fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Carta-crítica para Lady Gaga sobre ‘Nasce uma Estrela’

Por Carol Braga

14/10/2018 às 12:03

Publicidade - Portal UAI
Warner Bros./Divulgação

Cara Lady Gaga,

Tudo bem? Embora o formato desta crítica não seja lá muito tradicional, escrever uma carta para você foi o que me deu vontade de fazer ao sair da sessão de Nasce uma estrela. Se algum fã se interessar em traduzir, ficarei grata! Confesso que conheço pouco da sua carreira mas, no ano passado, vi o documentário Gaga: Five Foot Two e simpatizei contigo.

Achei forte a forma como corre atrás de seus sonhos. Assumir a carreira de atriz talvez faça parte disso tudo, né?

Foi isso que eu pensei depois de ver como construiu sua Ally, a protagonista de Nasce uma estrela. Embora vocês tenham algumas coisas em comum, é um trabalho de ficção e, por isso, sua interpretação merece destaque.

Veja bem, como esta é a quarta versão do filme que já teve no mesmo papel nomes como Judy Garland (em 1954) e Barbra Streissand (1977), você ainda corria o risco de ser comparada a grandes atrizes da história do cinema. Teve medo? Tudo isso sem precisar, afinal, você chegou em uma fase da vida que não tem que provar nada para ninguém, a não ser para você mesma.

Peço licença para contar aos leitores do que se trata Nasce uma estrela. É a história de um casal apaixonado. Ele, Jackson Maine (Bradley Cooper) é um músico mega famoso entregue ao álcool e às drogas. Ela, Ally (seu papel), uma garçonete aspirante a cantora que um belo dia encanta a celebridade e recebe o inusitado convite para dividir o palco. A sintonia entre eles extrapola a música.

 

Warner Bros./Divulgação

 

Direção

Claro que precisamos aqui dar o devido crédito a Bradley Cooper, diretor do filme e protagonista ao seu lado. Não sei se vocês eram amigos ou o que te motivou a aceitar o convite dele, fato é que na estreia como cineasta, também não faz feio.

No que se refere à direção, a versão 2018 de Nasce uma estrela é um filme elegante. Não mostra mais, nem menos do que deveria. As cenas de intimidade do casal estão no limite ideal. Revelam a sintonia de Ally e Jack sem apelar a outros recursos a não ser a conexão dos dois. A química de vocês é um ponto alto.

Elementos tradicionais do cinema como fotografia, trilha sonora, por exemplo, potencializam a cada momento a relação dos protagonistas. Ou seja, os personagens estão em primeiro plano. É a escolha pelo humano em relação à tecnologia. Temos visto isso tão invertido ultimamente no cinema, né?

Atores

Em geral, em filmes dirigidos por atores a interpretação tende mesmo a ter um peso especial. No seu trabalho me chamou atenção, especialmente, como colocou toda a força da personagem nos olhos. Assim, da mesma forma como Ally encarava – e abraçava – as escolhas da vida de cabeça erguida, é legal ver o contraste disso na composição do Jack de Bradley. O olhar dele é sempre escondido, a cabeça é baixa.

Ou seja, gostei de ver como a ascendência e decadência dos personagens estão nos corpos, nas nuances e não apenas na trama.

É preciso destacar também a colaboração do elenco coadjuvante. Sam Elliott, como Bobby o irmão de Jack, nos oferece um grande trabalho.

 

 

Temática

Nasce uma estrela trata de temas muito delicados que, infelizmente, rondam o mundo artístico. Alcoolismo, vício em drogas são sim doenças graves. Muitas vezes, acabam escondidas em meio à encenação da indústria do entretenimento. É bom ver você, e tudo que representa no universo da música pop do século XXI, como vetor para levantar essa discussão.

É bom também te ver de cara limpa. Lady Gaga, te confesso que todas as imagens que guardei de você eram, digamos, espalhafatosas. Sua roupa de carne, por exemplo, me chocou. No filme, porém, você oferece à Ally muita verdade sobre si mesma. Talvez esteja ali uma Lady Gaga que poucos conhecem. A garota normal que se tornou uma mega celebridade e que, para alcançar isso, fez concessões estéticas.

Música

Por fim, não é possível finalizar esta carta sem mencionar a trilha sonora. Inclusive, saí do cinema ouvindo pelo Spotify. Sua versatilidade musical está toda ali. Soube que a ideia de gravar todas as canções ao vivo, sem dublagens, inclusive o fato de Bradley Cooper cantar, foi sua. Precisamos agradecer. Isso fez com que os números musicais tivessem a mesma intensidade – e verdade – que o restante do filme.

Nasce uma estrela tem mais de duas horas de duração. Assim como as canções, o longa tem ritmo próprio, um mérito da montagem. Envolve e, por fim, emociona. Na sessão que eu estava, a plateia aplaudiu no final. Apesar de achar curioso, segui a onda. Vocês merecem sim os nossos aplausos. Sobretudo pela coragem de buscar novos sonhos!

Um abraço,

Carol

 

Continua após a publicidade...

photo

Programação de férias: séries para você aproveitar em julho

Se início de mês já são tradicionais as listas com os lançamentos das plataformas de streaming, em julho elas ganham ainda mais importância. Para quem tem férias, o motivo é obvio, né? Mas se você não terá dias de folga, o trânsito fica mais leve, a cidade mais calma e assim certamente você terá mais […]

LEIA MAIS
photo

A moral e suas dores no filme iraniano ‘O apartamento’

Nem sempre um desmoronamento é algo físico. É um sentido mais alargado do termo que o cineasta iraniano Asghar Farhadi persegue em O apartamento (2016). O longa sucede os incensados A separação (2011), que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e O passado (2013). Na primeira sequencia de […]

LEIA MAIS
photo

“Imo”: Feminismo expandindo as fronteiras da linguagem

Uma das discussões mais marcantes no debate sobre o filme Imo, exibido na Mostra de Tiradentes, foi a tentativa da realizadora de criar uma linguagem própria de comunicação entre as mulheres. Para elas, é fácil entender o medo de andar sozinha em uma rua escura e perceber uma presença masculina. Para um homem, nem tanto. […]

LEIA MAIS