O Festival Acessa BH 2026 chega à sexta edição com uma programação que coloca a cultura DEF no centro da criação artística. Entre 4 e 27 de setembro, Belo Horizonte recebe cerca de 30 atividades, entre espetáculos, performances, cinema, oficinas, rodas de conversa, bate-papos e lançamentos de livros.
Ao todo, participam artistas de seis estados brasileiros e uma companhia do Reino Unido. A programação ocupa seis espaços culturais da capital: Funarte MG, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Theatro Brasil, Praça da Liberdade, Teatro Raul Belém Machado e Palácio das Artes.
Com curadoria de Daniel Vitral e Lais Vitral, o festival apresenta diferentes formas de pensar a deficiência na arte. Para isso, reúne trabalhos de dança, teatro, performance, cinema e literatura que abordam temas como identidade, comunicação, memória, pertencimento e acessibilidade.
Cultura DEF como linguagem artística
Mais do que ampliar o acesso do público, o Acessa BH constrói sua programação a partir da cultura DEF. Artistas, consultores e profissionais com deficiência participam de diferentes etapas do projeto, da curadoria à realização das atividades.
Além disso, todos os espetáculos contam com Libras e audiodescrição. As sessões de cinema terão legendas descritivas e recursos de acessibilidade. Já oficinas e rodas de conversa recebem os recursos necessários de acordo com o perfil dos participantes.
Assim, a acessibilidade não aparece apenas como um recurso complementar. Ela também integra os processos de criação e as linguagens apresentadas pelo festival.
Movidos Dança abre o Festival Acessa BH
A abertura acontece em 4 de setembro, na Funarte MG, com SER(tão), da companhia potiguar Movidos Dança. Com direção do coreógrafo Mário Nascimento, o espetáculo revisita o sertão nordestino por meio da dança, da música e de elementos da cultura popular.
A trilha mistura forró, xote e baião com sonoridades eletrônicas. Dessa forma, tradição e futuro se encontram em uma obra que celebra diferentes corpos e identidades.
No dia seguinte, 5 de setembro, a companhia apresenta Nuvem de Pássaros. Inspirado nas migrações das aves, o trabalho transforma as revoadas em metáfora para a convivência e os conflitos da sociedade.
Criada em 2018 por Anderson Leão e Daniel Silva, a Movidos Dança pesquisa a presença de corpos diversos na cena contemporânea. Com os dois espetáculos, o Acessa BH oferece uma oportunidade rara de acompanhar diferentes trabalhos do grupo na mesma edição.
Reino Unido chega ao Acessa BH com experiência imersiva
A primeira semana também recebe a companhia britânica ZU-UK, que apresenta Encontro Romântico Binaural. A performance transforma um espaço cultural em um restaurante e convida duplas a participar de uma experiência imersiva de 75 minutos.
Com fones de ouvido e uma narração em áudio binaural, os participantes passam por jogos, conversas e situações que exploram afeto, intimidade e conexão.
A experiência pode reunir pessoas que nunca se encontraram ou duplas que já se conhecem. Depois da apresentação, os artistas Jorge Lopes Ramos e Persis Jadé Maravala conversam com participantes e espectadores sobre o processo de criação.
A presença da companhia também amplia uma parceria iniciada em 2025 entre o Acessa BH, a organização britânica DaDaFest e a ZU-UK. O intercâmbio aproxima artistas e instituições que trabalham nas fronteiras entre deficiência, tecnologia, teatro imersivo e participação.
Teatro reúne nomes conhecidos da cena brasileira
Na segunda semana, o teatro ganha destaque. Entre os principais títulos está Baixa Sociedade, de Juca de Oliveira, com direção de Pedro Neschling e atuação de Luiz Fernando Guimarães, Debora Osório, Paulo Mathias Jr. e Bruna Alves.
A montagem integra as comemorações dos 50 anos de carreira de Luiz Fernando Guimarães. A partir da comédia, o espetáculo discute ambição, mobilidade social e relações de poder.
Pedro Neschling, que convive com deficiência auditiva desde a juventude, também participa do festival em ações relacionadas à surdez.
Outro destaque é SURDA, com dramaturgia autobiográfica de Julia Spadaccini, direção de Debora Lamm e atuação de Benedita Casé Zerbini.
A peça acompanha uma mulher durante o processo de perda auditiva e mostra os impactos dessa transformação na vida afetiva, familiar e profissional. A montagem conta ainda com a presença da intérprete de Libras Diana Dantas e legendas em tempo real.
Depois da apresentação, haverá um bate-papo com o público. O encontro amplia as discussões propostas pelo espetáculo e aproxima experiência pessoal e criação artística.
Cinema também ganha espaço na programação
O audiovisual aparece em duas sessões comentadas.
Uma delas reúne o curta A Diferença entre mongóis e mongoloides e a pré-estreia nacional de Uma em Mil. Dirigido pelos irmãos Jonatas e Tiago Rubert, o documentário parte da relação entre os dois realizadores — Tiago tem síndrome de Down — para discutir autonomia, convivência e afeto.
