Literatura

Aos prantos no mercado: Um comovente relato autobiográfico

Michelle Zauner, autora de Aos prantos no mercado. Foto Tonje Thilesen

O livro Aos prantos no mercado é um lançamento da Fósforo Editora. A partir da morte materna, Michelle reconstrói a relação entre as duas, da infância até os últimos momentos juntas

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Desde que a minha mãe morreu, eu choro no mercado H Mart”. Com essa frase, Michelle Zauner dá início ao seu primeiro livro “Aos prantos no mercado”. Nele, a artista desenvolve um comovente relato autobiográfico, refletindo acerca do processo de luta da mãe contra o câncer e sua morte precoce. A partir da morte materna, Michelle reconstrói a relação entre as duas, da infância até os últimos momentos juntas, um longo processo marcado pelo afeto, por conflitos e pelo prazer compartilhado pela culinária coreana. Com tradução de Ana Ban, o livro é um lançamento da Fósforo Editora.

H Mart é uma rede de mercados norte-americana especializada em comida asiática. Filha de um pai americano e caucasiano e uma mãe coreana, é nessa rede que Michelle encontra os ingredientes e produtos que remetem à cultura do lado oriental da família. Entre geladeiras de “banchan” e prateleiras com saquinhos de “ppeongtwigi”, nos corredores do mercado Michelle se vê relembrando os aromas e os sabores que marcaram a vida ao lado da mãe. “Em um intervalo de cinco anos, perdi minha mãe e minha tia para o câncer. Então, vou ao H Mart, não estou apenas em busca de frutos do mar e três ramos de cebolinha por um dólar; estou à procura de memórias. Estou colhendo evidências de que a metade coreana de minha identidade não morreu quando elas morreram”.

Culinária afetiva 

Michelle Zauner constrói como espinha dorsal do relato a relação construída entre mãe e filha ao redor da comida. Do ato de prepará-la e do ato de comê-la. Do afeto transmitido através de um prato compartilhado. Da memória construída por meio de cheiros e aromas, gatilhos que a transportam ao passado, às memórias mais profundas. A partir disso, “Aos prantos no mercado” encanta pela infinidade de pratos coreanos que a autora descreve ao longo das páginas. É uma experiência que beira o sensorial, num verdadeiro mergulho na culinária coreana, país onde a comida tem um papel essencial na formação cultural. “Esperava desesperadamente por outras oportunidades assim para brilhar e, na minha busca por validação, descobri que nossa apreciação em comum por comida coreana servia não apenas como forma de aproximação entre mãe e filha, mas também oferecia uma fonte pura e legítima do apreço dela”. 

O retorno ao seio materno e à casa da infância, a partir do diagnóstico da doença, se abre como uma espécie de redenção. É bonito como, também aqui, a comida tem um papel primordial. Agora é Michelle que busca aprender e preparar os pratos mais afetivos da mãe – quando o apetite parecia soterrado pela náusea e pelos efeitos dos medicamentos. “A comida era uma linguagem sem palavras entre a gente.”

Desencontro geracional e cultural 

Além de escritora, Michelle é líder de uma banda de indie-pop, a Japanese Breakfast. Se hoje, a sua carreira na arte é uma realidade, ela nos revela ao longo do livro que as aspirações artísticas foram um dos muitos pontos de discordância com a figura materna durante sua formação. Responsável pelo primeiro violão da filha, a mãe logo se arrepende do gesto ao perceber que o “fogo adolescente” estava durando mais do que ela desejava, colocando em risco o sonho de ter a filha única na faculdade, em busca de uma carreira, digamos, mais séria. Zauner compartilha com muita honestidade os momentos de embate, de fraturas que pareciam irrecuperáveis, na relação com a mãe. São muitos os desencontros – geracionais, culturais, linguísticos – entre as duas mulheres. O processo de afastamento se intensifica na ida da autora para a universidade e nos anos que se seguem, onde ela se equilibra entre subempregos e o sonho com a carreira musical. “Eu tinha feito exatamente o que a minha mãe tinha aconselhado a não fazer. Eu estava me debatendo com a realidade vivendo a vida de uma artista sem sucesso”.

Zauner reflete, ainda, sobre o desencontro e o pertencimento, sendo norte-americana de ascendência coreana. Se nos Estados Unidos, a maior parte das pessoas a enxergavam como asiática, na Coreia do Sul, ela era identificada, sobretudo, como caucasiana. Espécie de “não lugar”, onde ela precisava reafirmar suas raízes onde quer que estivesse. “‘Você não sabe o que é ser a única menina coreana na escola’, expliquei a minha mãe, que ficou me olhando sem entender nada. ‘Mas você não é coreana’, ela disse. ‘Você é norte-americana'”.

O texto de Michelle Zauner me parece um exemplo perfeito do poder da literatura – e da arte como um todo – em comunicar, construindo vínculos entre o leitor e a obra. Em como uma história tão pessoal consegue ser universal – levando à identificação pelos leitores – justamente naquilo que traz de mais íntimo, de mais humano. “Aos prantos do mercado” é um olhar profundo e original para o luto, para a identidade e, no fim, sobretudo, para o mais genuíno amor. 

Capa do livro Aos prantos no mercado. Créditos Fósforo Editora
Capa do livro Aos prantos no mercado. Créditos Fósforo Editora

Encontre “Aos prantos no mercado” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 26/12/22

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