Teatro

“Solo da Cana” propõe reflexão sobre as relações interespécies

Izabel de Barros Stewart em "Solo da Cana", que entra em cartaz no CCBB BH (Carol Pires/Divulgação)

Em cartaz no CCBB BH, o espetáculo “Solo da Cana” traz a bailarina e performer carioca Izabel de Barros Stewart em cena

Patrícia Cassese | Editora Assistente

O que uma cana-de-açúcar teria a dizer aos seres humanos após séculos de exploração? A partir desta sexta-feira, dia 11 de outubro, a bailarina e performer carioca Izabel de Barros Stewart traz a BH um espetáculo – “Solo da Cana” – que provoca e convida o público a refletir justamente sobre a relação entre o ser humano e o meio ambiente no qual habita. O solo, assinado por ela, sob a direção de João Saldanha, leva à cena um corpo de mulher que assume o lugar de fala de uma cana-de-açúcar. Assim, em diálogo com a plateia, este corpo versa sobre o cultivo de afetos entre os seres.

A montagem “Solo da Cana” fica em cartaz até o dia 28 de outubro, com sessões de sexta à segunda, sempre às 19h, no Teatro II do equipamento.

Lugar de fala

Izabel de Barros conta que a motivação para montar “Solo da Cana” veio da necessidade de encontrar um lugar de fala “que desse conta de sintetizar questões ligadas ao que podemos chamar de justiça ambiental e às lutas decoloniais”. Não só. “Do mesmo modo, de certa forma refazer os vínculos que articulam a história ambiental e a história social. Nesse sentido, ficcionalizar a voz de uma commodities, no caso, a cana de açúcar, como um depoimento vegetal frente aos humanos da plateia, foi o jeito que eu encontrei de levar essas pautas para a cena”, explica.

Emblema

Na montagem, o foco recai para a exploração da cana de açúcar mais como um emblema, adiciona Izabel. “Um símbolo da exploração intensiva da terra, flora e fauna – e também de certos grupos humanos. A colonização ou o modo de habitar colonial que desmatou as florestas para instaurar as plantations, o latifúndio privado de monocultura, também criou subhumanidades. Então, o racismo, as discriminações de gênero e etc, fazem parte desse regime de pensamento. Portanto, a lógica do uso e abuso dos solos, da natureza como recurso e mercadoria, é consequentemente estendida a quem trabalha na terra”, complementa a artista.

“Solo da Cana” tem figurinos e adereços de Mauro Leite e iluminação de João Saldanha (Carol Pires/Divulgação)

Não por menos, o ecocídio, sustenta Izabel, é também uma forma de genocídio. “Eu acho que não dá para separar esses crimes nem as suas consequências num planeta em que as vidas são interdependentes”.

Fogo e fumaça

Izabel de Barros adiciona que os sinais de fumaça com os quais o Brasil vem convivendo não indicam só o fogo. “As queimadas que foram deflagradas, na maior parte dos casos, por humanos, em propriedades privadas, são também a denúncia de como estamos anestesiados. E demorando a perceber os riscos de insistir no mesmo modo colonial de se relacionar com a Terra e suas gentes”.

A bailarina e performer explana que eventos climáticos extremos não podem ser vistos como “simplesmente naturais nem politicamente neutros”. “Então, não é apenas sobre destruição da natureza. É sobre modos de viver que são monocentrados e que estão mostrando o seu legado de devastação”. Por fim, Izabel de Barros comenta que fazer teatro é um jeito de ritualizar os encontros que também autoriza a imaginar mundos.

“Então, o ‘Solo da Cana’ permite o encontro entre uma cana de açúcar e uma plateia de humanos, numa tentativa de refazer esse contato. Não só com a cana, mas com as histórias que a acompanham. Levar a sério as relações interespécies, ou seja, o que acontece com o solo, com a cana, com as florestas, com os rios… Tudo o que a epistemologia ocidental convencionou chamar de natureza, repercute também na vida social humana. Estamos juntos, como diz a cana. A gente não se escapa”.

Serviço

“Solo da Cana”

Quando. Até 28 de outubro, de sexta a segunda, sempre às 19h

Onde. Teatro II do CCBB BH (Praça da Liberdade)

Quanto. Os ingressos custam R$30 (inteira) e R$15 (meia), e estão disponíveis em nossa bilheteria e aqui. Clientes Banco do Brasil pagam meia-entrada com cartão Ourocard.

Com duração de 60 minutos.

Aos sábados, as sessões contarão com intérprete de Libras e haverá bate-papo após as apresentações.

Bate-papo com Kdu dos Anjos

Data: Dia 12 de outubro (sábado), após o espetáculo

Local: Teatro II

Sobre o convidado: Kdu dos Anjos é multiartista, MC da cultura hip hop e do funk, produtor de moda, poeta, compositor, ator, arte-educador e fundador do Centro Cultural Lá da Favelinha.

Bate-papo com Carolina de Moura

Data: Dia 19 de outubro (sábado), após o espetáculo

Local: Teatro II

Sobre a convidada: Carolina de Moura é jornalista, defensora dos direitos humanos e da natureza, e realiza agricultura familiar em Brumadinho. 

Bate-papo com Yalorixá Ione Ty Oyáa

Data: Dia 26 de outubro (sábado), após o espetáculo

Local: Teatro II

Sobre a convidada: Yalorixá Ione Ty Oyáa é mulher preta quilombola, ambientalista, enfermeira, atriz, raizeira e benzedeira. Primeira filha do terreiro odé safé odu ara (Quilombo Mangueiras). Mestra da Cultura da cidade de Belo Horizonte 2020 pela FMC (Fundação Municipal de Cultura). Ativa em lutas de igualdade racial e pelo direito quilombola. 

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 11/10/24

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