Escritoras, mineiras e negras: a riqueza da produção literária e a busca por mais destaque no mercado editorial
Cidinha da Silva. Foto Nuno Biazzo
Cidinha da Silva. Foto Nuno Biazzo
De Carolina Maria de Jesus as mais recentes escritoras da atualidade
Por Lizandra Andrade I Participante do Projeto Culturadoria em rede
A literatura afro-brasileira consolidou-se como importante movimento de expressão e protesto, ao dar visibilidade a histórias, experiências e vozes até então marginalizadas. Em Minas Gerais, também se destaca a rica produção literária de escritores negros, surgidos a partir da metade do século XX, sobretudo no que se refere às narrativas femininas.
Neste artigo, exploramos um pouco da história da literatura negra mineira e analisamos o cenário contemporâneo, com ênfase na luta das escritoras por mais evidência no mercado editorial.
“Toda a produção literária afro-brasileira ganhou corpo no fim da ditadura militar, quando o AI-5 foi revogado, em 1978”, comenta Eduardo de Assis Duarte, professor da UFMG e coordenador do grupo de pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira e do portal Literafro. “A partir daí, começam a surgir os cadernos negros, em São Paulo, por exemplo”, completa.
A Frente Negra Brasileira (FNB), na década de 1930, foi uma das primeiras organizações a exigir igualdade de direitos e participação na sociedade. Desse modo, o grupo realizou grande campanha de alfabetização da população negra, além de outras ações.
Um pouco antes, Francisco de Paula Brito, jornalista e escritor negro de origem modesta, destacou-se como articulista na imprensa, e, também, no mercado literário afro-brasileiro.
A atuação de autores negros e negras em Minas Gerais começa no século XX, quando nossos literatos rompem barreiras e fazem suas vozes serem ouvidas nacionalmente. No que diz respeito ao movimento feminino, Eduardo de Assis Duarte sublinha o nome de Carolina Maria de Jesus, mineira, nascida em Sacramento, e autora do aclamado livro “Quarto de Despejo”, publicado em 1960.
“Carolina é a mãe de Conceição Evaristo, de Jussara Santos, de Cidinha da Silva, de Ana Maria Gonçalves, e de tantas outras mineiras. Carolina é a figura que dá o Norte. Não há como a escrita negra encher páginas e páginas de um livro com o relato de banalidades, diante da realidade de opressão que Carolina expôs em suas obras”, diz.
Na escrita, segundo o professor, a marca registrada de tais escritoras é a memória negra e feminina, que deve ser contada a todo mundo, e o tempo todo, para que não se repita. “A afirmação é fundamental, pois tentam apagar, há séculos, a memória da escravidão no Brasil. E a escravidão ainda não acabou. Outro ponto de encontro é a denúncia da subalternidade, provocada pela exploração e pelo racismo”, completa.
Lélia Gonzalez, escritora, política, professora e ativista na luta contra o racismo, e pelo empoderamento das mulheres negras, é outra figura importante destacada por Eduardo de Assis. Em obras como “Lugar de Negro” e “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, a mineira explora as interseções entre raça, gênero e classe, ao analisar, criticamente, as opressões enfrentadas por mulheres negras na sociedade brasileira. Sua escrita visceral e engajada conquistou espaço e reconhecimento no Brasil e no exterior.
“Lélia esteve, muitas vezes, nos Estados Unidos, e, finalmente, seus textos estão sendo publicados. Para além da ficção, aparece, em sua escrita, as vertentes militante, psicanalítica e filosófica, porque ela estudou filosofia no Rio de Janeiro. Seu trabalho foi muito importante, e ela é uma mineira que devemos celebrar”, sublinha.
Na atual cena literária em Minas Gerais, cresce significativamente a produção de escritoras negras. Mulheres como Ana Maria Gonçalves, autora de “Um Defeito de Cor”, e Jussara Santos, de “Samba de Santos”, “De Flores Artificiais” e “Indiara”, têm contribuído para ampliar o espaço de tais narrativas no Brasil.
No entanto, apesar dos avanços, elas ainda enfrentam desafios no mercado editorial. A falta de incentivo e destaque, a dificuldade de acesso a oportunidades e a perpetuação de estereótipos são obstáculos que precisam ser superados, conforme explica o professor Marcos Antônio Alexandre, especialista em literatura afro-brasileira e membro do portal Literafro.
“Publicar, além de caro, não é fácil. Por vezes, as autoras têm que fazer a autopublicação de seus textos, o que demanda, além de investimentos, divulgação – que tem problemas em Minas. Sempre que realizam palestras, Cidinha da Silva e Conceição Evaristo levam os próprios livros para comercializar e passar a palavra. O alcance também é complicado, pois, geralmente, elas publicam 500, mil exemplares, e, se esse livros são vendidos, tem-se nova reimpressão, e, às vezes, nova edição”, explica.
Outro desafio é a distribuição dos textos: “Para isso, é preciso investir em marketing. Muitas escritoras divulgam nas redes sociais, mas falta investimento em outras mídias, como rádios e programas televisivos educacionais e de entretenimento. Sei que as autoras participam de congressos e eventos, mas, em minha opinião, ainda falta algo”, completa.
