Música

Dominguinho: quando a chuva vira cena, som e permanência

Show de João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho na Pampulha atravessa um temporal histórico, reorganiza o repertório em tempo real e se transforma em uma experiência coletiva marcada pela permanência do público e pela sintonia entre os artistas.

Dominguinho | Foto: Carol Braga

Algumas noites não se repetem. Não porque foram impecáveis, mas porque concentraram um acontecimento que só existe para quem esteve ali. O show Dominguinho, no Parque Ecológico Pampulha, neste sábado, 07/02/26, foi uma dessas noites. Para o público que permaneceu sob a chuva e para os artistas que decidiram não interromper a música. O que se construiu ali foi menos um espetáculo convencional e mais uma experiência compartilhada. Mas bastante atravessada pela água, pelo tempo e pela escolha de ficar.

Dominguinho é um projeto que reúne João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho em torno de um mesmo gesto artístico. Os três têm carreiras solo consolidadas, em estágios distintos de projeção, mas o encontro cria outra escala de presença. João Gomes, hoje uma unanimidade nacional, se desloca do lugar de artista individual para integrar uma engrenagem coletiva que reorganiza forças, repertórios e modos de estar em cena. Juntos, os três produzem algo que não se resume à soma das trajetórias.

A chuva como parte da cena

O show em Belo Horizonte ganhou um elemento que atravessou toda a experiência. A chuva. Um dilúvio. Água em volume persistente e pouco comum. Ainda assim, o trio não interrompeu a apresentação em nenhum momento. Microfones falharam, fones deixaram de funcionar, figurino foi trocado, a banda precisou recuar no palco. A música seguiu.

Mas, vale lembrar, que água não foi apenas um imprevisto. Ela dialoga diretamente com a origem do projeto. O disco Dominguinho foi gravado em Olinda e o registro audiovisual interrompe a execução justamente quando começa a chover. Em BH, a cena se repetiu de forma radical. A chuva não suspendeu o espetáculo. Ela passou a fazer parte dele. A água virou matéria simbólica, teste de resistência e afirmação de presença.

O repertório e o improviso para segurar a plateia

O show teve cerca de duas horas de duração, com o temporal atravessando boa parte do tempo. O repertório percorreu o disco Dominguinho na íntegra e abriu espaço para canções das trajetórias individuais de cada artista. Quando Jota.Pê ficou sozinho no palco para cantar Ouro Marrom, um dos principais sucessos da carreira solo, a chuva se intensificou. A banda se afastou, os equipamentos começaram a falhar e o espetáculo precisou ser reorganizado em tempo real.

Foi depois desse ponto que o repertório passou a responder diretamente ao que se vivia ali. Surgiram canções atravessadas pela ideia de água e permanência. Entre elas, por exemplo, Oh! Chuva, clássico do Falamansa que parece ter sido feito para aquele momento. “Oh Chuva/ Peço que caia devagar”. 

Também teve Ai, ai, ai, de Vanessa da Mata, cantada quase como comentário imediato da cena. À medida que o temporal avançava e os problemas técnicos se acumulavam, o improviso passou a cumprir também uma função prática: segurar a plateia.

No meio dessa reorganização, entrou um bloco de canções mineiras. A sanfona de Mestrinho iniciou Paisagem da Janela, de Lô Borges, criando um clima de suspensão. Vieram em seguida Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, composição de Lô Borges gravada por Milton Nascimento, e Resposta, do repertório do Skank. As escolhas funcionaram como gesto de diálogo com a cidade e ajudaram a sustentar o vínculo entre palco e público.

A resposta foi imediata. Sendo assim, mesmo sob capas de chuva e barro – muito barro -, ninguém parecia disposto a ir embora. O público dançava, cantava e ocupava o espaço como quem aceita o pacto proposto naquele instante. Ficar também era uma escolha.

Amizade em cena

Em determinado momento do show, Djonga apareceu no palco e cantou rapidamente, sem anúncio ou formalidade. Ou seja, não foi uma participação construída como atração especial, mas um atravessamento breve, coerente com o clima de amizade que estrutura o projeto Dominguinho e se estende para além do trio. A cena reforçou a ideia de encontro e de circulação afetiva que marcou toda a noite.

A sintonia entre João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho é visível. Ou seja, há brincadeiras, comentários internos e gestos de intimidade que revelam uma relação construída fora do palco e transportada para a cena. Em alguns momentos, essa proximidade toca um limite delicado para quem observa de fora, mas ela também sustenta a fluidez do espetáculo. A confiança entre eles permite improviso, escuta e adaptação constante.

A sanfona de Mestrinho ocupa um papel central. Ela atravessa o repertório como eixo narrativo, costurando canções, alterando climas e reorganizando o andamento do show. Não atua como ornamento, mas como força condutora, capaz de transformar o ambiente sonoro e ampliar a densidade da experiência.

Estrutura, cidade e limites possíveis

A estrutura foi alvo de críticas nas redes sociais. No entanto, diante da intensidade da chuva, qualquer análise precisa considerar o limite real das condições técnicas. Um volume de água daquela ordem compromete equipamentos, segurança e logística em qualquer show e cidade.

A situação também abre uma discussão mais ampla sobre os espaços disponíveis em Belo Horizonte para shows de grande porte. No mesmo dia, a cidade recebia o Dominguinho na Pampulha, o Ensaio da Anitta no Mineirão e ainda vivia o calendário de carnaval. A pergunta que fica não se restringe a falhas pontuais, mas à capacidade urbana de acolher eventos dessa dimensão sob condições adversas.

O que fica

Dominguinho, naquela noite, se afirmou menos como espetáculo ideal e mais como acontecimento. Um show atravessado pela chuva, sustentado pela insistência dos artistas e pela permanência do público. Para quem esteve ali, para eles e para nós, foi uma noite que dificilmente se apaga.

Inscreva-se no nosso canal no WhatsApp

Publicado por Carol Braga

Publicado em 08/02/26

Compartilhar nos Stories

Apoiadores: Lei Rouanet, Instituto AngloGold Ashanti, UNIBH, AngloGold Ashanti, Ministério da Cultura