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Romance do Prêmio Nobel de Literatura 2023 é verdadeiro mergulho em queda-livre literário

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“É a Ales” chegou ao Brasil pouco antes da nomeação de Jon Fosse ao Nobel, pela Companhia das Letras

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Numa quinta-feira de 2002, Signe está deitada em um banco de sua casa, localizada em um fiorde norueguês. Enquanto olha através da janela, a mulher enxerga a si mesma mais de 20 anos antes. Era fim de novembro de 1979 e ela viu o marido, Asle, sair para um passeio de barco. Pela mesma janela, Signe esperou o retorno do companheiro, o que nunca aconteceu. “É a Ales” é um breve romance do mais novo laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, Jon Fosse. Com tradução de Guilherme da Silva Braga, o livro é um lançamento da Companhia das Letras.

Foto em preto e branco aproximada do rosto de Jon Fosse. Ele é branco, tem cabelos grisalhos penteados para trás, tem barba e um rosto largo. Aparenta ter em torno de 60 anos.
Jon Fosse, vencedor do Nobel da Literatura de 2023. Foto: Tom A. Kolstad

No anúncio do Nobel de Literatura, a Academia Sueca destacou a escolha de Jon Fosse por “suas peças e prosa inovadoras, que dão voz ao indizível”. Apesar de ser meu primeiro contato com a prosa do escritor noruguês, “É a Ales” me parece um claro exemplo de tais características e uma acertada porta de entrada para a literatura de Jon Fosse. 

Viagem ao passado

Em pouco mais de 100 páginas, o autor submerge tanto no relacionamento entre Signe e Asle – desde o primeiro encontro e início da relação – quanto em diferentes gerações da família de Asle – remontando até o período de sua trisávo, Ales. Toda essa longa viagem ao passado se dá no tempo em que a mulher observa os fiordes através da janela de casa. É uma construção espaço-temporal-literária delicada, tecida pela mão habilidosa de Fosse.

A casa aqui, inclusive, é um personagem importante, espécie de guardiã de todas as lembranças e acontecimentos que marcam essa longa linhagem familiar. Há momentos em que, de maneira que beira o espectral, personagens de diferentes épocas e em diferentes momentos da vida ocupam um mesmo espaço, numa espécie de suspensão do tempo. “(…) as paredes estão lá, e é como se vozes silenciosas falassem a partir delas, existe um grande silêncio nas paredes e esse silêncio diz coisas que jamais podem ser ditas em palavras (…)”.

Capa de "É a Ales", publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras
Capa de “É a Ales”, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras

Leitura hipnótica

Livro de difícil classificação, “É a Ales” é construído como uma espécie de fluxo de consciência, onde passado e presente, traumas, a memória pessoal e a memória coletiva parecem se misturar, se contaminar. Jon Fosse desenvolve um texto hipnótico, com um contínuo uso da repetição – tanto de cenas quanto das próprias sentenças – intensificando a experiência de leitura. “(…) e aquilo, o fato de que sempre há de ver a si mesma, ela pensa, não há como se livrar daquilo tão cedo, o fato de que tudo que já foi ainda há de continuar lá (…)”. 

Quanto mais mergulhamos nesse fluxo crescente e obsessivo, mais nos envolvemos com seu ritmo, sua melodia textual. Essa sensação é potencializada pela ausência de pontos finais. Não há ponto concluindo nenhuma de suas frases, nenhuma de suas páginas. “É a Ales” é um voo em queda livre do alto de um fiorde norueguês em direção ao mar. Como as ondas de uma maré cheia, a escrita de Jon Fosse nos movimenta de maneira intensa, nos afastando e nos puxando para si, inquieta.

Encontre “É a Ales” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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