Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Em cartaz na cidade, “Salamandra” provoca e instiga

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Primeiro longa do brasileiro Alex Carvalho, “Salamandra” traz a atriz francesa Marine Foïs e o ator brasileiro Maicon Rodrigues

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Para escrever sobre o filme “Salamandra” (Pandora Filmes, 2021, 116 min), que está em cartaz em Belo Horizonte (confira, ao final da matéria, o serviço), é preciso, antes, deter-se em alguns pontos.

Maicon Rodrigues e Marina Foïs em cena do filme "A Salamandra" (Pandora Filmes/Divulgação)
Maicon Rodrigues e Marina Foïs em cena do filme "A Salamandra" (Pandora Filmes/Divulgação)

O título

A salamandra, sabemos todos, é um anfíbio – por vezes com uma carinha até simpática, no caso do axolotes. Aliás, um animal que deu o ar da graça no filme “Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades”, de Alejandro González Iñarritu. Mas não só.

Diz a Wikipédia: Salamandras são criaturas mitológicas ligadas ao Fogo. O mito surgiu como derivação da crença de que as salamandras são imunes ao fogo. Tal qual, símbolo da justiça e da paz interior. “Na psicologia analítica de Jung, é associada à transformação e à superação de obstáculos no caminho da individuação”, prossegue o texto.

Ao chegar ao fim do filme, o espectador vai, pois, relacionar a trajetória da personagem central a esses conceitos/lendas/míticas.

Baseado em livro

Certamente foi essa analogia – portanto, que não se restringe às conformidades biológicas do animal – que norteou o escritor francês Jean-Christophe Rufin, hoje com 72 anos, a escrever – e, tal qual, a titular – o livro “La Salamandre” (2006). Rufin, cumpre frisar, morou dois anos no Brasil, e, antes, já havia escrito o livro “Vermelho Brasil” (2002), sobre a expedição França Antártica que foi comandada por Villegagnon na baía de Guanabara no século XVI. Além de escritor, ele é médico e diplomata. Foi presidente da Ação Contra a Fome, bem como embaixador da França no Senegal e na Gâmbia.

Alex Carvalho, o diretor

Alex Carvalho, o diretor “Salamandra”, por sua vez, é um recifense que migrou para Londres, onde – basta consultar sua biografia no site da Mostra de Cinema de São Paulo – fez mestrado em cinema na Central Saint Martins. Não bastasse, estudou direção na National Film and Television School. Trabalhou para BBC, New York Times, HBO e Netflix.

A obra “Salamandra” caiu nas mãos dele por meio de um amigo. E, assim, Carvalho resolveu transportá-la para o cinema neste que é o primeiro longa de sua carreira. Em tempo: ele já havia dirigido os curtas-metragens “Caixa de Sapato” (2008) e “Fallout” (2013).

Marine Foïs

O filme “Salamandra” é uma produção que envolve quatro países: Brasil, França, Alemanha, Bélgica. O elenco é capitaneado por uma grande atriz francesa, Marine Foïs. Aos 54 anos, Marine já atuou em vários filmes exibidos em cinemas do Brasil, como “Polissia”, “Fratura”. “A Sindicalista” ou “Um Banho de Vida”. Aqui, ela interpreta Catherine, uma mulher que, logo após a morte do pai, de quem cuidou sozinha por dois anos, na França, chega ao Brasil para reencontrar-se com a irmã, Aude (vivida pela atriz Anna Mouglalis). Essa mora com o marido (interpretado pelo ator Bruno Garcia) em um belo condomínio no Recife.

Uma curiosidade: Anna Mouglalis esteve em Belo Horizonte em 2002, época em que ainda existia o Usina Unibanco de Cinema, na rua Aimorés. À época, ela lançava, no Brasil, “A Teia de Chocolate”, de Claude Chabrol.

Jantar às cegas

De início, percebe-se que há uma tensão entre Catherine e Aude, e que ela diz respeito ao fato de a primeira ter se incumbido dos cuidados com o pai, enquanto a outra estava no Brasil. Um ponto interessante: o início do filme mostra Aude e Catherine em um jantar às cegas. Ali, naquele momento há uma citação interessante à fruta-pão, que, como dito na cena, chegou ao Brasil para servir de alimento a escravizados. Ou seja, já ali, nos minutos iniciais de “Salamandra” se aponta como no país a questão da diferença de classe se infiltrou desde a sua fundação. Ou seja, da “descoberta” das terras além-mar pelos portugueses.

