Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Deus na escuridão”: Novo livro de Valter Hugo Mãe, é olhar sensível para a irmandade 

Gostou? Compartilhe!

Lançado pela editora Biblioteca Azul, “Deus na escuridão”, é retorno do autor à uma narrativa em Portugal, após livros situados na Islândia, no Japão e no Brasil

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Dono de uma escrita marcadamente poética, o escritor português Valter Hugo Mãe tem um olhar sensível que descobre o sublime escondido no cotidiano. Seu novo livro, “Deus na escuridão” parece exacerbar, alcançar o ápice destas características que marcam sua trajetória literária. Ao acompanhar um pequeno núcleo familiar, especialmente nas figuras de dois irmãos, Hugo Mãe mergulha o leitor no precipício dos sentimentos humanos – o medo, a dor, a tristeza, a dúvida, a descoberta e, sobretudo, o amor – precipício este que espelha aqueles que marcam a geografia acidentada e íngreme da Ilha da Madeira, em Portugal, espaço do desenrolar desta nova narrativa. “Deus na escuridão” é um lançamento da editora Biblioteca Azul.

Valter Hugo Mãe (Karime Xavier - Folhapress)
Valter Hugo Mãe (Karime Xavier - Folhapress)

Irmandade e fraternidade

Em cena dois irmãos, Felicíssimo e Pouquinho, e seus pais. Nascido bem pequenino e batizado de Serafim – na hierarquia celestial, é o anjo mais próximo de Deus – Pouquinho nasceu sem suas origens, como o ser angelical que lhe batiza. “Era inteirinho um menino, mas vinha mordido entre as pernas como se algum predador o tivesse buscado na barriga de nossa mãe”. Motivo de assombro e comoção na pequena comunidade, o nascimento do caçula surge como uma missão para o primogênito: ser aquele que lhe dedicará um amor dedicado e protetor. Valter Hugo Mãe escreve aqui uma das mais bonitas relações de fraternidade e de irmandade que já encontrei na literatura. Um amor devotado às últimas consequências: até que um pedido irrecusável transforma – e entrelaça ainda mais – o futuro dos dois irmãos.

Ainda que construído sobretudo no íntimo de uma pobre e trabalhadora família portuguesa, Valter Hugo Mãe povoa o romance com uma série de personagens que dão cor e vida a essa ilha tão particular e peculiar. Como a Baronesa do Capitão, com sua grande casa que destoa do cenário ao redor, guardada em riquezas que os demais habitantes jamais nem ousaram sonhar, e suas duas criadas que, de tão semelhantes e despidas da própria identidade, eram conhecidas como As Repetidas. Ainda, a senhora Agostinha do Brinco e a senhora Luisinha do Guerra, ela que “era tantas vezes a caridade de nossa terra”.

Gênese da obra

Luisinha do Guerra é espelho de uma figura real, Luísa Reis Abreu, uma amiga de longa data do escritor falecida no início deste ano, que inspira não só a personagem, mas a própria gênese da obra. “Deus na escuridão”, ele nos conta em um breve posfácio, surge a partir de memórias da amiga. “Depois, bastou que me dissessem que a senhora Agostinha do Brinco, que por vezes cuidava das crianças, soprava as pedrinhas de seu jardim para lhes limpar o pó que eu imediatamente criei carinho pela ideia de transformar tudo isto num livro que guardasse, sobretudo, a gratidão e a comoção”. 

Falando na figura do espelho, é interessante notar a presença deste na narrativa, tanto enquanto objeto, quanto conceito. O espelhamento entre os dois irmãos. O reflexo de um na vida do outro. O espelho que reflete, mas deforma; que expõe, mas esconde; que revela apenas em partes, não entregando uma inteireza. Há algo que escapa e que causa em Felicíssimo um constante estado de alerta e suspeita: “Tudo neste vidro é um furto. Um roubo. Não pede licença. Mas toma quanto pode. Meu pai deve estar revoltado com o que por ali entra sem garantia de regresso, sem uma absoluta devolução.”

Reflexão sobre o amor e a divindade

“Deus na escuridão” é uma reflexão poderosa sobre o amor, esse sentimento que por mais que falemos sobre – quantos livros dizem sobre o amor? Quase todos, em alguma medida? – parece inesgotável e, por vezes, inalcançável em sua plenitude. No olhar da criança que se vê obrigada a amadurecer para ser o escudo que protege o irmão dos perigos do mundo, Valter Hugo Mãe busca o divino no coração dos homens.

Esse divino, ele nos diz, está no amor materno – um amor que, como o de Deus, se dá na escuridão, se entrega sem certezas ou garantias. É esse amor de mãe que Felíssimo busca e dedica ao irmão neste romance que parece inventar não apenas uma geografia dos afetos – aqui também, uma geografia acidentada, repleta de reentrâncias e abismos como a Ilha da Madeira – mas uma maneira muito própria de contar, inventando uma poética que nos toca naquilo o que há de mais profundo.

Encontre “Deus na escuridão” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

Gostou? Compartilhe!

[ COMENTÁRIOS ]

[ NEWSLETTER ]

Fique por dentro de tudo que acontece no cinema, teatro, tv, música e streaming!

[ RECOMENDADOS ]