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‘Dez dias num hospício’ é de 1887 mas ainda assombra e segue atual

A autora Nellie Bly. Foto: Fósforo Editora

Escrito por Nellie Bly, ‘Dez dias num hospício’ é um lançamento da Fósforo Editora

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Nellie Bly tinha apenas 23 anos quando publicou “Dez dias num hospício”. O livro é resultado da experiência dela ao se infiltrar em um famoso hospital psiquiátrico norte-americano, como paciente, em 1887. É uma obra que denuncia tanto as condições desumanas de tratamento no sistema manicomial, quanto o machismo e a misoginia dentro de diferentes esferas da sociedade da época. Ou seja, aborda desde redações jornalísticas ao sistema de saúde. Com tradução de Ana Guadalupe e prefácio da jornalista Patrícia Campos Mello, o livro é um lançamento da Fósforo Editora.

Elizabeth Cochran Seaman era uma mente inquieta. Nelly Bly era um pseudônimo, comum às mulheres que atuavam no jornalismo na época. Após uma breve experiência em um jornal local de Pittsburgh, a jovem alçou novos vôos partindo para o México. Atuou como correspondente internacional, publicando reportagens críticas à ditadura de Porfírio Diaz. No país natal, duvidaram de que ela era a autora dos próprios textos. Disseram que eles eram, na verdade, escritos pelo irmão da autora. 

Ao voltar para os Estados Unidos, Nelly foi para a capital do jornalismo americano: Nova York. Lá, encontrou uma série de portas fechadas nas redações dos principais jornais da época. Afinal, era uma mulher buscando entrada em um ambiente dominado pelos homens. 

A investigação

A oportunidade no mercado jornalístico nova-iorquino se deu quando recebeu a proposta de se infiltrar no Hospital de Alienados de Blackwell’s Island, o principal manicômio da cidade, para produzir uma reportagem a partir de sua experiência. Em Dez dias num hospício, Nellie Bly descreve todo o processo. Fala sobre o plano desenhado para que fosse considerada louca à internação. Foram dez dias de puro inferno nas insalubres instalações da instituição pública.

Com poucos truques – no comportamento, na maneira de olhar, na repetição de frases para soar obsessiva – Nelly enganou uma série de pessoas. Das mulheres do abrigo onde se encontrava no início do plano, às autoridades como policiais, juízes, enfermeiras e médicos. A partir do momento em que foi internada, a jornalista deixou de apresentar qualquer comportamento estranho ou duvidoso e voltou a agir normalmente. Sem interpretar o papel: o resultado foi a certeza ainda maior, por aqueles responsáveis por observar e avaliar o comportamento dela dentro do hospital, de que ele era, de fato, louca.

Na própria pele

Dentro da instituição psiquiátrica, Nelly viu de perto e sentiu na pele os horrores perpetrados às pacientes. Os banhos gelados numa banheira em que a água não era trocada de uma interna para outra, a comida podre, intragável e escassa, a violência física e o isolamento. Sendo assim, a autora descreve situações de puro sadismo praticado por aqueles que deveriam zelar pela saúde e recuperação daquelas mulheres. “Elas pareciam experimentar diversão e prazer quando estimulavam as pacientes violentas a revelarem seu pior.”

Nelly Bly não era a única paciente erroneamente internada naquele espaço. Durante a estadia, conhece e entrevista uma série de outras mulheres que não apresentavam nenhum sinal de sofrimento mental mas internadas, respectivamente, por briga no emprego e por ter cometido adultério.

Neste ponto me vem à cabeça um exemplo próximo: o Hospital Colônia de Barbacena. Taxado de campo de concentração, o hospital da cidade mineira tinha entre seus inúmeros pacientes pessoas ditas “indesejáveis” ou que simplesmente não se adequavam ao padrão normativo da época: homossexuais, alcoólatras, prostitutas e pessoas em situação de rua, por exemplo. 

É importante o papel do jornalismo na denúncia destes casos. No Brasil, a série de  reportagens do jornalista Hiran Firmino intituladas “Nos porões da loucura” contribuíram para o fechamento do Hospital Colônia de Barbacena. Já o assustador relato Nelly Bly foi decisivo para exigência de melhorias nas instalações superlotadas e inadequadas do Hospital de Alienados de Blackwell’s Island. Também ajudou na determinação de que apenas mulheres com graves distúrbios psiquiátricos fossem internadas ali e para o aumento do repasse de verba pública para a instituição. Um marco do jornalismo investigativo e engajado, “Dez dias num hospício” segue assombrando mais de 130 anos após sua publicação original: olhemos para o passado para evitar que seus erros sejam repetidos no presente.

Encontre “Dez dias num hospício” aqui!

Capa de Dez dias num hospício. Foto: Fósforo Editora

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

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