Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Katábasis é uma palavra do grego antigo que significa “descida”. Ela descreve, na mitologia clássica, uma jornada em direção ao submundo — a descida do herói rumo ao inferno. Para Carl Jung, katábasis representaria também uma jornada interior, introspectiva, na exploração das profundezas da própria psique. Nesse sentido, é esta dupla jornada que os personagens do novo romance de R. F. Kuang, “Katábasis”, realizam. Alice Law e Peter Murdoch descem em direção à terra dos mortos em busca de um professor-orientador, morto num acidente envolvendo um experimento mágico simples na Universidade de Cambridge.
Katábasis: referências histórias, filosóficas e literárias
Terra árida e hostil, o inferno construído por R. F. Kuang é composto por uma série de Tribunais, Cada um deles, por sua vez, julgando e expondo os pecados humanos — entre eles, orgulho, ganância, ira, tirania, violência. Obstáculos hercúleos a serem superados e a possibilidade de, no final, alcançar a reencarnação e, assim, o abandono completo da memória de sua passagem pela Terra (e, claro, pelo que há debaixo, bem embaixo, dela).
Kuang descreve o inferno de “Katábasis” a partir de uma série de referências históricas, filosóficas e, principalmente, literárias. Dessa forma, a escritora norte-americana se baseia em diversas descrições do reino dos mortos. Por exemplo, a partir de clássicos como Eneida, de Virgílio, Inferno, de Dante Alighieri, e Odisseia, de Homero. O resultado é uma construção intrincada, complexa e profundamente visual, minuciosamente arquitetada pelo texto de Kuang.
Assim, “Katábasis” é um daqueles livros que abrem diferentes gavetas em nossa mente ao longo da leitura. Cada uma registrando múltiplas referências, ligações e diálogos com outras obras — marca de um processo de pesquisa profundo da autora.
O inferno da Academia
Em suma, “Katábasis” é uma jornada épica, entrelaça história, filosofia, literatura e uma dose de fantasia, num mergulho tanto literal quanto simbólico ao inferno, revelando um olhar mordaz para o universo acadêmico. Dessa forma, ao investigar as representações do inferno ao longo da história humana, Kuang mergulha num submundo mais próximo: o inferno da Academia. Não à toa, seus personagens encontram no reino dos mortos construções que espelham àquelas que fazem parte do seu horizonte na Universidade de Cambridge: lugar da excelência e do desejo de sucesso, por um lado, e do fracasso, da exaustão, da traição e da rivalidade, por outro.
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Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
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Publicado por tgpgabriel
Publicado em 16/10/25
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