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Djonga no C.A.S.A.: 7 reflexões sobre ser artista

Na Aula Magna do projeto C.A.S.A. – Arte, Comunicação e Comunidade, rapper mineiro falou sobre criação, carreira, sucesso, internet, política e sua relação com Belo Horizonte

Djonga no C.A.S.A. Foto: Carol Braga/Culturadoria

O rapper Djonga conversou com jovens sobre criação, carreira, comunicação e território na noite de quarta-feira, 17 de setembro, no Vale do Sol, em Nova Lima. O encontro marcou a segunda Aula Magna do C.A.S.A. – Arte, Comunicação e Comunidade, projeto patrocinado pela CAIXA. O músico e produtor Lenis Rino mediou a conversa.

Durante a conversa, Djonga partiu da própria trajetória para refletir sobre os caminhos de quem escolhe trabalhar com arte. Falou da importância das referências e da criação coletiva, questionou o mito da inspiração, discutiu as condições que interferem no sucesso de uma carreira e abordou sua relação com Belo Horizonte, as redes sociais, a política e o papel da cultura na transformação cotidiana.

A presença do rapper dialogou especialmente com os 12 jovens do Laboratório em Rede, uma das quatro frentes de formação do C.A.S.A. O grupo trabalha com comunicação, edição de vídeo, produção de conteúdo, redes sociais e captação de imagens.

Mais do que apresentar respostas prontas ou uma fórmula para construir uma carreira, Djonga compartilhou dúvidas, aprendizados e contradições acumulados ao longo de sua trajetória. Selecionamos sete reflexões que atravessaram a conversa.

1. Talvez inspiração seja, na verdade, muito trabalho

Djonga desfez uma das imagens mais romantizadas da criação artística: a de que uma grande obra surge quando uma ideia extraordinária simplesmente aparece.

“Tem hora que eu acho que talvez nem exista esse trem de inspiração. Tem hora que eu acho que é só trabalho, absolutamente.”

Para ele, existe uma diferença entre a experiência coletiva da música e a solidão da escrita. O estúdio permite conversar, discordar, experimentar e dividir o processo com outras pessoas. Escrever sozinho exige outro tipo de concentração.

“As pessoas têm uma visão de que o artista tem uma inspiração que vem. O cara acordou, veio a melhor ideia na cabeça dele e ele escreveu o melhor disco do mundo. Na verdade, é muito trabalho.”

Essa percepção também marcou um momento decisivo de sua trajetória. Quando entendeu que queria tentar viver da música, Djonga passou a tratá-la como trabalho cotidiano.

“Eu tenho que escrever todo dia, tenho que gravar sempre que der, tenho que estar presente nos lugares.”

2. Ninguém cria sozinho

Se escrever pode ser solitário, a matéria-prima da criação de Djonga vem justamente das relações. Ao recuperar suas primeiras referências musicais, ele falou da mãe ouvindo música enquanto fazia faxina, do pai colocando Zeca Pagodinho na televisão, da avó, dos bailes funk, dos amigos e dos duelos de MCs.

“Nunca é uma coisa solitária pra mim.”

Até as histórias narradas nas músicas não pertencem necessariamente a ele.

“Muitas das histórias são roubadas dos outros.”

A poesia apareceu antes da decisão de ser cantor. Djonga contou que passou por uma fase em que ouvia muito Cazuza e percebeu que, entre melodia, harmonia e ritmo, eram as palavras que mais o mobilizavam. Começou então a escrever como forma de colocar sentimentos para fora.

“Eu não sabia exatamente que eu queria cantar. Eu só queria tirar aquele sentimento.”

Como o rap, os duelos e os saraus já faziam parte de seu cotidiano, aquela escrita começou a encontrar naturalmente uma forma musical. “O rap foi me chamando”, resumiu.

Em 2013, quando entrou no curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Djonga ainda cogitava seguir a carreira de professor. Nos estágios, levava para as aulas temas como história do hip-hop e história da África. Paralelamente, não conseguia mais parar de escrever e passou a estudar como construir músicas, flows e refrões.

“Saber em que momento exatamente eu virei um músico, um artista, e falei ‘isso é minha vida’, eu não sei. Foi um processo.”

