Literatura

Valter Hugo Mãe retorna com o luminoso “Educação da tristeza”

Lançamento da Biblioteca Azul, novo livro do português parte do luto, mas se abre para a vida

Valter Hugo Mãe (Foto ana Esteves Brandão)

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Educação da tristeza”, novo livro de Valter Hugo Mãe, é dedicado a duas pessoas. Seu sobrinho e sua melhor amiga de longa data. Eduardo Lemos e Isabel Lhano. Duas perdas marcantes, e recentes, na vida do escritor português. Assim, numa espécie de elaboração de um luto compartilhado entre essas duas ausências-presentes, Valter Hugo Mãe tece uma série de textos breves, de escrita inspirada e marcadamente poética, como crônicas sobre um realidade que se reconfigura à luz – e às sombras – das perdas e dos (re)encontros. O livro é um lançamento da Biblioteca Azul.

Entre uma casa em reformas e longas viagens, Valter rememora cenas, reconstrói acontecimentos vividos, costura fatos à pequenas narrativas imaginadas, imagens de sonho, imagens de fabulação. Por exemplo, numa mesa posta, um banquete é servido. “Sobre a porcelana limpa pousou um livro. Da colher desceu um livro. Eu sorri. Escrevera aquele livro lenta e delicadamente. Sanaria nossa fome. Estaríamos sempre bem.”

Casa em obras

Se partilha conosco a reforma do lar que habita, uma reforma mais profunda acontece dentro de si. O escritor como uma casa. Um lar habitado por aqueles que aqui estão e por aqueles que não mais. Quartos e mais quartos preenchidos por leituras, por livros escritos, por ideias abandonadas e por histórias porvir. 

“Ter a casa em obras é como estar de cirurgia à felicidade. Sabemos bem como vai ser bom mais tarde, mas adiamos tudo o que pudermos, a vida inteira parece imprestável enquanto não virmos as coisas limpas, postas em silêncio, e voltarmos a colocar a mobília com nossos cacos afectivos no lugar.”

O luto e o reencontro com a alegria

“Educação da tristeza” parte do luto, mas não se encerra nele. Nesse sentido, se olha para a dor e para a saudade – saudade, essa palavra tão nossa, onde parece caber tudo – a prosa poética do escritor português se abre para um reencontro com a alegria e com a esperança. “Por causa da poesia, do que ainda há de arte, de uns poucos amigos e da possibilidade de chegarem mais primaveras e verões, estarei invariavelmente do lado da esperança, mas convicto de que espero asozinhado.”

Educação da tristeza

Por fim, o título, “Educação da tristeza”, diz tanto de uma tristeza que educa aqueles que a sentem, quanto do gesto de educá-la. Educar a tristeza, entendê-la como parte daquilo o que somos, daquilo o que seremos a partir de então. A partir de uma perda, de uma despedida. Em suma, Valter Hugo Mãe mira um olhar luminoso, honesto e delicado para as ausências que o constituem, construindo um diálogo com aqueles que se foram e com aqueles que o lêem. A perda não é uma subtração, mas uma soma. 

“O tamanho da vida está todo dentro do amor. Se amarmos, somos extensos, infinitos. Se não amarmos, recolhemos como bocadinhos de poeira sem sentido, sem valor.”

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Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por tgpgabriel

Publicado em 15/09/25

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