Cinema

“Eros” se debruça sobre o universo mítico dos motéis

Dirigido por Rachel Daisy Ellis, "Eros" filia-se ao gênero documentário, com o recorte de se passar no âmbito de quartos de variados motéis

Eros. Foto: Fistaile/Divulgação

Patrícia Cassese

Faz sentido assistir a “Eros”, filme em cartaz nos cinemas e se lembrar do Dogma 95, manifesto que, nascido na Dinamarca no ano apontado no título da iniciativa, propunha um cinema sem grandes aparatos técnicos, ou seja, mais visceral, cru, autêntico. Um cinema sem filtros, sem deslocamentos temporais, e com o som gerado conjuntamente à imagem, entre outras regras. O despontar do movimento teve, entre seus signatários, nomes como os de Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

Dirigido por Rachel Daisy Ellis, “Eros” filia-se ao gênero documentário, com o recorte de se passar no âmbito de quartos de variados motéis. Mas, ressalte-se, a iniciativa vai além da captura de imagens consentida pelos frequentadores que aparecem no curso do longa-metragem. Na verdade, nele, os casais foram convidados a adentrar os quartos para, por conta própria, registrarem conversas informais, momentos na banheira e, sim, o ato sexual. Isso, sem se preocupar com a técnica, daí o paralelo que pode ser feito com o movimento de DNA dinamarquês.

Pluralidade

De pronto, ressalte-se a diversidade dos casais que assentiram ao convite para participar de “Eros”. A começar da composição. Assim, há os hetero tradicionais, os LGBTQI+ e até um trisal, por exemplo, além do personagem que opta adentrar sozinho a um quarto do estabelecimento que, como o material de divulgação do filme enquadra, é a “instituição de sexo mais importante do país”. Instituição que integra “a paisagem urbana de todo o Brasil, com seus letreiros luminosos e entradas chamativas”.

Mas não é só na composição dos casais que “Eros” apresenta um olhar plural. Há, entre os pares, pessoas de variadas idades, credos e preferências diversas no que tange às práticas sexuais. Importante estabelecer que o espectador não deve esperar cenas bem produzidas, que exibem corpos perfeitos, torneados, caso dos filmes eróticos. Mesmo porque, essa nunca foi a intenção da diretora e idealizadora. Rachel Daisy Ellis, na verdade, viu, no bojo de sua ideia, a oportunidade “de explorar e provocar uma reflexão sobre o que é o motel”.

Partilha íntima

No já citado material de apresentação de “Eros”, ela diz: “Quando vi as primeiras filmagens dos personagens, fiquei impressionada com a intimidade compartilhada” (…) “Tinha algo mágico ali, entre o exibicionismo e a partilha íntima, que foi muito especial. Os momentos capturados antes e depois do sexo, no qual a intimidade se constrói eram fascinantes”.

Todas as filmagens foram realizadas com os celulares das pessoas que foram convidadas a se filmar durante uma estadia. “Escolhi o dispositivo do auto registro como maneira de adentrar a intimidade e explorar a auto-representação. O filme acabou sendo um mergulho nas relações íntimas, a liberdade sexual, o refúgio, a relação corpo-espaço, a auto-representação, a performance, o amor romântico e a solidão”, explicou Rachel Daisy. A escolha da suíte também ficou por conta do casal.

A narrativa

O filme se inicia com a própria Rachel na cama de um motel, confessando, à camêra, ter levado um “bolo” no encontro marcado. Sozinha no quarto, em meio a reflexões, ela teve a atenção constantemente cooptada pelos gemidos que vinham dos cômodos vizinhos. E, assim, surgiu o pilar estrutural de “Eros”. No filme, o primeiro casal a se apresentar é cis, composto por pessoas de meia idade, que compartilham não só a transa em si, como outros momentos, da prosaica pausa para a refeição (antes de seguir em frente) a até mesmo um certo perrengue no encaixar dois corpos no espaço restrito da Jacuzzi.

Um quarto para chamar de seu

Como pontuado, a escolha do quarto para vivenciar a experiência ficou por conta do próprio casal. E, no caso de “Eros”, o prêmio de mais criativo vai para o que opta por um quarto com revestimento de rochas no teto, que, na verdade, é solar, ou seja, é possível abri-lo para o usuário ficar a céu aberto – portanto, à noite, sob estrelas. Nele, há também a possibilidade de um efeito especial de luz na banheira, valorizado quando se apaga a luz. No filme, um dos componentes reclama do conteúdo hétero que detém a hegemonia nos canais de TV internos. Um ponto que vale assinalar é quando o rapaz lembra o dia em que, para entrar em um motel a pé, teve que aguardar numa fila… de carros!

O mesmo rapaz também faz várias conjecturas sobre a visão das religiões em torno dos casais LGBTQI+, assim como se diz privilegiado pelo fato de estar em condições de pagar um quarto de motel para transar- algo que, observa, nem todos os gays podem.

