Literatura
Memória, afeto e resistência em “Apolinária”, de Bianca Santana
Em romance de estreia, história de sua avó é espelho e travessia para realidade genuinamente brasileira.
Bianca Santana, autora de Apolinária (Foto Aline Reis)
Literatura
Em romance de estreia, história de sua avó é espelho e travessia para realidade genuinamente brasileira.
Bianca Santana, autora de Apolinária (Foto Aline Reis)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Foram tantos anos ouvindo histórias do rio São Francisco, do centro de São Paulo, da Vila Gustavo, contadas a mim, a estranhos no metrô, a vizinhas de quem falava bem pela frente e mal pelas costas, que posso ouvir a voz firme da vó Polu quando sento para escrever sobre ela.” Essa descrição, logo no início do romance, dá o tom de uma personagem singular, reconstruída pelo texto, pela memória e pelo afeto. Vó Polu é “Apolinária”: mulher, trabalhadora brasileira, mãe, avó de Bianca Santana. É ela quem dá nome ao primeiro romance da autora paulista.
“Apolinária”, mulher e romance, vai das margens do Rio São Francisco, numa cidadezinha do interior da Bahia, a uma São Paulo marcada por um intenso fluxo de imigração. São pessoas que buscam, na maior cidade do país, a possibilidade de continuidade — ou a reescrita — da própria história. Vó Polu deixa para trás um marido que nunca amou para encontrar a si mesma na capital paulista. Nela, criou sozinha os dois filhos. Nesse sentido, a história de Apolinária é também a história de tantas mulheres negras ao longo do tempo — do passado distante ao presente mais imediato. Mulheres que são o arrimo da família, as provedoras do lar.
Se, na criação dos próprios filhos, o trabalho constante — necessário para a manutenção da casa — exigia a ausência materna, na criação da neta, enquanto a mãe desta cumpria as demandas do próprio trabalho e enfrentava horas e mais horas de transporte público, Apolinária foi uma presença essencial. “Ter sido educada por ela, enquanto minha mãe passava quatro horas por dia no transporte público e outras nove no telefone de uma multinacional, vendendo prego e parafuso, me forjou.”
Bianca Santana faz um trabalho minucioso na construção das duas vozes que povoam “Apolinária”. Vó e neta compartilham memórias e capítulos do breve romance. Assim, entre uma e outra, navegamos por um texto que se move na fluidez das águas do Rio São Francisco da juventude de Apolinária. Memória e invenção se encontram no texto de Santana, rompendo as fronteiras do relato e do documental. Aliás, quando é que uma memória, em maior ou menor medida, não é também uma invenção?
Entre o lirismo de uma escrita forjada em um afeto genuíno e uma pesquisa histórica profunda — num Brasil igualmente profundo — Apolinária caminha de uma história íntima, singular, para a história de um país. Se, no início, Bianca Santana nos diz ouvir a voz de Polu ao escrever sobre ela, essa voz não se encerra na escrita. Ela segue com o leitor — num texto vivo, que nos convida ao encontro, ao ouvido atento, aos olhos abertos. Ouvi Apolinária ao ler a sua história. Talvez numa voz que, aqui dentro de mim, trazia algo da minha própria avó? Talvez. Mas, definitivamente, uma voz muito própria, forjada pelas mãos e pela memória de uma mulher, escritora, jornalista, filha, mãe e neta.
Encontre “Apolinária” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 10/10/25