3. Antes de encontrar uma linguagem própria, é preciso experimentar

Djonga também falou sobre músicas antigas que hoje escuta com certo estranhamento. Em vez de apagar essa produção de sua trajetória, prefere entendê-la como parte do aprendizado.

“Sou grato a essas músicas também, porque é um estudo. Faz parte da escada do estudo.”

Naquele período, ainda não possuía um método definido. Escrevia, observava artistas que admirava e experimentava caminhos parecidos. Para Djonga, imitar referências faz parte do desenvolvimento de uma linguagem própria.

“O bom artista, a boa artista também tá imitando alguém.”

A comparação veio da infância. Assim como uma criança aprende a falar reproduzindo os sons que escuta dos adultos, o artista começa assimilando referências até desenvolver seu próprio jeito.

A questão muda quando o sucesso chega. Depois de descobrir caminhos que funcionam, surge outro risco: repetir a própria fórmula.

“Você começa a correr o risco de se copiar. É um perigo.”

Djonga também questionou a obrigação de fazer cada obra superar a anterior. Para ele, a tentativa de demonstrar evolução pode levar o artista a buscar soluções mais elaboradas apenas para provar que agora sabe fazer algo que antes não sabia.

“O próximo tem que ser muito melhor. Como assim?”

4. Trabalho importa. Mas não garante que vai dar certo

A defesa da disciplina não levou Djonga a repetir a ideia de que basta trabalhar muito para alcançar o sucesso. Ao falar da própria carreira, ele reconheceu o peso das condições materiais, das oportunidades, do investimento e do acaso.

“Não é simplesmente só trabalhar que vai dar certo.”

Ele lembrou que existem artistas tão talentosos quanto ele, ou até melhores, que talvez nunca sejam conhecidos porque não tiveram condições de sustentar uma carreira.

“Tem várias pessoas que são muito da hora, pode até ser melhor que eu, e que a gente não vai nem saber.”

Djonga também questionou uma noção de sucesso medida exclusivamente por fama e dinheiro.

“A gente também tem que perder um pouco dessa coisa de achar que só deu certo se eu fiquei trilionário.”

Ao olhar para a própria trajetória, ele enumera talento, determinação, investimento, família, amigos, fé e sorte.

“Eu sinto que eu tava no lugar certo, na hora certa, umas cinco, seis vezes seguidas.”

Mas oportunidade também exige preparação. Para explicar, recorreu ao futebol.

“Toda hora que me colocar na cara do gol, eu tenho que fazer o gol.”

Segundo ele, conseguiu aproveitar algumas dessas oportunidades decisivas. “Eu acho que consegui fazer esse gol umas cinco, seis vezes e é por isso que a parada chegou nesse lugar.”

Ao mesmo tempo, Djonga reconheceu o papel da rede que encontrou ao redor de si. Citou a fé nos orixás e nos guias, os amigos e uma família unida como elementos importantes de sua trajetória.

5. “Eu sou de BH demais”

A relação com Belo Horizonte ocupou um lugar especial na conversa. Djonga disse que poderia passar temporadas em outras cidades, mas não se imagina deixando definitivamente a capital mineira.

“Eu sou de BH demais.”

Família, amigos, Atlético e até a possibilidade de circular sem GPS apareceram como partes dessa relação de pertencimento. Mas BH não é apenas o lugar onde Djonga vive. É também parte de sua formação artística.

“Aqui é um lugar que contribui muito pra minha arte.”

Ele recuperou a movimentação cultural que viveu especialmente na primeira metade da década passada, quando Duelo de MCs, Praia da Estação, saraus e outras iniciativas movimentavam simultaneamente a cidade.

“Eu não vejo em lugar nenhum um lugar que as pessoas têm esse comprometimento com a arte, uma cena de todo mundo se conhecer, de trocar ideia, de estar nos mesmos lugares.”

Ao mesmo tempo, Djonga considera que essa produção ainda não recebe projeção proporcional à sua potência.

“Acho que aqui merece um pouco mais de visibilidade.”

6. A internet fragmenta. A arte não precisa explicar tudo

Uma das discussões mais atuais da Aula Magna surgiu quando Djonga falou sobre a circulação das músicas nas redes sociais. Ele se incomoda quando um único verso é retirado de uma obra e interpretado como relato literal de sua vida.

