Literatura
Karina Buhr lança seu primeiro romance em Belo Horizonte
Karina Buhr - Foto: Iwi Onodera
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Karina Buhr - Foto: Iwi Onodera
Karina Buhr, lança pela Todavia Livros, “Mainá” é um mergulho em queda livre tanto em sua protagonista, quanto nas potencialidades poéticas, artísticas e políticas de sua autora.
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Eu sou uma criança velha, um gosto pela lama que me guia, que aparece e se cria. Monto uma casa de tijolos moles com o gosto frio da noite. Uma menina que já passou, as vezes insiste que está ali, mas já foi”.
Mainá é uma menina. De início, não sabemos muito bem sua idade ou de qual época ela se dirige à nós. É o hoje? É o ontem? Ou seria o amanhã? “Mainá” dá título, corpo, voz e ritmo – muito ritmo – ao primeiro romance da multiartista recifense Karina Buhr, recém lançado pela Todavia Livros. “Mainá” é um mergulho em queda livre tanto em sua protagonista, quanto nas potencialidades poéticas, artísticas e políticas de sua autora.
Karina Buhr é, sem dúvidas, uma das mais completas e instigantes figuras de sua geração. Como a casa de tijolos moles que nos diz Mainá no início deste meu texto, cada uma de suas facetas artísticas parecem sedimentar e impregnar, umas sobre as outras, construindo uma trajetória que preza pela originalidade.
Buhr integrou o Teatro Oficina de Zé Celso, atuando em “As bacantes” e “Os sertões”. “Eu menti pra você”, seu primeiro disco solo, é um dos grandes registros da música brasileira no início dos anos 2010, seguido por outros três trabalhos – sendo o mais recente, “Desmanche”, de 2019 – que só se aprofundaram na urgência política-poética-feminista de seu discurso. Há, ainda, antes de “Mainá”, um primeiro livro, seu belo volume de versos “Desperdiçando rima”.
Todo esse caldeirão de experiências parece convergir para este potente primeiro romance. “Mainá” é um livro inquieto, assim como é sua protagonista – e assim como é a mente fervilhante da autora. Conhecemos aqui uma garota cheia de opiniões, mas ainda assim cheia de dúvidas. Ela tem tanto as respostas, quanto as perguntas na ponta da língua. “Mainá” é um livro sobre amadurecimento, sobre entender as transformações que ocorrem ao seu redor e, sobretudo, aquelas que acontecem dentro da gente.
Num momento a garota te pega pela mão pra te mostrar o caminho. Logo em seguida, ela a solta, te deixando livre para investigar seus múltiplos sentidos. Karina Buhr não busca a linearidade do discurso – não espere uma história com começo, meio e fim. Episódico, seu texto é guiado pela fluidez, pela musicalidade. É herdeiro da linguagem oral, da língua solta, da conversa. Há momentos em que parece nos pedir para ser lido em voz alta.
Mainá vem de um pássaro, grande imitador de sons de outras aves e da fala humana. Parece ideal para sua verborrágica protagonista. A diferença é que em Mainá-menina não encontramos a imitação. Sua voz é originalíssima. Ela herda a imaginação da mãe e é cheia de opinião como o pai. Quando não está falando com seus amigos, os irmãos Hermoso e Etrusco, ou com uma misteriosa mulher que se comunica com ela pela tela do cinema, Mainá fala muito consigo mesma. Por vezes, nos assustamos ao concluirmos que toda uma página de diálogos com um suposto interlocutor, na verdade, aconteceu dentro de sua cabeça inquieta de menina. Entre o real e o imaginário, seu discurso caminha da vigília ao delírio.
Ah, Mainá é vidente, pressente coisas que estão para acontecer. Ela também é cartomante – para essa atividade tem um codinome, para não misturar as coisas. Ali, entre as cartas do tarô, questiona o porquê de tantas perguntas sobre o amor virem unicamente das mulheres – um tópico que não gera tanto interesse nos homens. Esse é só um breve lampejo de tudo aquilo que a personagem observa e questiona acerca dos supostos papéis sociais do feminino em seu discurso.
“Mainá” é um rebuliço poético. Num texto que emana vida e experimentação, Karina Buhr constrói uma personagem que foge de definições. Pela poesia de sua prosa e pela musicalidade de sua voz, adentramos a mente de uma personagem intensa e original, assim como é aquela que lhe deu corpo em texto.
A autora fará o lançamento com sessão de autógrafos de “Mainá” na capital mineira, no dia 25 de agosto (quinta-feira), às 19h, na Livraria Quixote (R. Fernandes Tourinho, 274).
Já no dia seguinte, 26 de agosto, a cantora se apresenta, às 22h, na Autêntica com o show do álbum “Desmanche”. A noite contará, ainda, com apresentação do Bloco Alcova Libertina. Os ingressos estão a partir de R$40.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Guilherme Silva
Publicado em 19/08/22