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Aprender a falar com as plantas: jornadas universais pelo sensível olhar de Marta Orriols

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“Aprender a falar com as plantas” emociona pela força das imagens construídas pela autora catalã e pelo potencial de identificação do leitor com a jornada de sua protagonista

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Paula tem 42 anos e é neonatologista. Ela perde o companheiro de longa data de maneira trágica e imprevisível. Mauro morre em um acidente, quando um carro ultrapassa um sinal vermelho, atingindo a bicicleta em que estava. Momentos antes do fato, o casal havia se encontrado pela última vez, em um restaurante. Ali, Mauro revelou para Paula uma traição e a decisão pelo divórcio. “Se não fosse por um sinal vermelho, o Mauro teria saído de casa”. Com tradução de Beatriz Regina Guimarães Barboza e Meritxell Hernando Marsal, “Aprender a falar com as plantas” é o primeiro romance da catalã Marta Orriols. O livro foi lançado pela Dublinense.

Reflexões sobre um duplo abandono

A personagem sofre uma espécie de duplo abandono. O luto é apenas uma das dores com as quais Paula precisa lidar. Esta, que é uma dor, por si só, complexa, repleta de nuances e que, por vezes, parece tirar um pouco da vida – ou o desejo dela – de quem a experiencia. O rancor com o choque da descoberta da traição irá reconfigurar todo o processo de luto.

“Ninguém calculou, porém, que, aferrada à dor da morte, tinha uma outra, uma escorregadia, mas de caminhar lento, como uma lesma, capaz de cobrir tudo, até a outra dor”

Marta Orriols em Aprender a falar com as plantas

A personagem opta por não revelar para as pessoas próximas, familiares e amigos, o teor da última conversa com o companheiro. Esta decisão, no entanto, parece aumentar consideravelmente o fardo. Ou seja, o de sustentar a imagem do relacionamento sólido, interrompido apenas pela morte. Aquela relação eternizada nas fotografias que ocupam os porta-retratos de casa. Com o objetivo de consolá-la, tornam-se uma constante frases como “Mauro te amava muito” ou “Ele era apaixonado por você”.

Acompanhadas destas, que buscam definir seu passado, Paula precisa lidar com outras afirmações, que tentam definir também o seu presente e o futuro. “É preciso reagir. É preciso seguir em frente. Você vai ficar bem, você vai sair dessa”. Marta Orriols insere aqui todo este roteiro que parece ser um padrão na visão daqueles que observam e acompanham o luto alheio. O interessante é como a protagonista busca rechaçar esses lugares comuns, questionando e negando o vazio dos discursos. Não há padrão no luto. 

Diálogos internos, com o companheiro e com o leitor

A neonatologista mergulha no hospital, em plantões intermináveis, na tentativa de se manter sã, enfrentar a sombra que parece ter se agarrado em sua pele, nas paredes do apartamento e nas memórias compartilhadas com Mauro. No ambiente hospitalar, ela segue rodeada pelas crianças que chegam ao mundo pelas próprias mãos. Sobretudo daquelas para quem o nascimento é apenas um primeiro desafio, logo seguido por outro maior. Ou seja, o de sobreviver aos partos prematuros ou às sequelas de uma gravidez de risco. Agarrar-se à vida como resposta contra a sombra da morte.

Acompanhamos a protagonista ao longo de um ano após a perda. “Aprender a falar com as plantas” é intercalado entre longos capítulos onde Paula parece conversar consigo mesma – e neste gesto conversa, e muito, conosco – e outros breves capítulos onde constrói um diálogo unilateral com o companheiro morto. É justo aqui que residem alguns dos momentos mais tocantes da narrativa, ao dizer do afeto e do cotidiano compartilhado.

Assim, Paula conversa com Mauro como ele conversava com as plantas que, então, ficaram sob responsabilidade dela.

“Foram morrendo todas as plantas. Como você fazia, Mauro? Regá-las não deve ser o bastante. Você falava com elas. Não fazia isso abertamente, nunca na frente dos outros. Você dizia que falar com as plantas era um ato íntimo e transformador, um ato de fé para aqueles que não acreditam em milagres”.

Marta Orriols em Aprender a falar com as plantas

A sensibilidade com as temáticas do luto e da traição

Marta Orriols narra com muita sensibilidade dois temas universais: a traição e o luto. Se, por vezes, estas parecem questões trabalhadas à exaustão, o principal êxito está na maneira como se esquiva do sentimentalismo e dos lugares comuns.

“Aprender a falar com as plantas” emociona pela força das imagens construídas pela autora catalã. Também pelo potencial de identificação do leitor com a jornada da protagonista, que busca redescobrir aquele que amou e, sobretudo, reencontrar e reconstruir a própria essência.

Encontre “Aprender a falar com as plantas” aqui

Capa do livro Aprender a falar com as plantas.
Capa do livro Aprender a falar com as plantas.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

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