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A história de Ângela Diniz é apagada no filme “Ângela”, ainda que ele leve o nome da socialite

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Estrelado por Isis Valverde, o filme acaba reduzindo a história de Ângela Diniz ao relacionamento terminado em feminicídio

Por Helena Tomaz | Assistente de conteúdo

É provável que quem for ao cinema para assistir ao filme “Ângela” a partir da expectativa gerada pelo bem sucedido podcast Praia dos Ossos” (2020), da produtora Rádio Novelo, se sentará na cadeira esperando ver uma narrativa sendo desenvolvida com características similares. Isso porque, ao longo de oito episódios, a produção esquadrinha a história da socialite mineira Ângela Diniz (1944-1976) com uma qualidade extraordinária e uma série de depoimentos de pessoas que viveram a época, além de trechos de reportagens da época.

Isis Valverde caracterizada como Ângela Diniz. Ela tem a pele levemente morena, cabelos castanhos presos em um penteado de festa, é magra e usa um vestido preto tomara que caia de baile. Ela está sentada em um ambiente escuros, está séria e apoia o antebraço sobre a perna.
Isis Valverde caracterizada como Ângela Diniz para o filme Ângela. Foto: Downtown Filmes | Aline Arruda

No entanto, o longa-metragem, que está em cartaz na capital mineira em duas salas, pode decepcionar parte do público ao optar por uma outra abordagem do crime ocorrido no dia 30 de dezembro de 1976, e que entrou para a história dos crimes que mobilizaram o país.

Isso porque enquanto o podcast aborda, para além do crime, a ascensão social de Ângela Diniz e, por tabela, as consequências sociais do feminicídio, o filme dirigido por Hugo Prata e Fábio Zavala, com roteiro de Duda de Almeida, centra o foco no relacionamento abusivo que a socialite manteve com Doca Street, o homem que a matou. É, claro, uma escolha.

https://open.spotify.com/show/2Kki0lWqyMWegWAFe2mZOg?si=a9aec0ad8fa545b7

Mas, para além da análise social do caso, focar a narrativa no relacionamento dos dois pode soar como um desperdício. Ângela era uma figura ambígua, é verdade. Mas é exatamente isso que torna a história dela interessante. Ela foi criada na alta sociedade mineira, estudou nas melhores escolas da capital mineira, se casou aos 17 anos e, assim, teve filhos muito cedo.

Ainda jovem, no entanto, se separou, o que ainda causava estranheza à época, particularmente, em Minas. Em função de um acordo com o ex-marido, teve que deixar os filhos em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, para onde se mudou, ficou conhecida como “a Pantera de Minas”. Se dizia contrária ao feminismo, mas, apesar de tudo, parecia corajosa. Mas pouco ou quase nada disso aparece no filme.

Direção de arte

A direção de arte de “Ângela” segue um caminho mais bem sucedido do que o roteiro: a caracterização de Isis Valverde, por exemplo, surpreende. Assim, apesar de ela não guardar muitas semelhanças físicas com a socialite da vida real, em alguns momentos realmente chega a lembrar Ângela Diniz. E, aqui, vale ressaltar um ponto positivo: a escolha de uma atriz mineira, tal qual a personagem. A caracterização de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, interpretado pelo ator Gabriel Braga Nunes, também não deixa nada a desejar.

No entanto, a questão aqui é novamente a sensação de um potencial inexplorado. Seja na cenografia, no figurino ou na fotografia, o filme poderia ganhar mais. Isso se não tivesse a ação centrada quase exclusivamente na praia em que Ângela foi assassinada a tiros. As primeiras cenas do filme, que se passam ainda na capital, interessantes e dão a breve impressão do que a produção poderia ter sido se o roteiro permitisse que esses aspectos fossem explorados.

Isis Valverde como Ângela. Ela é branca, tem cabelos e olhos castanhos. Apoia o antebraço na porta do carro conversível no qual está sentada e a mão vai ao rosto. Ela está séria.
Isis Valverde como Ângela Diniz. Foto: Downtown Filmes | Aline Arruda

Segunda chance

Vale lembrar que a já citada Rádio Novelo vendeu os direitos do podcast para a Prime Video. A série deve ter seis episódios, abordando “toda a trajetória dela [Ângela Diniz] antes de ser assassinada pelo empresário Doca Street, em 1976, mas sem focar nessa parte”, conforme divulgou o jornal “O Globo”, em março de 2023. De acordo com a jornalista Patrícia Kogut, a direção foi entregue a Andrucha Waddington e a atriz Marjorie Estiano está cotada para dar vida a Ângela. Resta, assim, aguardar a segunda chance de essa história ser contada.

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