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Debaixo do vulcão, clássico de Malcolm Lowry, é lançado em nova tradução

Livro é um dos clássicos do século XX, demorou dez anos para ser escritor e chega ao Brasil em nova tradução pela Alfaguara.
debaixo do vulcão
Capa do livro "Debaixo do vulcão". Crédito: Alfaguara

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura | @tgpgabriel

Malcolm Lowry levou dez anos para produzir Debaixo do vulcão, seu segundo e último romance lançado em vida, em 1947. Alçado a clássico moderno, o livro acompanha as agruras de seu protagonista sob o completo domínio do álcool. Um dos mais importantes romances do século XX, Debaixo do vulcão chega em nova tradução, de José Rubens Siqueira, pela Alfaguara.

Geoffrey Firmin é um cônsul britânico, que vive no México, na cidade de Quauhnahuac. Abandonado pela esposa, o personagem vive com a expectativa de seu retorno. Seus dias são carregados pela companhia da tequila e o do mescal, ou como ele diz, de sua “estricnina”. No Dia dos Mortos, Yvonne, sua esposa, retorna ao México, com a intenção de reconstruir sua relação com o cônsul. A maior parte do romance se dá apenas neste dia. Nele, encontramos, além do casal, outros dois personagens muito importantes: Hugh, seu meio-irmão, e Jacques Laruelle, um amigo de infância que ele reencontra na cidade mexicana.

Neste Dia dos Mortos seguimos Geoffrey Firmin numa torrente de autodestruição. Do início ao fim, o texto segue numa intensidade crescente, refletindo os demônios interiores de seu protagonista. Avançamos na expectativa de que algo trágico e definitivo aconteça: como um vulcão, que pode entrar em erupção a qualquer momento, sua fumaça negra já encobre o céu, dominando todo o horizonte. 

Um homem e seus fantasmas

Debaixo do vulcão não é um livro fácil, não abre concessões ao leitor. Malcolm Lowry transpõe para a estrutura textual todo o sofrimento de seu protagonista, a confusão da embriaguez, seus estados alterados, numa escrita intensa, fortemente erudita e vertiginosa. Escalamos com dificuldade este vulcão, numa leitura que demanda tempo e atenção. No final, a conquista do topo vale muito a pena. 

Encontramos aqui um homem perseguido por fantasmas: um trágico episódio no navio Samaritan durante a Primeira Guerra Mundial, a paranóia de estar sendo seguido e observado devido a este acontecimento passado, além das ruínas de seu casamento fracassado. Se a bebida é uma causa para seus infortúnios, ela também é a solução para sobreviver a eles. Beber é o antídoto contra suas alucinações rotineiras, os fantasmas que insistem em persegui-lo. Seguimos este fluxo, em movimento circular: bebe-se para esquecer os terrores internos, mas com a bebida no corpo, estes terrores tornam-se cada vez mais intensos, cada vez mais vívidos.

Relação da história com o autor

Quando conhecemos a biografia de Malcolm Lowry, Debaixo do vulcão ganha uma nova camada de sentido, mostrando-se um texto intensamente autobiográfico: a tragédia da vida refletida na tragédia da ficção. Identificamos o autor em Geoffrey Firmin, na relação doentia com o álcool e no período vivido no México ao lado da esposa; no meio-irmão do protagonista, Hugh, e sua relação com o mar – assim como Hugh, Lowry passou meses a bordo de um navio na juventude -; e em Jacques Laruelle, na tentativa de Lowry em embarcar no mercado cinematográfico em Hollywood. Outro espelho vida real/ficção é Yvonne, que é um duplo da primeira esposa do autor, Jan Gabrial. Esses são apenas alguns dos pontos de contato entre a vida do autor e de seus personagens.

O cônsul é um escritor de uma obra inacabada – na verdade, ninguém nunca o viu escrevê-la, há apenas os livros de referência para a escrita desta futura obra, que sempre o acompanham onde quer que ele esteja. Nisto ele se difere de seu criador: Malcolm Lowry burilou Debaixo do vulcão por uma década e a concluiu – num processo doloroso e tortuoso de escrita  – entregando à literatura um dos mais intensos e importantes romances do século XX.

Encontre o livro aqui.


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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Malcolm Lowry. Foto: John Springer Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

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