O fenômeno ganhou outra dimensão com plataformas como o TikTok, onde muitas vezes um fragmento viraliza sem que o público conheça a música completa. Nos shows, observa, há casos em que as pessoas cantam os poucos segundos que circularam nas redes, mas não conhecem o restante da obra.

Ainda assim, Djonga rejeita a ideia de produzir pensando em eliminar ambiguidades.

“A graça da arte não é isso? Não é inventar?”

“Eu quero que as pessoas tenham várias interpretações da música e isso é legal.”

Para ele, uma obra não precisa funcionar como explicação sobre aquilo que o próprio artista pensa ou vive. Um personagem não é necessariamente seu autor e uma letra não precisa oferecer uma interpretação única.

“Eu não gosto de explicar arte, de explicar música.”

O problema, segundo ele, aparece quando a possibilidade de interpretação se transforma em descontextualização deliberada. Ainda assim, Djonga reconhece que controlar completamente a leitura pública de uma obra é impossível.

Essa discussão se ampliou para as próprias redes. O rapper criticou a pressão para que todas as pessoas públicas tenham opinião sobre todos os assuntos.

“Todo mundo também não é obrigado a falar e todo mundo não entende das coisas pra falar. Se não entender, tem hora que inclusive é melhor não falar.”

Djonga também incluiu a própria geração na responsabilidade pelo ambiente digital construído nas últimas décadas. Assim, criticou a competição em torno da felicidade e do sucesso exibidos nas redes e a exposição permanente à comparação.

“Nós que fizemos aquele lugar virar o que virou.”

7. As grandes transformações também acontecem nas pequenas coisas

Ao falar sobre política, Djonga defendeu uma compreensão que ultrapassa os períodos eleitorais. Para ele, a dimensão política do rap também está na geração de renda, na circulação econômica nas periferias, nos projetos sociais, na autoestima e na possibilidade de jovens negros se enxergarem ocupando outros lugares.

“Faço política todo dia. Meus discos são políticos pra caralho.”

Para Djonga, essa atuação não significa assumir o papel de “cabo eleitoral” nem impor posições ao público. Durante a conversa, ele defendeu o diálogo, a possibilidade de discordância e o questionamento de quem ocupa o poder. Assim, segundo ele, a transformação promovida pela cultura, argumentou, também aparece em dimensões menos evidentes.

Djonga citou como exemplo algo aparentemente simples: hoje vê jovens negros das periferias usando tranças, black power e dread com orgulho, algo que, segundo ele, era menos comum durante sua juventude. “A parada acontece num lugar às vezes muito mais sensível e muito menos diretão igual a gente acha.”

Para o rapper, existe uma expectativa de que transformação social precise sempre aparecer como uma grande ruptura. Mas parte das mudanças produzidas pela cultura ocorre no cotidiano.

“A gente acha que vai falar isso e amanhã alguém vai lá fazer a revolução […] e as coisas vão acontecendo num tanto de coisa que são muito menorzinhas, mas que fazem uma diferença pra caralho.”

Essa percepção também leva Djonga a rejeitar a obrigação de que artistas negros e periféricos falem permanentemente de sofrimento. Fantasia, prazer, dança e representação também podem produzir transformação.

Importância da troca

Assim, ao final, a conversa voltou a um princípio que atravessou toda a Aula Magna: a troca. Mesmo diante de convicções que considera inegociáveis, Djonga defendeu a disposição para escutar.

“Quando a gente fala também, é bom ouvir um pouquinho a outra pessoa. Às vezes ela pode vir com um ponto que você fala: ‘Caralho, nunca pensei nisso. É verdade.’”

A fala ajuda a fechar um percurso iniciado quando Djonga recuperou as pessoas que formaram seu repertório. Pais, avó, amigos, artistas, bailes, duelos e a própria cidade aparecem como partes de uma formação construída coletivamente. Agora, aos 32 anos e prestes a chegar ao nono disco, ele também começa a ouvir de uma nova geração: “Eu te ouvi desde criança”.

Em resumo: quem cresceu absorvendo referências começa a perceber que também se tornou referência para quem veio depois.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 18/09/26

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