e semiótica da canção. Há momentos em Wisnik encadeia idéias e músicas de maneira brilhante: “Na canção ‘Não vou deixar’, o artista (…) declara que não vai aceitar esse rebaixamento do Brasil. (…) ‘Não vou deixar/ Porque eu sei cantar’. Essa é sua senha de combate. Afinal, ‘cantar é mais do que lembrar’. Mais do que um ato rememorativo, cantar é ‘ter o coração daquilo’ (‘Jenipapo absoluto’), isto é, construir a vida em ato pela força da enunciação. E desse modo, como artista, poder ‘lançar mundos no mundo’ (‘Livros’).”

Outra faceta que ganha uma leitura generosa por Wisnik é o lado intérprete de Caetano, no que o autor aponta existir uma “vocação de intérprete criador” no artista, que, ainda, é um mestre em “identificar belezas em canções aparentemente banais”. 

Atenção ao presente 

Wisnik destaca, ainda, a atenção de Caetano ao momento presente. Ele é também um mestre em entender e interpretar o hoje, num olhar aguçado para as mudanças, construindo um repertório que é mutante e atento aos sinais dos tempos. Não há filtragem em sua obra entre a baixa e a alta cultura. Assim, popular e erudito se misturam, se contaminam. Convivem ali o funk carioca e o cancioneiro amoroso com a erudição da poesia de Maiakovski ou Augusto De Campos, por exemplo.

No fim, percebemos como Caetano é o artista do tensionamento. O artista da inquietude e da recusa ao lugar comum. Um “desestabilizador de consensos, de certezas cristalizadas”. É o que encontramos em sua obra, discursos e entrevistas. Caetano é o anti-comodismo, o anti-nostalgia. O tempo é o presente – um presente que olha para o futuro. É o que ele próprio diz no texto de contracapa do álbum “Domingo”, de 1967: “A minha inspiração não quer mais viver da nostalgia de tempo de lugares, ao contrário, que incorporar essa saudade num projeto de futuro”

Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil - Foto: Editora Fósforo
Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil – Foto: Editora Fósforo

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também no Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Publicado em 23/11/22

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