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Autobiografia de um escravo, de Frederick Douglass, reflete sobre a escravidão nos EUA e a própria trajetória, de escravo a homem livre

Narrativa, para além de autobiográfica, também é reflexiva, crítica e histórica ao relatar o sistema da escravidão dos Estados Unidos na época
autobiografia de um escravo
Frederick Douglass. Foto: George Kendall Warren - National Archives and Records Administration

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura do Culturadoria

“De minha parte, eu preferiria a morte a um cativeiro sem esperança”.

Frederick Douglass é um dos mais importantes nomes da luta antiescravagista norte-americana no século XIX. Dono de um discurso eloquente, ele se tornou um símbolo do movimento negro nos Estados Unidos. Escravizado até os 20 anos, Douglass foge de uma fazenda no sul rumo a Nova York numa viagem curta, porém intensa, de menos de 24 horas, em setembro de 1838. Sete anos depois, em 1845, publica a primeira edição desta Autobiografia de um escravo (Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave, no original).

Temos aqui um texto no presente: Frederick Douglass é, ao mesmo tempo, testemunha e prova da existência dos horrores que narra. A abolição da escravidão viria 20 anos depois da publicação da autobiografia. Há momentos em que ele convida o leitor (à época de seu lançamento original) a visitar uma fazenda, uma “plantation” no sul escravista. Dessa forma, veria com os próprios olhos aquilo que é narrado em seu texto. Lemos as descrições dos horrores da escravidão, da tortura e da violência atroz. Muitas das lembranças que Douglass compartilha com seus leitores vêm carregadas por ele desde a mais tenra infância.

Além do relato

Muito mais do que um simples relato – o que, por si só, já teria um peso enorme como documento e denúncia – Douglass desenvolve uma profunda reflexão sobre o sistema da escravidão americana. Livre ao escrevê-la, o autor reflete sobre a sua trajetória, de homem escravizado no sul a homem livre no norte. Assim, expõe as chagas de uma nação doente, fundada sobre o sangue negro, no pacto entre diferentes camadas e instâncias – políticas, financeiras, religiosas – da sociedade norte-americana para o pleno funcionamento e desenvolvimento do sistema escravagista. Douglass é especialmente crítico à religião. Não à fé, sendo ele próprio cristão, mas às igrejas com sua postura de defesa e justificativa – incluindo aí justificativas retiradas do próprio texto bíblico – da escravidão no país.

A educação que emancipa

O texto de Autobiografia de um escravo é cristalino, escrito por um autor que tinha completo domínio da palavra e da argumentação. Sua escrita nos instiga a acompanhar sua jornada rumo à liberdade (voltarei ao sentido da palavra “liberdade” ao final do texto). Temos aqui um narrador profundamente culto, pois Douglass também traz ao texto uma série de referências em sua escrita. Ou seja, do teatro de Shakespeare e da poesia, por exemplo. 

Privado da educação formal, Douglass foi autodidata. O autor nos esclarece os pormenores de seu processo de aprendizado e a crescente sensação de revolta ao aprender a ler: a sensação de que esta conquista era mais uma maldição do que uma bênção, pois dava a ele uma visão crítica e reflexiva da situação na qual se encontrava. Para os senhores de escravos, a educação é perigosa, pois ela emancipa: “O que ele (o senhor) mais temia era o que eu mais desejava”. Para Frederick não bastou aprender a ler e escrever, mas passar adiante esse conhecimento conquistado, na possibilidade de libertar também a mente de seus irmãos.

“Descobri que para fazer um escravo contente é necessário fazê-lo sem pensamentos. É preciso escurecer sua moral e sua visão mental e, tanto quanto possível, aniquilar a força da razão. Ele deve ser incapaz de detectar incoerências na escravidão; ele deve sentir que a escravidão é certa; e ele só pode ser levado a isso quando deixa de ser homem”.

Narrativa da fuga

Na narrativa de sua vida, ao contar de sua fuga, há o cuidado em não explicar os pormenores do processo – lembremos que a publicação do texto se deu 20 anos antes da abolição da escravatura por lá – para não expor tanto aqueles que o ajudaram quanto o próprio caminho percorrido, mantendo os senhores de escravos cegos quanto à sua existência.

Além disso, em um dos textos extras do volume, Minha fuga da escravidão, o autor narrará em detalhes sua fuga. Este foi publicado em 1881, 16 anos após a abolição nos Estados Unidos com a Décima Terceira Emenda. Sua escrita aqui beira o cinematográfico. Em outras palavras, um fluxo de tensão crescente, com os pormenores e percalços do seu trajeto, no trem com destino à liberdade.

Importante ressaltar que o sentido da palavra liberdade, aqui, é parcial, longe de ser plenamente alcançável. Isso porque, mesmo no norte com seu movimento abolicionista, Frederick Douglass, logo ao chegar, já identifica as sementes da segregação racial. Esta permaneceria oficializada como política de Estado, de norte à sul, até a maior parte do século XX, até a Lei dos Direitos Civis, em 1964, e a Lei do Direito ao Voto, em 1965.

O uso consciente da força das imagens

Por fim, gostaria de destacar mais uma informação: Frederick Douglass é o norte-americano mais fotografado em todo o século XIX. Não é à toa, pois o líder abolicionista sabia da força de uma imagem, que atravessa décadas, atravessa séculos, transmitindo uma mensagem. Sua postura era altiva e séria ao encarar a câmera, combatendo imagens negativas e estereotipadas do homem negro no século XIX. Dessa forma, tais retratos seguem mantendo sua força e expressividade hoje, em 2021. 

Autobiografia de um escravo, de Frederick Douglas, foi publicada pela Editora Vestígio nem 2021, com tradução, introdução e notas de Oséias Silas Ferraz, e apresentação do advogado, professor e filósofo Silvio Almeida. Encontre o livro aqui.


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel.

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Capa do livro “Autobiografia de um escravo”, de Frederick Douglass. Crédito: Editora Vestígio

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