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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Bacurau: um filme sobre a que ponto chegamos

Longa brasileiro vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes é cheio de camadas para falar sobre o surrealismo do mundo de hoje

Por Carol Braga

11/09/2019 às 08:13

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Cena de Bacurau. Foto: Victor Jucá/ Divulgação

Deve ser normal as pessoas saírem de Bacurau com cara de susto, né? E também imagino que seja bastante comum, não conseguir falar sobre o filme dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles logo após a sessão. Bacurau precisa de decantação. Ou seja, pelo menos pra mim, foi necessário um tempo para que eu organizasse minimamente as ideias. Mesmo assim, nem sei se tem muita coisa organizada aqui.

Não acho que Bacurau seja simplesmente um filme sobre vingança. Me soou mais uma história sobre cansaços. Sim, no plural. A rima com cangaço é uma feliz coincidência.

Bem, a história se passa na cidade de Bacurau, um lugarejo abandonado pelo poder público e que, um belo dia, literalmente some do mapa. Dentro da seriedade que lhe cabe, o longa é cheio de ironias. É por isso que vai bater em cada um de uma maneira diferente. Se quiser compartilhar nos comentários como bateu em você, fique à vontade. Tenho certeza que terá visto coisas que não vi.

Tema

A temática do filme é tão forte e relevante que, neste texto, não farei comentários mais formais sobre os elementos que compõe a obra, como fotografia, trilha sonora e afins. Sobre o elenco, por exemplo, destaca-se o mérito dos diretores no equilíbrio entre atores e não-atores. Entre os profissionais, confesso que fiquei tão envolvida com o desenvolvimento do roteiro que nem consegui ver alguém que se destacasse mais. Ou melhor, toda minha admiração a Silvero Pereira como Lunga.

Pois bem, aqui listaremos pontos que despertaram reflexão, seguidos das interpretações. Obviamente, todas muito próprias. Sendo assim, acredito que este texto esteja mais apropriado para quem já viu Bacurau. Se este ainda não é o seu caso, sugiro parar de ler aqui, salvar e depois vir trocar uma ideia.

 

Bárbara Colen em Bacurau. Foto: Cinemascopio/Divulgação

 

Não Identificado

Bacurau é um filme político. No entanto, assim como Gal Costa canta na canção que abre o longa, prefere ser, em termos de gênero, um “objeto não identificado”, um “anticomputador” do que assumir explicitamente este lugar. É como se fosse mesmo um “ie-ie-ie romântico”, singelo, brasileiro mas que, no fim das contas, diz muito. Mesmo em tom de graça. Ou melhor, diz tudo sobre nossa gente, sobre o nosso presente e, pior, talvez também sobre nosso futuro.

Fala sobre populações que vivem abandonadas, sobre descaso completo, sobre o salve-se quem puder, sobre o racismo que ainda existe, sobre a hipocrisia que só cresce, sobre a força de uma comunidade.

Mas, ao mesmo tempo em que apresenta tudo isso ao espectador, mostra como a resistência se revela, cada vez mais, a única alternativa para a sobrevivência de todos. Aí vamos nós.

 

Supositório

Kléber e Juliano falam sobre isso em cada frame de Bacurau. Se tem gente que vê filme procurando easter eggs, neste caso, você pode fazer o exercício de procurar as pistas para refletir sobre os absurdos do mundo atual. Por exemplo, quer cena mais contundente para falar sobre o descaso com a cultura do que um caminhão basculante despejando livros na porta de uma escola como se fosse areia, brita ou até mesmo lixo?

E o que dizer sobre o político que oferece à população mantimentos vencidos e caixões funerários. Uma das minhas cenas prediletas é quando Domingas (Sônia Braga) alerta a população sobre o uso de alguns medicamentos doados pelo prefeito. Detalhe, o nome do remédio faz uma alusão ao nome “Brasil”, tem tarja preta, funciona com o um analgésico administrado pelo ânus. Ou seja, uma releitura do clichê de que o Brasil não é para amadores e ainda por cima a população usa um supositório para se alienar.

São ironias assim que fazem com que Bacurau cresça na minha avaliação cada vez que penso nele.

 

Cena de Bacurau. Foto: Victor Jucá/Divulgação

 

Homenagem à história, à memória

Em Bacurau a igreja virou depósito, mas o museu é local de orgulho para a população. Isso diz muito sobre aquele povo que decide pegar em armas para salvar aos seus. Valorizar o museu significa, respeitar o passado, a memória. E aqui cabe voltar à história do cangaço.

No meu entender, Kléber e Juliano fazem uma homenagem a Lampião e seu bando. Obviamente em tom muito irônico principalmente pela inversão histórica que propõe. A mesma coisa que Quentin Tarantino fez no recente Era uma vez em Hollywood. Inclusive, os dois filmes exibidos na edição 2019 do Festival de Cannes tem em comum a admiração pelo faroeste. No caso brasileiro, o sertão sempre foi o campo de batalha da nossa história.

 

Reality Show

Apesar de tantas referências ao passado, Bacurau é uma trama que se passa no futuro. Distópico, é verdade. Como tudo no filme tem um sentido para além do que a gente vê na tela, me peguei pensando qual seria o objetivo daqueles estrangeiros. O que eles fazem aqui? Por que tanto prazer em matar?

Aí pensei se não poderia ser uma crítica a essa sociedade de hoje que parece viver em um reality show permanente. Ou até em uma série de ficção. Dando importância a competições que não fazem o menor sentido. Qual a relevância de Big Brother para a sua existência? Lembra de No Limite, um dos primeiros programas do gênero que obrigava os competidores a testar os próprios limites para serem campeões. Enfim, nem sei se isso passou pela cabeça dos diretores, mas foi o que eu pensei.

 

O cansaço

Por fim, pra mim, Bacurau é um filme sobre cansaços. Isso porque conta a história de gente que desistiu de esperar. Não entrou em competição, escolheu não fazer parte do jogo. Quer dizer, preferiu acabar com o jogo. E melhor: com um trabalho em equipe que começa, mesmo que de maneira inusitada, de dentro de uma escola.

 

 

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