Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Herança, de Miguel Bonnefoy, narra saga familiar da França ao Chile

Miguel Bonnefoy. Foto: Frederic Stucin
Miguel Bonnefoy. Foto: Frederic Stucin

O franco-venezuelano Miguel Bonnefoy é um exímio contador de histórias. É a conclusão que tenho ao terminar este seu pequeno-grande romance, Herança. O livro é publicado no Brasil pela Vestígio, com tradução de Arnaldo Bloch. Na trama, acompanhamos uma grande saga familiar, dos Lonsonier, numa labiríntica trajetória que atravessa continentes: seus personagens partem e aportam na busca por novas raízes e na construção de suas identidades. Mergulhamos em momentos definitivos da História, ao longo de um século, em companhia das diferentes gerações da família Lonsonier.

O romance de Miguel Bonnefoy parte da França em direção ao Chile. Um acidente do acaso faz o patriarca da família, desembarcar no nosso vizinho latino-americano. Os parentes seguiam para a Califórnia, buscando melhores condições para o cultivo da uva, após ver sua colheita devastada em seu país natal. O viticultor traz consigo alguns francos em um bolso e no outro um punhado de terra e um pequeno pé-de-uva, que terá suas raízes plantadas na futura casa na rua São Domingo, em Santiago. No Chile, os Lonsonier encontrarão outros imigrantes ao longo das décadas seguintes, cada um com suas próprias histórias de fuga e de exílio.

Dificuldades

Herança caminha pelos horrores das trincheiras da Primeira Guerra Mundial –  os corpos mutilados, a podridão do cheiro, os códigos de honra dos soldados -, para os ataques aéreos dos alemães e dos aliados na Segunda Grande Guerra. Avançando no tempo, conhecemos a esperança surgida na eleição de Salvador Allende como presidente chileno e a brutalidade do golpe que derrubou o seu governo e da ditadura que se seguiu.

O capítulo dedicado ao golpe militar de Pinochet é especialmente forte, na descrição da perseguição política, no crescente clima de medo e desconfiança e na desumanidade das torturas. Em todos esses momentos definidores da história mundial e da história da América Latina, havia um Lonsonier envolvido. Miguel Bonnefoy costura brilhantemente seus personagens na trama desses acontecimentos, em um mundo cindido, ferido pela violência e pelos conflitos.

A prosa de Bonnefoy é elegante e poética. São muitos os acontecimentos descritos pelo narrador cobertos pelo véu do extraordinário, do onírico. Seu texto é todo pincelado pela tradição do realismo mágico – tão cara à literatura latino-americana – quando uma série de acontecimentos fantásticos invadem de forma natural a realidade da vida de seus personagens.

Tradições latinas

Vejo uma ligação muito forte com um dos grandes romances da corrente artística – Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – na escrita dessa grande história sobre a fundação de uma linhagem familiar, geração após geração, pelo caráter heróico e revolucionário de alguns de seus personagens, os acontecimentos inexplicáveis no curso natural da vida ou nos espectros que caminham no mundo dos vivos, para citar alguns pontos. Há um personagem, o machi Aukan – espécie de xamã do povo mapuche , que muito me lembrou o cigano Melquíades de García Márquez.

A história desse grupo familiar de Herança é circular. Há um retorno constante aos traumas de uma geração e noutra e noutra. São muitas as heranças partilhadas pela prole dos Lonsonier: há uma inquietação do espírito, uma necessidade de partida rumo ao desconhecido; há uma espécie de desenraizamento, o não-encontro de uma terra própria, segura para a criação de raízes definitivas; há a culpa, que atravessa, em maior ou menor grau, todos os seus integrantes – culpa esta, em certos momentos, por decisões trágicas e definitivas; e há um nome, que é passado de geração em geração, como um enigma, que nós leitores, assim como os personagens, pouco sabemos a respeito até o seu desfecho surpreendente.     

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

Capa do livro Herança, de Miguel Bonnefoy. Crédito: Editora Vestígio
Capa do livro Herança, de Miguel Bonnefoy. Crédito: Editora Vestígio

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