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Barbie: as impressões sobre um dos filmes mais esperados de 2023

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Barbie, dirigido por Greta Gerwig, abusa do estereótipo para fazer uma crítica pertinente ao mundo superficial, capitalista e patriarcal

Por Carol Braga | Editora

Dificilmente Barbie será um filme unânime. Mas será que foi feito para ser? Desagradar, incomodar, principalmente os homens, talvez seja até resultado interessante para o longa dirigido por Greta Gerwig. Mas é preciso assumir logo de cara que essa que vos escreve faz parte do time que se divertiu ao longo das 1h54 de projeção. Para dizer mais, o resultado foi uma surpresa para mim. Detalhe: nunca tive uma Barbie.

Cena de Barbie. Foto: Warner Bros
Cena de Barbie. Foto: Warner Bros

Assim como as adaptações literárias costumam desagradar por quebrar imaginários, pensei que o risco também seria grande para este tipo de projeto. Vale lembrar que nunca houve uma história (unânime) sobre a Barbie. Ou seja, as narrativas protagonizadas pelas bonecas foram principalmente criações de suas donas e amigas. Nada mais valioso do que memória afetiva. Principalmente de infância.

Mas não é que Greta Gerwig conseguiu fazer um filme que acolhe todo o espectro imaginativo da Barbie Land e ainda vai além? Pois é. De uma forma ou de outra, o cinema dela (que já vimos em Frances Ha, Lady Bird, Adoráveis Mulheres) costuma cutucar o patriarcado. 

Agora, se ancora em muitos estereótipos justamente para chamar a atenção para temas que são tão contemporâneos como relevantes. E mais: é divertido, tem imagens lindas e uma trilha sonora contagiante. 

Importante salientar, Barbie é muito mais um filme para jovens mães que tiveram a boneca do que para as filhas. Em resumo: a classificação indicativa é 12 anos.

Cena de Barbie. Foto: Warner Bros
Cena de Barbie. Foto: Warner Bros

Estereótipo como trunfo

O exagero é um dos trunfos de Barbie. Assim como no universo do brinquedo, quase tudo é cor-de-rosa. O estereótipo, neste caso, é um instrumento para a crítica ao padrão de beleza, ao capitalismo, à falta de diversidade no universo da boneca, ao patriarcado e muitas coisas mais. Uma ironia. Ou seja, nada do que você vê na tela é literal. São muitas camadas de significados. 

Então, a direção de arte é o primeiro elemento a chamar a atenção. Mas, vale um recado: quem ficar só no que está vendo, vai se resumir à superficialidade. A Barbie de Greta Gerwig não é isso, embora a reconstituição daquele mundo fictício mereça todos os elogios. 

Para quem não entende nada de Barbie, os primeiros minutos praticamente desenham as razões que levaram à criação da boneca e tudo o que significou para uma geração. Tudo com uma luxuosa narração de Helen Mirren. 

É aí que se encaixa a razão de ser desse filme. As meninas do século XXI já não se espelham mais na Barbie inventada no meio do século XX. E agora?

Apresentação

Então, conhecemos Margot Robbie como a mais típica das bonecas lançadas pela Mattel e, em seguida, todo o universo dela. Mansão, carro, roupas e mais roupas. Todos os acessórios que até hoje são vendidos a preços bastante salgados. Assim, a primeira hora do filme se dedica a explorar a Barbie Land, obviamente com falas cheias de ironia. Hey Barbie pra cá, Hey Ken pra lá e assim vai. 

Até que a mais tradicional das Barbies acorda com pensamentos estranhos e o pé chato. É muito legal como esse detalhe do pé vira um dispositivo de transformação da personagem. Vale lembrar que, como a boneca só usa salto, o pé dela tem o calcanhar elevado. Quando começa a ter “características” humanas, é o sinal de que se deve fazer uma visitinha ao mundo dos mortais e resolver tal problema. Vai acompanhada de Ken (Ryan Gosling) e a experiência descortina muita coisa para ambos e para os espectadores também.

Cena de Barbie. Foto: Warner Bros
Cena de Barbie. Foto: Warner Bros

Pobres Mortais

A segunda parte do filme não tem o mesmo ritmo da primeira. Mas o contraste entre o imaginário fictício e o que funciona na realidade traz contrapontos interessantes e valiosos ao roteiro escrito por Greta em parceria com Noah Baumbach. Por exemplo, o papel que os homens desempenham na sociedade, a mesa de reuniões dominada por eles e assim por diante. É na realidade que Barbie ganha duas grandes aliadas, mãe e filhas interpretadas por America Ferrera e Ariana Greenblatt. 

Feminismo em cooperação

No livro Feminismo em Comum: para todas, todos e todes, a filósofa Márcia Tiburi defende que o feminismo só conseguirá enfrentar o patriarcado se as mulheres atuarem em cooperação umas com as outras. Trocando em miúdos, enquanto existir uma mulher machista, o avanço ainda será pequeno ou insignificante. 

É mais ou menos por aí que também caminha a reflexão proposta pela diretora Greta Gerwig. Embora também não tenha o mesmo ritmo da primeira parte, o rito final do longa é quase um manifesto. Sempre com humor os exageros peculiares, a mensagem é semelhante ao que Tiburi escreveu. O mundo mudou. A Barbie também. Nós precisamos ir pelo mesmo caminho. De preferência, juntas.

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