Cinema
Com Bruna Marquezine no elenco, “Besouro Azul” é um filme refrescante dentro de um gênero saturado
O super-herói Besouro Azul - Foto: Warner Bros. Pictures/Warner Bros. Discovery
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O super-herói Besouro Azul - Foto: Warner Bros. Pictures/Warner Bros. Discovery
“Besouro Azul” foi um sucesso de marketing por contar com a atriz brasileira no elenco, mas o filme é mais que isso.
Por Caio Brandão | Repórter
Filmes de super-heróis tomaram um espaço tão enorme na indústria cinematográfica que, hoje em dia, aquela sensação de novidade que existia no começo da década passada morreu completamente. Sendo assim, as adaptações de quadrinhos para o cinema se tornaram absolutamente saturadas. A indústria priorizou um fluxo midiático tão intenso e, ao mesmo tempo, tão morno criativamente, que fez com que até os fãs mais engajados ficassem fadigados. Nesse sentido, o desgaste daquela fórmula milionária se tornou evidente.
Antes de mais nada, não, “Besouro Azul” não é um filme revolucionário que rompe com todos os pontos fundamentais da “fórmula Marvel” de filme de super-herói. O longa, mesmo que seja da DC, empresa rival da Marvel tanto no cinema quanto nos quadrinhos, ainda usa de costumes e arquétipos já vistos nas dezenas de filmes e séries da concorrente. Existem, no entanto, alguns vislumbres de originalidade, e são nesses momentos que a obra brilha.
Para além do super-herói protagonista, vivido por Xolo Maridueña, a maior preocupação do diretor Angel Manuel Soto é construir um ambiente latino-americano da forma mais autêntica possível. Essa dinâmica, então, perpassa por várias facetas desse contexto: as relações familiares, a vizinhança, as decorações das casas, tudo remete à vivência clássica de quem vive na América Central. Tendo em vista a proximidade geográfica e histórica, as semelhanças culturais com o Brasil se mostram constantemente. Então, mesmo que Jaime Reyes e os familiares sejam mexicanos, tem muita coisa ali com as quais nós brasileiros podemos nos identificar, como, por exemplo, as várias referências ao Chapolin Colorado.
Falando no Brasil, temos que falar sobre Bruna Marquezine. A atriz acabou sendo a principal jogada de marketing para o filme no país, causando uma enorme celebração nas redes sociais. A presença de Bruna no elenco fez com que milhares de brasileiros criassem uma grande expectativa com o longa. Mas, e aí, como ela está no filme?
Bruna atua com convicção e passa uma sensação de costume ao espectador. Estamos falando de uma atriz experiente e que chegou pronta para a grande estreia em Hollywood. Nesse sentido, é até um pouco estranho vê-la na tela, já que ela aparenta sempre ter pertencido aos blockbusters hollywoodianos. O mesmo pode ser dito do resto do elenco, que convence nos papéis interpretados, principalmente Xolo Maridueña, como Jaime, e Susan Sarandon, como Victoria Kord, o protagonista e a antagonista, respectivamente.
Vamos falar, então, do que realmente diferencia “Besouro Azul” do resto dos filmes de super-heróis: o visual. Tudo bem que, à primeira vista, isso não chama muita atenção, já que luzes neon e tecnologia oitentista configuram um estilo de cyberpunk que, em 2023, já está bastante cansado. As coisas mudam, porém, quando Jaime vira, de fato, o Besouro Azul.
A cena da primeira transformação em filmes de herói é, tipicamente, algo grandioso e inspirador. Em Besouro Azul, no entanto, esse processo é quase uma cena de um filme de terror. O protagonista se contorce e grita de dor, quase como se estivesse sendo possuído por um demônio. Essa subversão é um dos pontos altos do filme, mostrando que o longa, no mínimo, não é um daqueles filmes genéricos.
Quando o herói está em ação, as coreografias das cenas lembram uma espécie de “Power Rangers” com um orçamento significativamente maior, ou seja, é bom demais! O longa não cede ao cinismo dos concorrentes atuais: o Besouro Azul é um super-herói e assume isso com todas as forças, sem precisar de piadinhas infames o tempo inteiro para provar que é carismático.
Tendo em vista a bagagem latina do filme, o amor pela velha guarda dos animes, como “Dragon Ball” e “Cavaleiros do Zodíaco”, transparece no longa. Essas animações têm lugar cativo na mente de qualquer latino americano nascido nos anos noventa e começo dos anos 2000. Então, além de fazer total sentido com o contexto geral da obra, essas inspirações ajudam a construir cenas de ação únicas dentro do gênero no qual o filme se insere. Sendo assim, poses mirabolantes, espadas gigantes, armas desnecessariamente complexas, tudo isso figura nas lutas espetaculares presentes no longa.
Talvez o grande causador da saturação dos filmes de herói seja a presença constante e, consequentemente, ingrata, de piadas. “Besouro Azul”, porém, se recusa a aderir essa lógica, decisão extremamente acertada. Quando a trama exige seriedade, ela é concedida, sem nenhuma piadinha irônica que acaba completamente com qualquer resquício de tensão ou emoção.
Não que o filme seja um drama que vai te fazer sair chorando do cinema, mas a obra não tem nenhuma objeção ao contemplar sentimentos dolorosos e promover eventos traumáticos para os personagens que, por sua vez, transbordam humanidade. Ninguém ali é perfeito, todos mostram lados desagradáveis de si em algum momento. Isso oferece uma conexão genuína com o espectador e amarra bem a temática do amor familiar.
No final das contas, “Besouro Azul” ainda é um filme de super-herói, e sofre um pouco por estar dentro de um gênero saturadíssimo. Dito isso, a direção e o roteiro parecem ter consciência dessa condição, e procuram, sempre que possível, romper com o que se espera desse tipo de longa e isso, por si só, já tem valor. Considerando, então, que esses rompimentos são justamente os grandes trunfos da obra, “Besouro Azul” entretém com facilidade e se ergue como algo imperdível para os fãs dos filmes de super-heróis.
Publicado por Caio Brandão
Publicado em 17/08/23