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Itamar Vieira Junior segue em busca das vozes silenciadas do Brasil em novo livro

O novo livro do autor de Torto Arado reúne contos sobre grupos e indivíduos historicamente silenciados
Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado. Foto: Arquivo Pessoal
Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado. Foto: Arquivo Pessoal

Em “Doramar ou a odisseia: Histórias”, Itamar Vieira Junior segue com o projeto de se aprofundar nas raízes do Brasil, raízes das desigualdades que fundam a história e configuram as lutas do ontem, do hoje e do amanhã. O texto do autor permanece em busca das vozes de grupos e indivíduos historicamente silenciados. Aqui elas são altas, impõem presença e os ecos prosseguem conosco.

Essas vozes são negras, são indígenas, são escravizadas, são refugiadas, são trabalhadoras domésticas, são quilombolas e são ribeirinhas. Vozes que se contrapõem à do carrasco, obediente, que cumpre ordens sem questioná-las. Ou mesmo à do homem que fala em nome de um suposto progresso, surpreendido por um (re)encontro inesperado.

Estilo

Há narrativas em que o discurso é mais lírico, enquanto em outras é mais direto e contundente. Em uma, o autor dá nome aos mortos que pereceram nas mãos dos carrascos da história. Conta sobre os muitos que ousaram se levantar contra o status quo e fizeram de suas trajetórias uma possibilidade de libertar corpos e mentes. Noutra é a cosmogonia e a língua da etnia indígena jarawara que ganha corpo e voz. Itamar explora a relação de simbiose e pertencimento à natureza e ao seu ciclo de vida.

A ideia do ciclo é um caráter importante nos contos: os ciclos da História, suas repetições, seus espelhamentos. Se no passado as rotas marítimas entre África e América transportavam navios abarrotados de homens e mulheres de lá para serem escravizados aqui, hoje transportam embarcações que carregam refugiados, em um itinerário semelhante. O autor aborda o horror da viagem, da incerteza e das condições insalubres enfrentadas pela esperança de encontrar uma terra firme para plantar novas raízes.

As mulheres

Há um protagonismo feminino na obra de Itamar Vieira Junior. No romance “Torto arado” nos encantamos com a força e a presença das irmãs Bibiana e Belonísia e do círculo de mulheres ao redor delas. Em “Doramar ou a odisseia: Histórias” conhecemos Alma, Rosa, Yanici, Tiana, Divina, Foi – fé, em francês -, Doramar. É o feminino ancestral, histórias e cicatrizes que atravessam gerações de mães, de avós e de filhas. São as mulheres que carregam nas costas o peso do mundo.

Neste múltiplo conjunto de contos, Itamar caminha por uma longa linha do tempo. Vai do passado escravocrata ao presente de desapropriações de terra em nome de um suposto progresso. E ainda vai além. Avança em um futuro incerto, não bem demarcado no espaço-tempo, onde flerta com a ficção especulativa para mostrar o crescimento de barreiras e fronteiras entre pessoas.

É simbólico o último conto de “Doramar ou a odisseia: Histórias” terminar sem ponto final. São muitos os espelhos entre as narrativas de Itamar Vieira Junior e a realidade brasileira: seus personagens extrapolam as páginas, num profundo exercício de alteridade alcançado pela literatura do autor na escrita de diferentes vivências e vozes de resistência. No mundo real e em seus textos, a vida acontece e os combates se tornam mais urgentes frente aos carrascos. Por isso não há, ainda, a possibilidade de um término, de uma conclusão – as histórias e as lutas seguem em aberto.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

Capa de Doramar ou a Odisseia. Foto: Editora Todavia/Divulgação
Capa de Doramar ou a Odisseia, livro de Itamar Vieira Junior. Foto: Todavia Livros/Divulgação

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