O filme chega a Belo Horizonte poucos dias antes da estreia nacional e terá conversa com os diretores após a sessão.
A programação cinematográfica também apresenta o espanhol Surda, vencedor de três prêmios Goya. A atriz surda Miriam Garlo recebeu o prêmio de atriz revelação pela produção.
O longa acompanha uma mulher durante a gravidez e a maternidade. Ao mesmo tempo, discute identidade, pertencimento e comunicação. Em Belo Horizonte, a sessão terá dublagem em português, Libras, legendas e audiodescrição, seguida de debate.
Praça da Liberdade recebe um dia inteiro de atividades
No dia 20 de setembro, o Festival Acessa BH ocupa a Praça da Liberdade com o Quintal do Memorial – Edição Acessa BH, realizado em parceria com o Memorial Minas Gerais Vale.
Durante todo o dia, o público poderá acompanhar espetáculos, vivências e encontros com artistas e profissionais da cultura.
Entre as atrações está A Cangaceira Surda Mara, da artista cearense Lyvia Cruz. Em Libras, a montagem mistura humor, cultura nordestina e protagonismo surdo.
Também integra a programação O Número Sanfônico, da catarinense La Luna Cia. de Teatro. A montagem combina palhaçaria, música e acessibilidade estética em uma experiência para diferentes idades.
O dia ainda reserva dois lançamentos literários. Um deles é O Boi que Aprendeu Libras, primeiro livro infantil de Ademar Alves Jr. A obra parte de memórias da infância, da relação com a Libras e das origens do autor no Vale do Jequitinhonha.
Já DoroTEA – Uma Autista na Escola, de Bruno Gomes e Dani Muffato, acompanha a chegada de uma criança autista ao ambiente escolar. A publicação aborda convivência, inclusão e diversidade a partir do universo infantil.
Oficinas aproximam público e artistas
A formação ocupa um espaço importante na programação do Acessa BH. Oficinas e rodas de conversa aprofundam temas presentes nos espetáculos e no cinema.
Entre os destaques está a oficina Audiodescrição, movimento e expressão – explorando possibilidades, nos dias 16 e 17 de setembro, na Funarte MG.
A atividade investiga a relação entre audiodescrição e movimento nas artes performáticas. Participam Anita Rezende, Elizabet Sá e Renata Mara, profissionais com trajetórias ligadas à audiodescrição, à acessibilidade e à dança.
O festival também inicia, em 22 de setembro, uma parceria com o Hub Cultural Porto Dragão, do Ceará. O encontro reúne representantes da instituição e profissionais da área para discutir intercâmbio de artistas, metodologias e ações relacionadas à cultura DEF.
A atividade acontece no MM Gerdau e conta com a participação de Leo Porto, Thiago Braga e Thamyle Vieira.
Programação para crianças aposta em diferentes formas de brincar
Na quarta semana, o festival volta o olhar para as infâncias. A programação reúne teatro, circo, literatura, Libras e experiências sensoriais.
Entre as atrações estão Circo de Los Pies e O Número Sanfônico, da La Luna Cia. de Teatro. No primeiro, uma palhaça transforma os próprios pés em personagens. Já no segundo, música e palhaçaria conduzem o público por uma história sobre amor e cumplicidade.
Outro destaque é A Cangaceira Surda Mara, de Lyvia Cruz. A artista aproxima Libras, cultura popular nordestina e brincadeiras tradicionais em uma aventura protagonizada por uma heroína surda.
Para crianças com Transtorno do Espectro Autista, Puft e as Almofadas Coloridas, da Cia. Ananda e Rosa Primo, propõe uma experiência sensorial que aproxima palco e plateia. A criação conta com consultoria de acessibilidade do ator e bailarino cego Oscar Capucho.
O espetáculo também terá um bate-papo entre artistas e público. A conversa aborda acolhimento e experiências de mães atípicas.
Por fim, Da Janela, idealizado e dirigido por Marco dos Anjos, encerra o festival. A montagem utiliza Libras, narração poética e recursos visuais e sonoros para contar a amizade entre duas crianças que descobrem novas formas de comunicação.
Acessa BH amplia o debate sobre deficiência e arte
Ao longo de quatro semanas, o Festival Acessa BH conecta diferentes linguagens e públicos. Dança, teatro, cinema, literatura, performance e formação dividem espaço com experiências de acessibilidade.
Mais do que apresentar uma programação acessível, o festival propõe pensar a acessibilidade como parte da própria criação artística.
Por isso, a sexta edição amplia a presença da cultura DEF em Belo Horizonte e aproxima artistas brasileiros e internacionais em torno de novas maneiras de criar, ocupar espaços e se relacionar com o público.
Serviço
Festival Acessa BH 2026
Quando: 4 a 27 de setembro de 2026
Onde: Funarte MG, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Theatro Brasil, Praça da Liberdade, Teatro Raul Belém Machado e Palácio das Artes
Programação: espetáculos, performances, cinema, oficinas, rodas de conversa, bate-papos e lançamentos de livros
Entrada: consultar a programação e as informações de cada atividade no site oficial do Festival Acessa BH.
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