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“Arquipélago Gulag” é memorial às vozes dissonantes e à resistência enquanto gesto político

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Testemunho de 227 sobreviventes do sistema de campos de trabalhos forçados na URSS – entre eles, o próprio autor é ponto de partida para a construção de Arquipélago Gulag

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Logo no início do monumental “Arquipélago Gulag”, Aleksandr Soljenítsyn informa ao leitor: “Neste livro não há personagens inventados nem acontecimentos inventados. As pessoas e os locais são mencionados pelos próprios nomes. Se são denominados pelas iniciais, é por considerações pessoais. Se não são denominados em absoluto, é apenas porque a memória humana não guardou os nomes – mas tudo ocorreu exatamente daquela maneira”. Construído a partir do testemunho de 227 sobreviventes – entre eles, o próprio autor – do sistema de campos de trabalhos forçados na União Soviética, “Arquipélago Gulag” é um testemunho tanto íntimo quanto coletivo de um longo e sombrio período da humanidade no século XX. Com tradução de Lucas Simone, Irineu Franco Perpetuo, Francisco de Araújo, Odomiro Fonseca e Rafael Bonavina, a magnum opus do Nobel da Literatura Aleksandr Soljenítsyn é uma publicação da Carambaia.

Aleksandr Soljenítsyn  (Créditos Steve Liss)
Aleksandr Soljenítsyn  (Créditos Steve Liss)

“Inimigos do Estado”

Um dos símbolos do stalinismo na URSS, o Gulag reuniu uma série de campos de trabalhos forçados espalhados por toda a União Soviética. Milhões de pessoas passaram por suas grades, muros e arames farpados. Entre sua crescente população, estavam majoritariamente “inimigos do Estado”, pessoas que, de alguma maneira, se opuseram ao sistema vigente. Ou não. Aleksandr Soljenítsyn povoa a narrativa de “Arquipélago Gulag” com histórias das mais absurdas e arbitrárias condenações e prisões. Um alfaiate espeta uma agulha em um jornal preso na parede, acertando, por acidente, a imagem do vice-primeiro-ministro Lazar Kaganovich. Denunciado, recebeu uma sentença de dez anos.

Uma vendedora fez uma anotação na testa de Josef Stalin estampada noutra folha de jornal. A pena? Dez anos. Um tratorista aqueceu sua botina velha com o folheto de candidatos à eleição do Soviete Supremo. Pelo crime de agitação contrarrevolucionária, também recebeu a sentença de uma década em campos de trabalhos forçados.

Aleksandr Soljenítsyn mostra no livro como todo um pensamento filosófico-artístico-cultural se perdeu frente à violência e a morte dos campos do Gulag. São inúmeros os escritores e intelectuais de diferentes países que integravam a União Soviética presos e submetidos ao horror dos trabalhos forçados, em condições mínimas de sobrevivência.

“Assim foram para debaixo da terra prosadores filósofos. Prosadores historiadores. Prosadores líricos. Prosadores impressionistas. Prosadores humoristas. Assim, uma filosofia e uma literatura inéditas foram sepultadas, logo após o nascimento, sob a férrea crosta do Arquipelago”.

O que seria não apenas do século passado, mas da própria atualidade, caso todo esse pensamento houvesse florescido em liberdade, ao invés de soterrado na cova profunda do horror?

Tour de force

“Arquipélago Gulag” é um verdadeiro “tour de force” de Aleksandr Soljenítsyn. Tanto pelo peso e profundidade das histórias que coleta e eterniza em mais de 600 páginas, quanto pelo próprio processo de desenvolvimento, escrita e publicação da obra. Escrito clandestinamente entre 1958 e 1967, Soljenítsyn, em esconderijo, revisou, datilografou e microfilmou cada página do manuscrito em 1968. Dessa microfilmagem, uma cópia atravessou a espessa cortina de ferro soviética, em direção à França.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1970 – honraria que o autor nem sequer recebeu pessoalmente, com medo de não poder retornar ao país natal – Soljenítsyn se via constantemente vigiado pela polícia política. “Arquipélago Gulag” ainda não havia sido publicado até que uma cópia parcial do manuscrito foi interceptada pela KGB. Sem alternativas, Aleksandr ordenou sua publicação na França no fim de 1973. No início do ano seguinte, o escritor russo já estaria preso mais uma vez, tendo sua cidadania destituída e sendo, logo em seguida, expulso do país. Apesar de tudo isso, a publicação do livro era uma realidade e um estrondoso sucesso no mercado externo.

Conclusão

Num texto de qualidade literária excepcional, com um ritmo de tensão crescente e um interessante diálogo entre a narrativa memorialística. A escrita de denúncia e a reflexão filosófica, Aleksandr Soljenítsyn encadeia um mosaico de experiências de sobrevivência limítrofe. Mais do que um arquipélago de campos, encontramos aqui um arquipélago de vozes e experiências, espalhadas por todo o território soviético, resultando num épico narrativo e político. “Arquipélago Gulag” é uma obra fundamental para entender o século passado – e também olhar para o futuro, tendo em mente quais os limites aparentemente inalcançáveis da desumanização e da violência. Um verdadeiro memorial às vozes dissonantes e à resistência enquanto gesto político.

Encontre “Arquipélago Gulagl” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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