Ex-carroceiro estreia mostra de arte no Palácio das Mangabeiras
Exposição “Quim: Inconsciente Preciso” reúne pinturas do artista mineiro Joaquim Dimas Fidelis e apresenta obras guiadas pela memória, pela cor e pela imaginação
Foto: Victor Hugo Rocha
Exposição “Quim: Inconsciente Preciso” reúne pinturas do artista mineiro Joaquim Dimas Fidelis e apresenta obras guiadas pela memória, pela cor e pela imaginação
Foto: Victor Hugo Rocha
Ex-carroceiro em Belo Horizonte, o artista mineiro Joaquim Dimas Fidelis estreia sua primeira mostra individual, “Quim: Inconsciente Preciso”, no Palácio das Mangabeiras. A exposição, apresentada pela Papazoglu Galeria, fica em cartaz de 8 de março a 7 de junho de 2026. O público poderá ver pinturas criadas a partir de um processo intuitivo guiado pela cor, pela memória e pela imaginação.
Sem formação acadêmica, Quim desenvolveu uma obra que dialoga com a tradição da arte naïf. Ao mesmo tempo, construiu uma linguagem própria, marcada pela liberdade formal e pela força cromática.
Para a curadora Sarah Ruach, a potência das telas está justamente nessa liberdade. “Quim nos convida ao encantamento do simples e à sedução do cotidiano esquecido. Sua pintura constrói uma coreografia delicada entre memória, cor e imaginação, onde a ingenuidade se afirma como potência”, afirma.
Segundo ela, o artista trabalha a partir de um “inconsciente preciso”. As imagens surgem sem planejamento prévio, mas encontram equilíbrio e estrutura no próprio ato de pintar.
O processo de Quim começa pela cor, antes de qualquer desenho. Com a tela no colo, ele mistura tintas diretamente na superfície e deixa que a imagem se organize durante a execução.
“Eu mesmo, na realidade, nem sei o que eu tô pintando quando pego o pincel. Tudo que vem da mente eu vou pintando. E só depois de um tempo vou reconhecer o desenho”, conta.
Assim, campos cromáticos intensos passam a estruturar as composições. Muitas telas se dividem em faixas horizontais que separam céu e terra. Montanhas surgem como blocos de cor. Árvores aparecem como sinais gráficos repetidos. Pequenas figuras humanas ocupam paisagens que misturam referências do campo e da cidade.
Para Costantino Papazoglu, diretor da Papazoglu Galeria e coordenador do projeto, a obra de Quim já nasceu com identidade visual.
“Há artistas que passam anos buscando uma identidade visual. O Quim já começou com a dele. A força do trabalho está na capacidade de transformar lembranças simples em imagens que permanecem. Existe uma verdade ali que não é ensaiada, é vivida”, afirma.
O encontro entre Papazoglu e o artista ocorreu no início de 2025. O galerista visitou a galeria do colecionador Rildo Faria e se deteve diante de uma parede com pequenas telas. Uma delas chamou sua atenção pela síntese formal e pela vibração cromática.
Dias depois, ao conhecer Quim e ver o conjunto da produção reunida nas paredes de sua casa, reconheceu uma linguagem já afirmada.
“Desde aquele primeiro momento, compreendi que estava diante de uma obra que não precisava ser construída — ela já existia com verdade e consistência. Escolher o Quim para inaugurar a programação da Galeria Papazoglu é uma declaração de princípios: acreditamos na força da autenticidade e na potência da arte que nasce da experiência vivida”, completa.
“Inconsciente Preciso” também marca o lançamento do livro “Quim”. A publicação reúne textos críticos, imagens das obras e reflexões sobre a trajetória do artista. O volume acompanha a exposição e registra este momento como um marco em sua carreira.
Joaquim Dimas Fidelis nasceu em 1958, em Nelson de Sena, distrito de São João Evangelista, no Vale do Rio Doce (MG). Com pouca escolarização formal, começou a trabalhar cedo. Aos sete anos, já ajudava o pai na roça e também quebrava brita.
Ainda na infância, produzia objetos utilitários em madeira. Na adolescência, deixou o interior em busca de emprego. Em Belo Horizonte, exerceu diferentes ofícios. Atuou como carroceiro, servente, pedreiro e pintor de paredes.
Essa trajetória ampliou seu repertório visual. O trabalho com pintura de fachadas e interiores aprofundou sua percepção cromática. A combinação intuitiva de tintas, que utilizava no cotidiano, antecipava a sensibilidade que surgiria anos depois em suas telas.
A produção artística começou em 2017, após uma pequena obra chamar a atenção de amigos e incentivadores. Desde junho de 2025, Quim se dedica integralmente à pintura.
Quim: Inconsciente Preciso
Local: Parque do Palácio – Av. Djalma Guimarães, 161, Portaria 2 – Mangabeiras, Belo Horizonte (MG)
Período: 8 de março a 7 de junho de 2026
Horário: Quarta a sexta, das 10h às 18h; sábado e domingo, das 9h às 18h
Mais informações no Instagram @papazoglugaleria
Publicado por juniodecarvalho
Publicado em 05/03/26