Além das próprias iniciativas, para combater essa realidade, projetos de incentivo à leitura e movimentos literários têm tentado fortalecer a presença e a influência de autoras negras no cenário literário nacional, como o portal Literafro, a Feira Mineira, o Festival de Arte Negra (FAN) e a Bienal Mineira do Livro.
A produção literária das escritoras negras mineiras tem relevância inegável no cenário literário nacional. Por meio de suas obras, elas retratam vivências, denunciam o racismo e constroem narrativas capazes de ampliar a representatividade da população afro-brasileira.
Natural de Belo Horizonte, Maria Aparecida Silva, mais conhecida como Cidinha da Silva, é, hoje, renomada escritora, educadora e ativista. Sendo assim, a autora não se restringe a um território de escrita, ao passear por contos, crônicas, poemas, peças de teatro e narrativas para o público infantojuvenil. Além disso, é reconhecida pela significativa contribuição à literatura afro-brasileira contemporânea e pelo engajamento na promoção da igualdade racial e de gênero. Nesta entrevista ao Culturadoria, ela fala de métodos, inspirações e desafios.
Sou uma pessoa prática, disciplinada, que dispõe de pouco tempo para a leitura e a escrita. Dedico muito tempo ao entorno da literatura (palestras, cursos, oficinas, elaboração de textos por encomenda, questões burocráticas de contratos, recebimentos etc.), que é o que gera dinheiro e me sustenta economicamente. Meu processo criativo, então, está imerso nas águas da praticidade e da materialidade da vida. Costumo dizer que trabalho para autofinanciar algumas horinhas semanais de escrita literária. Desse modo, trabalho, de maneira bem objetiva, em projetos de livros e, de acordo com o projeto e a rotina de outros trabalhos, defino o tempo que poderei dedicar à elaboração do livro em questão.
Não manejo a ideia de “fontes de inspiração”. Observo a vida, o cotidiano (isso é trabalho) e dali emergem os temas sobre os quais quero me posicionar, criar, me contrapor. Logo, essa é minha motivação. As temáticas que abordo são as que compõem meu projeto de escrita num determinado momento, e são bastante variadas.
Eu produzo literatura porque gosto de escrever, porque me dá alegria, porque quero construir mundos e colocá-los para jogo, para dialogar com os mundos das outras pessoas. Por isso, esse papo de “promoção de diversidade e de representatividade”, deixo para a recepção: ela que dê aos meus textos o uso que achar mais conveniente.
Acho que Minas, especialmente Belo Horizonte, deveria reconhecer e valorizar as autoras que levam o nome do Estado pelo mundo, e que não moram em BH, mas parece que somos punidas por isso, por termos escolhido não morar na cidade natal (falo do meu caso, em especial; talvez isso não valha para outras colegas). Quanto às autoras que são de Minas e lá estão, penso que o Estado deve valorizá-las e promovê-las, levar seus livros para as escolas, adotá-los nas políticas públicas de formação de acervos.
Enfrentamos todas as dificuldades que as mulheres negras encaram de um modo geral, pois vivemos num país racista e hierarquizado pela discriminação racial. Quanto a obstáculos vivenciados no mercado editorial, vou elencar alguns: o racismo continua movendo toda a gente negra, e sobreviver a ele rouba muito tempo da nossa existência, deixa pequenas e insuficientes nesgas para o sonho, os desejos, a realização plena como ser humano.
Constituir-se como escritora ou escritor negro é subverter a lógica que esvazia as pessoas negras dos atributos da intelectualidade. Logo, você luta contra o mar da ignorância, da discriminação, dos privilégios brancos, tudo pensado e arquitetado para garantir a branquitude nos lugares de poder e mando. A palavra, escrita ou vocalizada, como sabemos, é um lugar de exercício de poder.
Como estamos fora de lugar e somos subalternizados, não fomos pensados para escrever, principalmente a partir do pensamento autônomo e altivo, e da livre criação artística. Nesse sentido, tentam nos encaixotar de diferentes formas e definem um gradiente temático no qual podemos transitar. Isso está dado, é assim desde que o mundo racista é mundo racista e se transforma todos os dias como um monstro em mutação. O problema maior é quando comemos esse reggae e seguimos a cartilha deles.
Entender que a legitimidade do que eu digo ou denuncio não assegura a qualidade estética do que produzo. Entender que o mercado é lugar de Exu e, se somos gente de Exu, o mercado editorial, como todos os outros mercados, é nosso lugar como espaço de trocas e de circulação de saberes, de conhecimentos sobre o manejo da vida. Desse modo, gerenciar as moedas de troca no mercado é reapropriação de uma ciência que nos pertence.
Eu saí de Belo Horizonte em 1991. Se comparado o momento atual com o passado, vejo que, hoje, há um número significativo de escritoras negras. Naquele tempo, tínhamos apenas a polivalente Leda Maria Martins, poeta, ensaísta, dramaturga e professora da UFMG. Tínhamos, também, a professora Nazaré Fonseca, na Faculdade de Letras da UFMG. De lá para cá, surgiram e se consolidaram escritoras como Madu Costa, Jussara Santos e Nívea Sabino. Por outro lado, não podemos nos esquecer da Mazza Edições e de seu papel agregador e disseminador de autorias negras de um modo geral. Fora de Minas, temos nomes como o de Conceição Evaristo, Grace Passô, Ana Maria Gonçalves e o meu, que têm levado o nome do Estado pelo país e mundo afora.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 13/07/23