A alegoria do jantar às cegas se aplica à cultura com a qual Catherine entra em contato pela primeira vez, chegando sem falar uma palavra em português. Ou seja, ela está às cegas em um país. E um país que foi estruturado sobre um abismo cruel entre classes, por vezes veementemente negado pelas classes mais altas.

Paixão avassaladora

Aos poucos, porém, Catherine vai se desvencilhando da irmã e do cunhado. Parece preferir se aventurar pela cidade sozinha. Até que certo dia, na praia, é abordada despretensiosamente por Gil (Maicon Rodrigues), que de início lhe pede um pouco do protetor solar, e, na sequência, pede que ela própria passe o produto nas costas. Coincidentemente, pouco depois, numa das incursões solo pelas noites do Recife, ela o reencontra em um bar, onde o rapaz atua como bartender. Logo, os dois começam a se relacionar e, em pouco tempo, Catherine se entrega com voracidade à paixão.

Em um momento no qual a irmã viaja, Catherine passa inclusive a levá-lo para o apartamento dela. Ali, há cena emblemática de racismo. Catherine leva Gil para a área de lazer do prédio, mas, em um momento em que ele está nadando na piscina, sem ela, é advertido por uma babá de que essa é exclusiva dos moradores. Portanto, explicitando que ele não pode ficar ali. Detalhe: ela está uniformizada (como tantas funcionárias de famílias de classe média para cima, para explicitar que se tratam de empregados). E mesmo vigiando crianças que estão dentro da água, ela precisa permanecer à beira da piscina. Há, ali, pois, uma cerca imaginária, exemplificando, mais uma vez, as “regras” da exclusão social no Brasil ainda vigente.

Vista grossa

Mas é quando a empregada da irmã flagra o visitante – Gil – na cama do apartamento com a “estrangeira”, e conta para a patroa, que a tensão se instala. Assim, não há outra saída se não Catherine deixar o apartamento à beira-mar, mesmo sendo uma estrangeira sem ter para onde ir. Não por um ultimato direto da irmã, mas a francesa está determinadíssima a seguir a pulsão do seu coração e do corpo.

Detalhe: Gil só arranha algumas palavras em francês, assim como Catherine, como já assinalado neste texto, não fala o português. A comunicação dos dois se dá pela confiança depositada pela francesa em seu jovem amante e, principalmente, por meio do sexo, que é selvagem e voraz. Preocupada quanto ao terreno no qual a irmã está pisando, Aude, assim como o marido dela, tentam alertá-la para ir com cuidado. Mas Catherine dá de ombros.

Paixão

Válido lembrar que, além de bartender, e de, a partir de uma cena de “Salamandra”, deduzirmos que ele também se incumbe de cuidados como um idoso, Gil ainda atua no comércio de peças sacras. Mas, nesse caso, um comércio aparentemente ilegal de obras. Não há, no filme, grandes explicações sobre isso, mas há pistas de que se trata de um negócio escuso, no qual ele serve a Pachá (o ótimo Allan Souza Lima, de “Cangaço Novo”). Catherine, porém, segue fazendo vistas grossas aos sinais de que está se metendo em terreno arenoso. E, logo, passa a usar o dinheiro da herança do pai para agradar ao namorado, como na cena em que dá a ele uma moto (que fique claro, ele não pediu o veículo).

Mais tarde, ele quer que Catherine entre como sócia em um espaço para festas. Ao ver o lugar, a francesa não parece muito entusiasmada. Neste momento, o espectador já pressente que algo pode sair errado. E esse viés é muito bem trabalhado pelo diretor, pois catalisa a atenção de quem está frente à tela. É como se fosse imperativo descobrir o que vai acontecer à solitária Catherine em sua aventura do outro lado do Atlântica. Ela está se enveredando por uma armadilha? Está errada em confiar em Gil? Neste caso, a irmã e o cunhado estão certos? Ou, ao contrário, Gil está de fato apaixonado por ela? Neste caso, corresponde à paixão dela com a mesma intensidade?

Hipersexualização

Se não houvessem outras camadas, “Salamandra” funcionaria bem, trazendo, como um dos trunfos, a performance de Marine. A atriz se entrega ao filme tal qual a personagem que defende na tela se lança, sem redes, à paixão brasileira. Mas é aí que entram em cena alguns eventuais problemas – principalmente no caso da exibição do filme para brasileiros.