O casal evangélico

Em “Eros”, um casal tradicional lembra a possibilidade de o motel atuar como um momento de respiro para um sexo tranquilo, longe, por exemplo, dos latidos dos cachorros da família ou do cuidado com os filhos (no tempo atual, diga-se, eles lembram que os mesmos já não mais crianças). O curioso é que os dois são evangélicos, e, tal como o rapaz citado, também discorrem, ante a câmera, sobre religião ao versarem sobre opção de se dirigirem a um motel. Aliás, ela leva alguns acessórios para o ato em si (como um gel para a prática do sexo oral), bem como um livro para ler nas horas vagas (já que, explica, vão permanecer por seis horas), e até mesmo coberta (para o frio) e lençol (ela prefere forrar a cama).

O trisal

Um trisal expõe, para a câmera, fetiches como o de uma das mulheres estar vestida de freira, numa espécie de confessário, no qual, maliciosamente, enumera os “pecados que teimam em invadir seus pensamentos”. Emocionante é a história do casal composto por uma mulher trans, que, diante da tela, compartilha momentos difíceis de sua vida, como quando foi expulsa de casa. Do mesmo modo, a necessidade de ter que se virar como profissional do sexo e mesmo a passagem pelo sistema prisional. Em “Eros”, ela também confessa a luta para ter uma vida comum, “como a de qualquer outra pessoa”, e poder demonstrar isso à família.

O tema política também comparece, em “Eros”, na voz dessa mulher, já que, à época, o governo era assumidamente de direita, o que inclusive fez várias pessoas assumidamente LGBTQI+ (naturalmente, as com mais privilégios) saírem do país, temerosas de uma perseguição por conta da orientação sexual.

E mais

Outros casais se somam na narrativa de “Eros”, como o sadomasô (que se instala em um quarto de características propícias para a prática), bem como o casal que se exibe para outros que, no caso, ficam por trás de um vidro (sendo que podem ficar visíveis ou abaixar uma persiana). Tem, ainda, o formado por uma garota de programa e o homem que a contrata, e que, na verdade, quer mais conversar do que se limitar ao ato. E, ao fim, há um jovem de cabelos descoloridos, Louis de Basquiat, que está no quarto sozinho, e desenvolve, diante da câmera, temas profundos, como a solidão.

Considerações

Particularmente, considero ser interessante que o espectador vá assistir a “Eros” munido de informações sobre o conteúdo do filme, pois, como apontado, as cenas de sexo são muito cruas, e podem causar certo estranhamento àqueles que não se sentem, digamos assim, muito à vontade diante de imagens deste viés. E não estamos falando de pessoas pudicas, pois, claro, essas só adentrariam à exibição do filme se estivessem de todo desavisadas, o que é difícil, a partir do título e da sinopse, e mesmo do circuito no qual certamente o longa encontrará guarita. No meu caso, foi, por vezes, incômodo.

Óbvio, cada espectador verá “Eros” de uma maneira, mas, mais uma vez usando a palavra “particularmente”, eu ficaria mais centrada nos diálogos travados pelas pessoas que se alinharam ao projeto no espaço “motel” – que são bem interessantes e revelam muito dos motivos que fazem tantos casais ainda procurarem esse tipo de estabelecimento (lembrando que, nos últimos anos, vários fecharam suas portas no Brasil) – do que nas cenas de sexo em si.

Sobre a diretora (*)

Diretora de “Eros”, Rachel Daisy Ellis é cineasta brasileira/britânica radicada em Recife desde 2004. É mestre em Política Social e Participação e frequenta atualmente a pós-graduação em Artes Visuais: Fotografia e Pós-Cinema na Universidade NOVA de Lisboa. Em 2010, co-fundou a produtora Desvia com o diretor/artista Gabriel Mascaro. O objetivo foi produzir filmes por autores com fortes visões estéticas.

Desse modo, produziu cinco longas e um curta com Mascaro, com quem mantém forte parceria criativa, tendo co-escrito três desses projetos com ele. Também coproduziu vários filmes, como “Rojo” (2018), de Benjamin Naishtat, e “Prayers for the Stolen” (2021) de Tatiana Huezo. O primeiro filme de Rachel como diretora foi o curta documentário “Mini Miss”, que estreou em 2018 no True/False. Ele foi exibido em mais de 40 festivais, incluindo Sheffield, Doc Aviv, AFI Docs e o É Tudo Verdade. Tal qual, ganhou vários prêmios, incluindo prêmio de aquisição Canal Brasil de melhor filme no É Tudo Verdade. Trata-se de um entre três curtas sobre primeira infância (os outros dois estão em produção).

“Eros” (que tem distribuição da Fistaile) é seu primeiro longa-metragem e, ano passado, foi exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes. Atualmente, Rachel também se debruça sobre outros projetos como diretora.

(*) Essa parte foi reproduzida do material de divulgação do filme

Confira, abaixo, o trailer


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Publicado por Patrícia Cassese

Publicado em 13/06/25

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