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Círculo de Poemas: Dois lançamentos da poesia brasileira contemporânea

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Desde o início deste ano, o Círculo de Poemas, um clube de assinaturas dedicado à poesia tem lançado importantes obras.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Duas poetas lançaram novos trabalhos pelo clube, Ana Estaregui e Miriam Alves. Ana traz “Dança para cavalos”, seu terceiro livro. Já Miriam tem sua obra poética reunida, em um volume com seus dois livros de poesia, lançados nos anos 80, além de poemas esparsos, publicados em antologias e revistas e zines.

Poemas reunidos

“Poemas reunidos” celebra os quarenta anos de carreira de uma das mais importantes vozes da literatura brasileira em atividade: a paulista Miriam Alves. Lançamento incontornável, o volume reúne seus dois livros de poesia, publicados pela primeira vez nos anos 80 – “Momentos de busca” (1982) e “Estrelas no dedo” (1985) – além dos poemas registrados nos “Cadernos Negros”, série literária independente com foco na produção afro-brasileira que teve início no fim dos anos 70. A publicação também conta com poemas esparsos, publicados em antologias e revistas, além de zines editados nos anos 2010. 

“arma-se de vontade

mudança

mudar

querer um mundo novo

e afunda-se nas palavras 

e nasce mais um poema desconhecido”

Acerto de contas com a História

Miriam Alves afunda, mergulha não só nas palavras, mas na História – em maiúsculo –  e na sua história. Sua poesia é um acerto de contas com o passado e o presente de um país escravocrata. Ela diz de si e dá voz àqueles que padeceram, aos que se rebelaram e, ainda, se rebelam, resistem.

“Quero exuziar

Extravasar

Destronar estas mentiras

Atirando a revolta a resistência e insistência

de continuar a viver e parir filhos na pátria que me enjeita.”

Seus poemas dizem do ser uma mulher negra em um país racista e machista. Aqui, o corpo é político, o prazer é político, o sexo é político. “Na força de seu corpo/ pernas, braços, pés/ faça-me Ser/ a soma do humano”. A poesia como um lugar da pergunta, não da resposta. O lugar da dúvida, da incerteza e da fragilidade. O verso como a linha da descoberta, do assombro e da surpresa. “Fazer poema, minha vida, existência, reticências. Resistir. Ir. A loucura sã do verso prende-me neste universo.”

Versos para ataque e defesa

Miriam escreve sobre a infância abandonada nas ruas: “Eram meninos/ menores/ errantes na terra dos homens/ Eram meninos menores/ agonizantes/ sedentos nus”. A munição do revolver vira uma palavra-bala, que carrega um único significado: Adeus. Um adeus que perfura a vítima, de onde escorre mais do que o sangue, mas uma palavra: Saudades. “O jornal diário/ fotografou três filetes/ Saudades, saudades, saudades…/ escorrem/ escorrem/ escorrem/ vermelhas”.

Os versos como armas, como lanças, contra aqueles que atacam, para se defender: “faço tiro ao alvo na sua falsa piedade/ Empunhando verbos, substantivos/ perfurarei seus sarcasmos/ e falsos arrependendimentos”. Miriam Alves dá voz àqueles que pereceram em nosso passado colonial, encarcerados “nos porões fétidos da história”. História esta que insiste em se repetir, “continuam nos matando/ por ‘acidente’ fatal”.

Poesia e performance

A poética de Miriam Alves é para ser lida em voz alta. Poemas para ler e escutar: a voz que sai da boca e retorna pelos ouvidos, transformada pela dramaticidade de sua escrita. Textos para performar, afinal, o campo da performance é um espaço onde a artista se sente em casa. Onde seus poemas ganham corpo, rosto, pele e movimento em intervenções político-poéticas. Destaco uma a seguir:

O texto de Miriam Alves é urgente, é insurgente. É um grito de revolta, é um grito de dor, é – por que não? – um grito de gozo. O sujeito de seus versos são muitos, são múltiplos, são outras e outros, que unem-se em suas histórias, em suas lutas. Aqui, o luto é substantivo, mas também é verbo. 

“Enluto-me e o poema sai assim

meio mágoa

meio lágrima

meio torto

toda lança

enluto-me por aquelas vindas no arrastão atlântico

enluto-me ao ver dilacerar pele, corpo e mente”.

Encontre “Poemas reunidos” aqui

Poemas Reunidos (Círculo de Poemas)
Poemas Reunidos (Círculo de Poemas)

Dança para cavalos

A poeta Ana Estaregui lança seu terceiro livro, “Dança para cavalos”, também pelo Círculo de Poemas. Enviado primeiro para assinantes do clube, o volume chega agora em abril às livrarias. Em 2018, com os originais de “Dança para cavalos”, Ana venceu o Prêmio Governo de Minas de Gerais de Literatura na categoria poesia. 

Os versos de Ana Estaregui propõem aproximações entre o homem e a natureza. Das árvores, aprendamos a lição de “continuar/ envergando a haste/ em direção ao sol”. Já as mariposas, que durante o dia sonham com a noite, quando esta chega, recomeçam seu exercício noturno e nos ensinam: “voar, desistir, voar”. Para a poeta, em breve seremos aves:

“saberemos — por intuição

por qual direção seguir

em qual esquina dobrar

a essa altura teremos conquistado 

a bússola originária

esta que habita o peito de qualquer bicho”

A proximidade entre nós e a natureza que nos cerca está no próprio título do livro, “Dança para cavalos”. O movimento, a inquietude. A dança do corpo, a dança dos animais e a dança das plantas – o tropismo, observado bem de perto, que nos revela o movimento no aparente repouso. Por fim, a dança dos próprios versos, em suas quebras – o movimento, o ritmo.

“dançar as vozes, girar 

dançar o giro, durante 

a gira não existe quem 

onde por que mas 

o puro giro girar 

girar girar girar”

A metamorfose do corpo 

“parir

me une a cada mulher

me costura ao corpo de todas”

A poeta observa o próprio corpo que se transforma pela gestação, “um acontecimento de leite e espera”. Nesta metamorfose, “os peitos crescem/ como os dias” e “ando agora arqueada, tentando/ compensar o peso/ um novo centro de equilíbrio”. 

Reflexões sobre o gesto de olhar 

Ana nos diz sobre o olhar, olhar a natureza, olhar no espelho e “olhar o poema/ como quem olha a paisagem/ uma sucessão de ruas/ a perder de vista”. Ainda sobre o fazer poético, há aqueles versos que formam um livro, tomam corpo e volume, ganham o olhar atento de quem lê. Mas há tantos outros que não: “os poemas que vieram/ e desapareceram antes/ de serem escritos”. 

“Dança para cavalos” é um convite a “acolher então o mistério/ pelo aprendizado bruto do olhar”, em versos que ganham peso, ganham novas camadas a cada leitura. A cada momento em que pousamos, como um pássaro que descansa entre um vôo e outro, nosso olhar sobre suas páginas.

Encontre “Dança para cavalos” aqui

Dança para cavalos (Círculo de Poemas)
Dança para cavalos (Círculo de Poemas)

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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