Dreams, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2025, é um filme que sussurra. Ele não grita, não explica, não dramatiza em excesso. Ao contrário, propõe uma escuta sensível. Como quem lê um diário íntimo sem virar página com pressa. Trata-se de uma narrativa sobre a primeira paixão, sim, mas também sobre escrita, memória, e principalmente, sobre a conversa entre mulheres de diferentes gerações.
Johanne, a protagonista vivida por Ella Øverbye, tem 17 anos quando se apaixona pela professora de francês, Johanna (interpretada por Selome Emnetu). É um acontecimento inaugural, no sentido mais literal. Ou seja, marca o início de algo que transforma a percepção que ela tem de si mesma.
Em resposta a esse sentimento, Johanne passa a escrever. Mas o filme não recorre a imagens comuns, como a personagem diante de um caderno. O gesto de escrever é representado pela narração em off, que acompanha as ações sem descrevê-las. A imagem e a palavra não competem entre si. Elas habitam planos diferentes. Essa convivência revela uma escolha estética rigorosa: confiar no silêncio e na sugestão como parte do discurso.
Uma linhagem de mulheres que escutam
A palavra de Johanne, ao circular pela casa, provoca reações inesperadas. A mãe (interpretada por Ane Dahl Torp) e a avó (Anne Marit Jacobsen), poeta publicada, entram em contato com a escrita da adolescente. A princípio, a mãe desconfia da situação. Questiona se há ali um caso de assédio. Mas, ao seguir lendo, é afetada pela forma com que a filha elabora os sentimentos.
O afeto aqui não se dá apenas no conteúdo, mas no estilo. É isso que permite que as mulheres da família se reconheçam no texto. Esse reconhecimento, silencioso e indireto, é o que transforma o filme em uma narrativa construída na escuta.
Outro símbolo recorrente e instigante em Dreams é a escada. A personagem principal sobe e desce escadas em momentos de descoberta. Mãe e avó também transitam por esse elemento arquitetônico. Talvez a escada seja a metáfora da travessia entre níveis de consciência. Da infância à maturidade, da repressão à liberdade, da dúvida à auto escuta. O filme não nos dá a chave desse enigma, mas ele está lá, presente, e nos provoca. Como os sonhos.
Cinema como escuta e contenção
Dirigido por Dag Johan Haugerud, Dreams (Drømmer) é o segundo título da trilogia Sex, Drømmer og Kjærlighet (Sexo, Sonhos e Amor), que investiga diferentes modos de viver o desejo, a identidade e a liberdade. Embora façam parte de um conjunto, os filmes são independentes.
No caso de Dreams (Drømmer), a escolha por uma estrutura contida, sem explosões dramáticas ou diálogos expositivos, reforça a proposta de pensar o cinema como escuta. Isso não significa ausência de conflito. Ao contrário: há tensão. Mas ela é tratada com precisão. A contenção aqui não é ausência, mas linguagem. É uma estratégia para respeitar os tempos da subjetividade.
Para quem já escreveu – ou sonhou – em silêncio
Ao colocar a escrita como centro da experiência afetiva de Johanne, o filme fala diretamente a quem já tentou organizar o que sentia por meio da linguagem. O gesto de escrever se transforma, aqui, em ato de escuta de si mesma e das outras. É por isso que o diário da filha também atravessa mãe e avó: porque traduz aquilo que, muitas vezes, não foi dito.
Em resumo, Dreams é uma ode aos afetos que nos formam. Àqueles sentimentos que, muitas vezes, cabem mais na imaginação do que na realidade. Ao escrever a protagonista descobre não só a potência do desejo, mas também o poder da palavra. E, ao nos permitir escutá-la, o filme nos oferece o raro prazer de lembrar que, um dia, também nos encantamos por alguém e, mesmo sem saber, começamos a narrar nossa própria história.
EM TEMPO
Veja aqui onde o filme está em cartaz.
Entre os dias 10 e 16 de julho, Dreams está em cartaz em Belo Horizonte no Una Cine Belas Artes, ?18h30 e também no Cinema do Minas Tênis Clube, dias 11, 13 e 15 de julho, às 15h50.
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Publicado por Carol Braga
Publicado em 10/07/25
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