Literatura
Em ‘Risque esta palavra’, Ana Martins Marques refina observação da vida
Novo livro da poeta mineira é publicado pela Companhia das Letras
Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente
Literatura
Novo livro da poeta mineira é publicado pela Companhia das Letras
Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente
Por Gabriel Pinheiro | Colunista Ana Martins Marques
Risque esta palavra é o novo livro da poeta mineira Ana Martins Marques, recém lançado pela Companhia das Letras. O trabalho é dividido em quatro partes: A porta de saída, Postais de parte alguma, Noções de linguística e Parar de fumar. Cada bloco traz temáticas, formas e experimentações próprias, mas há uma linha que os vincula, um elo que perpassa os textos deste seu novo trabalho: a sensível observação do cotidiano realizada pela autora.
Os temas de Risque esta palavra são muitos e são ricos em significados, perseguidos pela poesia de Ana em seu processo de escrita. Encontramos no conjunto o tempo, a viagem, o deslocamento, o estrangeiro, o amor, a saudade e a memória. Há palavras aqui que gritam, enquanto outras são permeadas pelo silêncio. Caminhamos das lembranças da infância à morte – e o luto daqueles que permanecem aqui vivos. Neste processo de luto social coletivo que vivenciamos hoje no Brasil, alguns dos poemas ressoam de maneira especial: “Quem sabe tudo o que morreu/ com quem morreu?/ Um livro nunca escrito/ um novo amor”.
O próprio fazer poético é um dos pontos centrais de Risque esta palavra, onde Ana diz tanto do trabalho do poeta quanto do tradutor. A tradução como uma reescritura do texto estrangeiro. “Você se dá conta/ de repente/ de que muitos dos poemas que ama/ foram na verdade escritos/ por seus tradutores”. Em um dos poemas do bloco Noções de linguística, ela escreve sobre Roberto Bolaño que, apesar de ser conhecido principalmente por sua prosa, se considerava, antes de tudo, um poeta. Sendo, inclusive, o personagem “poeta” uma figura de protagonismo em seus romances. “É possível que os poemas sobrevivam/ como fantasmas de poemas/ assombrando os romances”.
Na última parte do livro, Marques traz uma coleção de poemas sobre o hábito de fumar e, especialmente, sobre o parar de fumar, decisão tomada pela própria em anos recentes. Aqui estão alguns dos versos mais bem-humorados do volume, a escritora que, de repente, se vê sem seu companheiro fiel, que lhe dava a possibilidade de se afastar do grupo em eventos sociais, se isolar pelo tempo de queima da brasa. Aqui ela também escreve sobre outra poeta, Wis?awa Szymborska. Não sobre a poesia da polonesa, mas sobre uma foto dela à época do Prêmio Nobel, com a cabeça jogada para trás segurando um cigarro: “soprando para cima a fumaça/ que se mistura/ com seus cabelos brancos”.
Ana Martins Marques se interessa pelo pequeno, pelo comum e pelo cotidiano. A poesia que surge quando menos se espera – no transporte público, no guichê ou no supermercado, como ela aponta – numa observação atenta e delicada das coisas do mundo. No título, ela nos pede: Risque esta palavra. Faço o que me foi pedido, risco não só uma, mas muitas ao longo da leitura. Não para apagá-las, mas para destacá-las, para guardar na materialidade da folha, do papel, seus efeitos em mim.
“Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio,
que foi quebrado
Não há palavra que não seja marcada pelo silêncio
como camisas que secaram
presas ao varal”
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura | @tgpgabriel
Publicado em 06/08/21