Ocorre que o personagem Gil é negro, e, assim, mesmo sendo fiel ao livro, isso traz uma questão. Mesmo na esfera da ficção, Gil personifica uma temática que há tempos vem suscitando amplo debate: a hipersexualização dos corpos negros. NR. Eu, autora dessas linhas, não tenho lugar de fala para discorrer especificamente sobre o tema.

Questões

Há, ainda, uma outra questão em “Salamandra”, que é a dos personagens brasileiros que marcam maior presença na trama estarem ligados a atividades escusas. Como fica, pois, a leitura desta colocação para públicos de outros países que forem assistir ao filme? No entanto, é preciso mais uma vez reiterar que trata-se da adaptação de uma obra (o livro foi lançado há mais de 15 anos).

Um momento marcante de “Salamandra” é o que Catherine sai, atônita e desesperada, à procura de Gil e acaba adentrando uma festividade. Há uma cena que parece ser uma metáfora de um transe, uma catarse. Mas, no Brasil, pode (reiteramos: pode) provocar certo incômodo pelo poder de soar crível aos olhos de quem não conhece o país. Ou seja, a olhares estrangeiros, em vez de ser lida como a metáfora que é, pode ser entendida como um acontecimento crível por aqui.

O fogo da paixão

Uma outra questão que pode incomodar o público feminino em “Salamandra” é a maneira como Catherine se entrega ao desejo sem qualquer tipo de receio, ou mesmo desconfiança. Isso, mesmo estando em um país estrangeiro no qual não domina a língua. Tal qual, em um país que, lá fora, não goza, digamos assim, de fama muito boa no que tange à violência. Não bastasse, mesmo sob o aviso de quem lhe é mais próxima, a irmã.

Por outro lado, é fato: o ser humano, por vezes, é assim mesmo, capaz de ficar completamente cego por amor e dar de ombros aos avisos dos que, de longe, veem a situação com mais parcialidade. E, neste caso, nem precisa ser uma relação entre uma estrangeira e um nativo do país onde ela está. Tampouco, uma relação interracial. Tanto que o noticiário de muitos casos de feminicídio mostra mulheres que retomaram a relação mesmo já tendo sofrido agressões físicas, inclusive notificadas.

No caso de “Salamandra”, uma justificativa óbvia para tal entrega (a alegoria do banquete às cegas) centra-se no fato de Catherine estar psicologicamente abalada com a perda recente de uma figura do naipe de um pai. Genitor ao qual, na doença dele, se dedicou de corpo e alma, ao contrário da irmã. Portanto, a paixão entraria como um escape para tanta tristeza e vazio. Mas sim, não deixa de ser outro terreno delicado no qual o autor do livro (que é o calço do filme) incorre.

“Diálogos multiculturais”

No material enviado pela distribuidora do filme “Salamandra” aos jornalistas, há uma fala interessante do diretor. “Tive alguns conflitos com o livro, principalmente pelo ponto de vista estar centrado nos olhos da protagonista europeia”, diz Alex Carvalho. No entanto, ele ressalta que enxergou muita força no choque entre as experiências dos personagens. “Como vivi metade da minha vida fora do Brasil, com passagens pela África e Europa, sempre tive um grande interesse em diálogos multiculturais”.

Assim, prossegue Alex, em “Salamandra”, tentou fazer uma abordagem pessoal e tridimensional, “considerando o público brasileiro e minhas próprias questões em relação à temática”. “Minha intenção era tocar mais a classe que explora do que a que normalmente é explorada. Nas diversas conversas que tive com a montadora do filme, Joana Collier, costumávamos chamar essa abordagem de ‘cortar a própria pele’”, disse Carvalho.

No frigir dos ovos, é interessante para o espectador conferir a experiência e tirar suas próprias conclusões. Como dito, o tom de tensão dado pelo romance entre Catherine e Gil certamente vai manter o foco do espectador na tela até o fim – inclusive para entender a analogia com a lenda da salamandra. Ah, sim. O longa estreou no Festival de Veneza e na 45ª Mostra Internacional de São Paulo, em 2021. Foi rodado inteiramente em Olinda e no Recife, onde Rufin atuou como adido cultural do Consulado Francês no final dos anos 80. “Salamandra” é uma coprodução do Canal Brasil e Telecine, e tem distribuição da Pandora Filmes.

Serviço

Centro Cultural Unimed-BH Minas – Sala 2 | 20h10  somente em 2/7

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