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Poemas de Amanda Gorman em “Seremos chamados pelo que levamos” preservam o passado e apontam para o futuro

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Jovem poeta, que declamou um texto autoral na cerimônia de posse do atual presidente norte-americano, é publicada no Brasil pela Intrínseca

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Supostamente, o pior ficou para trás”, escreve a jovem poeta norte-americana Amanda Gorman no primeiro verso do primeiro poema deste “Seremos chamados pelo que levamos”. O pior aqui é a pandemia da covid-19 – espécie de eixo-norteador deste conjunto de poemas. Mas não só. É também todo um passado de segregação e de apagamento que, ainda, insiste em manter seus reflexos no presente. Com tradução de Stephanie Borges, o livro é um lançamento da Intrínseca.

Passado e presente

Amanda Gorman faz um interessante entrelaçamento entre a história norte-americana e a pandemia da covid-19. De um passado efetivamente longínquo a um passado recente que, por mais estranho que soe, parece tão distante. À luz da pandemia e do isolamento social, Gorman olha também para a pandemia da gripe espanhola, para a Primeira Guerra Mundial, para o Estados Unidos pré-direitos civis, para a violência incessante contra os corpos negros e contra os povos originários. “Essa república é sombria desde sua criação./ Um país de armas & germes &/ De terras & vidas roubadas”. 

A poeta nos diz que a solidão – esse sentimento, em nossa geração, talvez nunca tão globalmente compartilhado como naqueles anos de 2020 e 2021 – sempre foi um custo para alguns, enquanto um privilégio para outros. “Pediram que alguns lidassem com uma fração / da nossa exclusão durante um ano & isso quase destruiu tudo o que pensavam ser. Mas nós ainda estamos aqui. Ainda caminhando, ainda contidos”. Para o opressor, Amanda complementa, “o isolamento social\ é uma humilhação. É ser menos livre, ou pior, alguém menos branco”.

Rompimento com as formas

Alguns dos poemas de mais força da jovem escritora são aqueles que brincam e rompem as formas, seja por meio de quebras de linhas ou pela própria diagramação da página. Versos ganham a forma da bandeira norte-americana para nos lembrar: “A questão é que nosso país raramente conta todos que importam. Por isso o/ Vermelho escorre da nossa bandeira”. Em um bloco de textos chamado “Reparação”, Amanda faz uso da técnica do apagamento. O seu gesto poético se dá a partir da remoção de partes de documentos e cartas – tanto de civis quanto de figuras públicas como o presidente George Washington – reconfigurando-os e descobrindo ali novos sentidos. “A chave do apagamento construtivo – & não destrutivo – é criar extensão, e não uma extração”. 

Há neste bloco um flerte com a ficção científica que apaga e reconfigura partes de um relatório de 1922 – The Negro in Chicago – transformando-o em uma especie de poema-questionário, com perguntas e respostas. “Esse poema & suas dores são ao mesmo tempo reais e imaginadas, assim como nós. Isso quer dizer que, por meio de algumas ficções, achamos os fatos.”

Seremos Chamados Pelo Que Levamos – Intrínseca

Preservar o passado, apontar para o futuro

Se olha para o passado, “Seremos chamados pelo que levamos” é também um barco que aponta para o futuro. “Esse livro é uma mensagem em uma garrafa”. Navegando nas águas turvas e revoltas do tempo presente, Amanda Gorman mergulha com sensibilidade em temas como a identidade, a história, a revolução, o luto, a memória, a linguagem e a própria poesia. O poeta como aquele preserva o passado. “Às vezes só precisamos de um lugar/ Onde possamos sangrar em paz./ A única palavra que temos para descrever isso é/ Poema.”

O monte que escalamos

A Intrínseca também lançou uma edição especial do poema “O monte que escalamos”, escrito e declamado por Amanda Gorman durante a cerimônia de posse do atual presidente estadunidense, Joe Biden. O olhar esperançoso de Gorman a transformou na mais jovem poeta a participar de tal cerimônia, colhendo elogios de Oprah Winfrey, que assina o prefácio da publicação.

“Quando chega o dia, nos perguntamos:
Onde podemos encontrar a luz
Nesta escuridão sem fim?
A dor que cada um traz, um mar que devemos cruzar.”

Encontre “Seremos chamados pelo que levamos” aqui

Encontre “O monte que escalamos” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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