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História(s) do cinema: O lado poeta de Jean-Luc Godard

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O cineasta francês Jean-Luc Godard escreveu e montou o colossal “História(s) do cinema”, um longo projeto fílmico, dividido em oito episódios

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

O cineasta francês Jean-Luc Godard escreveu e montou o colossal “História(s) do cinema”, um longo projeto fílmico, dividido em oito episódios, entre 1988 e 1998. O filme é uma obra-chave para pensarmos e discutirmos não só a história do cinema, mas a história do século XX. O longo processo de pesquisa e escrita de Godard, no decorrer de uma década, resultou não apenas no filme, mas neste extenso poema-ensaio de mesmo nome, “História(s) do cinema”, que, enfim, é traduzido para o português por Zéfere e lançado pelo Círculo de Poemas.

Um “poema-filme” 

Enquanto filme, “História(s) do cinema”, é um assombroso trabalho de montagem. Godard trabalha com cenas, trechos, fotogramas e lampejos cinematográficos de obras tão vastas quanto é a própria história do cinema. Como texto, este livro, que caminha entre a poesia e o ensaio – um “poema-filme” – também se apresenta como um grandioso trabalho de montagem. Como numa ilha de edição, encontramos uma série de trechos, citações de outras obras, diálogos fílmicos, poemas, referências da literatura, da filosofia e das artes plásticas, por exemplo. Assim, Godard embaralha o jogo: textos de outrem são ressignificados dentro do fluxo irrefreável de seu pensamento.

“História(s) do cinema” é um livro que é pura imagem. Ainda que nenhuma seja encartada ao longo de suas páginas, é habitado por elas. Aquelas que conhecemos – dos filmes, da ficção, do horror da guerra – e aquelas que inventamos junto ao texto na medida em que lemos. Há uma imagem linda, que diz de uma sala escura e um projetor. Mas, na verdade, diz muito mais:

“porque pela última vez

a escuridão reúne forças

para derrotar a luz

mas é pelas costas

que a luz

irá golpear a escuridão”.

Não esquecer o horror e a barbárie do século XX

O artista escreve sobre o espetáculo, sobre a glória que é “o luto estridente da felicidade”: Os holofotes, o Oscar, os festivais. Um olhar mordaz que não se retira da cena retratada, do enquadramento: “mas não estou dizendo nada/ que não possa ser dito/ do espetáculo de variedades// eu/ que não passo de um artista/ do espetáculo de variedades”. Ele critica um estado de apatia no campo artístico. A arte deve ser um lugar do espírito livre: 

“em todo ato criador há uma ameaça

real

para o homem que ousa realizá-lo

é desse modo que uma obra

toca o espectador ou o leitor”

O autor reflete sobre o horror e a barbárie do século XX, sobre a relação entre o cinema e o horror – não o horror do cinema, mas o horror da guerra, o horror do nazismo, o horror do extermínio: “e porque esquecer-se/ do extermínio/ faz parte/ do extermínio”. Um papel fundamental do cinema, da literatura, enfim, da arte, é lutar contra isso: não nos deixar esquecer. 

Atemporal 

Jean-Luc Godard traz neste longo poema-ensaio um olhar extremamente e essencialmente político para o cinema e para o mundo. É a história do cinema através do século XX e vice-versa: a história do século XX através do cinema, a arte que, provavelmente, melhor o representou. “História(s) do cinema” é um trabalho atemporal: não se encerra no momento em que é concluído por Godard. Parece ainda estar sob processo de escrita: se diz do ontem, diz assustadoramente do hoje, e seguirá dizendo do amanhã, afinal, não há nenhum sinal de que, no futuro, a barbárie deixará de ser regra.

Histórias do cinema (Círculo de Poemas)
Histórias do cinema (Círculo de Poemas)

Encontre “Historia(s) do cinema” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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