“Isso aqui é coisa de Ilha da Fantasia.” Foi assim, entre risos e agradecimentos, que Mônica Salmaso descreveu a estreia dela no Inhotim. Em um sábado de céu encoberto e previsão incerta, a cantora transformou a apresentação no Festival Jardim Sonoro, sábado, 12/07, em um encontro entre afeto, memória e reinvenção.
“Uns oitenta por cento desse show eu nunca cantei”, revelou. “Está saindo do forno, está até queimando a mão”, brincou. O repertório, dedicado a Tom Jobim, evitou os caminhos mais óbvios. Salmaso costurou grandes sucessos a faixas menos conhecidas. Entre elas, “Sucedeu assim”, “Piano na Mangueira”, “O que tinha de ser”, “Estrada do Sol” e muitas outras. São canções que expõem um Brasil que ela define como essencial.
“A gente vai aqui se deitar, assim, ao som desse Tom Jobim. Que representa um Brasil que a gente ama de verdade, muito mesmo. E que a gente precisa, cada vez mais, se segurar nele. Defendê-lo, cantá-lo, tocá-lo. Até pra fazer as coisas novas. Esse Brasil, é aquela raiz que não pode sair do chão. Se não, dançou”
A voz como protagonista
Na segunda edição, o Jardim Sonoro propõe uma escuta expandida da voz. A curadoria, assinada por Júlia Rebouças e Marília Loureiro, explora o canto como expressão artística, política e poética.
Assim, no palco, acompanhada por Teco Cardoso e João Camarero, Mônica construiu um momento raro. A presença dela na programação de um festival dedicado à voz parece reafirmar, em cena, a própria proposta curatorial. A voz, entre as mais elegantes e precisas do cancioneiro brasileiro contemporâneo, encarna exatamente esse lugar ampliado que a edição busca destacar.
Não se trata apenas do canto. Mas da construção de sentido, da escolha de repertório, da forma como se compartilha o tempo com o público. Salmaso não apenas canta. Ela escuta, comenta, costura referências e transforma o palco em espaço de conversa. Sua participação sintetiza, com delicadeza e densidade, o que o Jardim Sonoro se propôs a explorar.
A proposta e o percurso
No sábado (12/07), também se apresentaram a mineira Luiza Brina e a americana Cécile McLorin Salvant. O Jardim Sonoro ocupou dois espaços inéditos para esta finalidade no Inhotim. O Palco Desert Park foi instalado nas proximidades da obra homônima de Dominique Gonzalez-Foerster, perto das galerias Adriana Varejão, Galpão e do Vandário.
Já o Palco Piscina foi montado ao lado da obra Piscina (2009), de Jorge Macchi. Um espaço no alto de uma colina, cercado por trabalhos de Chris Burden, Marilá Dardot e Rirkrit Tiravanija. Ao escolher esses pontos, a curadoria propôs uma nova geografia sonora no parque, integrando os percursos físicos aos estéticos. Mas a execução da experiência precisa de ajustes.
Alguns desafios
A circulação entre os palcos, embora bem sinalizada, exigia deslocamentos longos. Os carrinhos, que costumam circular regularmente pelo Inhotim, estavam em operação. No entanto, durante o festival, não havia integração clara entre as rotas e a dinâmica do evento. Muitos veículos passavam vazios ou permaneciam parados, mesmo com filas se formando em alguns pontos.
Em alguns trechos, era necessário trocar de carrinho para completar o trajeto, e as trilhas indicadas não se conectavam com fluidez aos espaços de apresentação. Em contextos como esse, com programação distribuída em diferentes pontos do parque, talvez seja o caso de refletir sobre a distância entre os palcos e como isso interfere na experiência do público.
Além disso, embora houvesse opções gastronômicas próximas ao palco, como sanduíches, empanadas, milho e churrasquinho, a busca por uma refeição mais completa exigia deslocamento. A distância, somada à dificuldade de transporte interno, dificultou o retorno em tempo para a última apresentação do dia, de Cécile McLorin Salvant. Em contextos como esse, com programação distribuída em diferentes pontos do parque, talvez seja o caso de refletir sobre a distância entre os palcos e como isso interfere na experiência do público.
Entre erros e acertos
Sendo assim, o 2º Jardim Sonoro acerta ao apostar na voz como território artístico. Mas, para que o público possa vivenciar a programação por inteiro, talvez seja o caso de repensar o ritmo das apresentações ou a logística entre os palcos. Oferecer alternativas de deslocamento, por exemplo, pode ampliar o acesso a experiências sensoriais mais completas. São possibilidades que ajudam a manter coerência entre proposta curatorial e vivência no espaço.
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Publicado por Carol Braga
Publicado em 13/07/25
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