Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Filme M8 – Quando a morte socorre a vida é um retrato do Brasil

Longa está disponível na Netflix, conta com elenco de peso e retrata o Brasil em vários aspectos principalmente no que diz respeito à população negra
M8
Crédito: Downtown Filmes

Quem se importa com os corpos pretos no Brasil? Essa é uma das questões que o filme M8 – Quando a morte socorre a vida coloca para o espectador. Para além disso, fala sobre ancestralidade e religiosidade, racismo, relações de poder e representatividade.

O longa entrou recentemente no catálogo da Netflix e tem direção de Jeferson De. Ganhou o prêmio do público de Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio em 2019.

Baseado no livro homônimo de Salomão Polakiewicz, M8 conta a história de Maurício (Juan Paiva), um jovem periférico e negro que consegue ingressar na faculdade de medicina por meio das cotas. Na primeira aula de anatomia, se depara com o cadáver M8, também negro. Dessa forma, ao longo do semestre embarca em uma jornada para tentar descobrir a identidade do homem e enfrentar a própria angústia de se identificar com aquele corpo, o ver nos lugares e até mesmo sonhar com ele. 

 

Elenco

Os protagonistas de cara já chamam a atenção. Juan Paiva é um ator promissor, conhecido pelas novelas Totalmente demais e Malhação. A mãe do personagem é interpretada por Mariana Nunes, das séries Carcereiros e Segunda chamada. Além disso, o filme conta com participações de grandes nomes da televisão e do cinema nacional. Entre eles Zezé Motta, Lázaro Ramos, Ailton Graça, Rocco Pitanga, Léa Garcia, Tatiana Tibúrcio e Raphael Logan. 

Raphael Logan interpreta M8. Quando está interagindo com Maurício não tem nenhuma fala. No entanto, a sua presença em cena é extremamente expressiva e fundamental para o enredo. Ele aparece nos sonhos do jovem e nos encontros no candomblé, religião dos protagonistas.

Representatividade e preconceito velado

O longa foca especialmente nos personagens negros. Os brancos são coadjuvantes. Sendo assim, mostra o dia a dia de um jovem que precisa viver e sobreviver em um ambiente que o foi negado durante toda a história. Mesmo que esse não seja o foco principal, a trama potencializa situações de racismo que muitos julgam clichês, mas que ainda são as que mais acontecem. Só para exemplificar, em uma cena um colega branco pergunta para Mauricio informações da universidade como se ele fosse funcionário. 

Entretanto, o mais interessante de ver, como diria Emicida, é que “tudo que nós tem é nós”. Todos os personagens negros, mesmo com conflitos e diferenças, cooperam uns com os outros em uma grande rede de apoio, solidariedade e empatia.  

Tom político

Outro aspecto importante e que deve ganhar o seu devido destaque é o tom político de M8. Isso ocorre desde sutilezas, como um retrato de Marielle Franco em um muro na quebrada de Maurício, passando por uma abordagem policial ao jovem negro na zona sul do Rio, até as manifestações de um grupo de mães que estão com os filhos desaparecidos e buscam por justiça. Sem dar spoilers, o protagonista até conta com esse grupo para tentar encontrar a identidade de M8. 

Não ficção

Apesar de ficcionalizar questões de espiritualidade, alucinações e sonhos, várias outras são um retrato fiel da realidade. Em relação às cotas, por mais que elas existam, nos cursos de medicina, por exemplo, a grande maioria dos alunos ainda são brancos. Além disso, o racismo é retratado nas sutilezas, um olhar já é suficiente. Por outro lado, apenas em uma passagem, o longa mostra como a violência policial é uma dura realidade para a população negra, que só de andar pelas ruas já está em perigo. Tem também os conflitos de relações inter-raciais, divisão de classes, transporte público etc.

Em resumo, trata-s de um filme que envolve muitas angústias e sentimentos, que precisa ser visto e entendido para além de palavras. Por fim, a maior reflexão paira sobre o incômodo sobre situações normalizadas. Mas que precisam de olhar e atitudes críticas para promover mudanças.

M8
Crédito: Downtown Filmes

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